Lama

por Sarita Gianesini

Caminhava esquadrinhando o chão. Fazia isso há anos, evitar tropeços em calçadas irregulares, mas principalmente para evitar presentes caninos. Naquela tarde cinza de Dublin encontrara algo totalmente inesperado no caminho. Uma poça. Não de água quase limpa que a chuva deixa. Mas de lama. Era a primeira vez que reparava em tamanha irregularidade numa das ruas da cidade.

Tal como criança brincando na chuva, o impulso inicial foi dar um pisão bem no meio daquela piscina de terra diluída. Não podia. Estava indo para o trabalho. Precisava chegar ao restaurante com o uniforme imaculadamente preto. Nunca pensou que fosse sentir falta da lama. De buracos de rua.

Seguiu a calçada beirando o muro de pedras do Phoenix Park pensando em quantas vezes foi escalada para escrever sobre buracos de rua nos tempos de reportagem. Dez vezes. Com certeza, mais do que isso. Buraco de rua sempre rende uma história justa. Já tinha visto colegas torcendo o nariz pra esse tipo de pauta. “Porra, eu, logo eu que sou tão bom e escrevo sobre o assunto importante tal fazendo matéria de buraco de rua?”.

Nunca se importara. Por isso, quando voltava para a redação com as botas 35 cobertas de lama — ou de pó, dependendo da vontade dos céus — pisava como se carregasse uma espécie de troféu envolta dos pés. Afinal, tinha ido lá. Em algum momento da vida havia ouvido ou lido em algum lugar que “repórter bom é repórter que suja o sapato na rua”. Desde então só se convenceu que a coisa — no caso, o sonho caído do jornalismo — só poderia ser bem feita se não tivesse a intermediação de banda larga, antenas ou fibra ótica.

Sempre adorou a rua, A Alma Encantadora das Ruas de João do Rio: “A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopeia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas”.

Por isso ainda continua vagando à procura de coisas para o olhar. Mochila nas costas depois da aula, andando por ruas que nunca viu. Às vezes, são as mesmas ruas que já passou centenas de vezes sem nunca ter levantado os olhos para perceber como termina o prédio lá no alto, que cor têm as janelas, que comércio a construção abriga. O lugar favorito: qualquer rua nova para explorar sem pressa e sujar os sapatos com saudade.

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