Leite

por Sarita Gianesini

Lembro exatamente do momento em que passei a detestar leite. Tinha uns cinco anos quando fui posta diante de um café quase branco. Flutuando naquele mar caramelo, mini icebergs. Flocos de nata. Tentei, juro que tentei beber. E a nata desceu a garganta querendo voltar. Desde então, decidi que evitaria leite sempre que possível.

E não foi algo fácil de fazer sendo uma criança de roça. Assim como o macarrão sob o sol, o leite integral, gordo, fresco, era tradição de família. Correr morro abaixo fugindo dos quero-queros e das poucas cabeças de gado que meus avós mantinham era das aventuras mais emocionantes daquela época.

No rebanho, nunca havia mais do que cinco integrantes: um boi, um touro sempre bravo, um bezerro ou novilho e uma ou duas vacas leiteiras. Ver meus avós prendendo os animais era cerimônia quase que diária. Subia o morro ladeado com as três palmeiras rumo a casa deles na garupa do meu pai, que depois de um dia trabalho ia ajudar os pais nessa tarefa.

Enquanto ele e o nonno prendiam cada animal no cocho correspondente eu me pendurava na cerca de madeira coberta de líquens e arame-farpado enferrujado com olhos arregalados. Afinal, aquele era o momento mais tenso da operação toda, pois era nessa hora que algum bicho poderia dar algum coice, tentar fugir, ou algo do tipo.

Esperava até que fosse seguro abrir a porteira, mas me mantinha bem longe das patas traseiras dos bovinos. Então vinha a nonna. Uma caneca de alumínio numa mão, o banquinho tosco na outra e o avental com o bolso recheado com pipa, fumo, fósforo. Ela sentava, ajeitava a saia e o avental, preparava a pipa e riscava um fósforo para começar a fumar. Só então começava a ordenha com a sinfonia do leite batendo no metal. Meus primos da cidade grande se deliciavam quando vinham visitar a nonna e podiam tomar o leite recém-tirado, ainda morno. Eu, até cheirava o leite fresquíssimo, só nunca tive coragem de provar.

Depois do dia dos icebergs de nata, pingar leite no café virou sacrilégio. Passados alguns anos, a produção de leite da família acabou, minha mãe passou um tempo comprando leite fresco de um produtor local, até mudar para as caixinhas. Segui firme com minha abstinência láctea por anos. Aqui, em Dublin, virei uma consumidora regular de cappuccinos, fazendo de conta que não sei quanto leite a bebida leva escondendo rápido a mistura com a tampinha de viagem.

Porém, como diria Forrest Gump “Life is like a box of chocolates. You never know what you’re gonna get”. E cheguei no momento em que o leite vem cobrar minha aversão. Tenho que saber preparar o maldito para cappuccinos, lattes, macchiatos, etc. Minhas primeiras 32 tentativas falharam. Tremo só de pensar em chegar perto do tal steamer, o caninho que vaporiza e deixa o leite cremoso.

Pacientemente, um dos italianos que trabalha comigo ensinou quantos graus preciso inclinar a caneca, como ligar a bagaça, como o leite deve ficar: “It should be shinning”. É evidente que não consegui. Cheguei a amaldiçoar em voz alta os italianos que inventaram essa infinidade de cafés com leites de moléculas expandidas e adocicadas.

Só que a necessidade me obriga a parar de lutar contra a humanidade que prefere macular com leite o sagrado café. Gastei horas assistindo vídeos de vaporização no youtube, lendo, fazendo um curso para baristas iniciantes. Passei a última semana pedindo cappuccinos só para espiar como as pessoas que preparam a bebida se comportam diante do leite e do steamer. Não vi ninguém tremendo por conta disso.

Hoje, na primeira tentativa de cappuccino do dia, o leite parecia certo. Brilhou. Até eu inventar de fazer onda e girar a canequinha para tirar as bolhas. Resposta do leite: voar para todos os lados. Só espero que a fonte de todos os laticínios me perdoe por uma vida inteira de rejeições. Admito que o leite tem seu valor. Só quero uma trégua. Bandeira branca! Mas meu café preferido continua sendo preto, sem açúcar, por favor.

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