Nós e o amor

por Daniela Matthes

Era impossível me concentrar em Assis, Braga e do Rio. Os três, juntos, não venciam as tosses, gemidos e conversas sussurradas naquele quarto. Meu olhar distraído diante do livro aberto se perde na garota com cabelos longos e lisos. Sentada e arqueada sobre o leito, parece inerte àquilo tudo. Suponho que tem a minha idade.

Algo gotejava do pacote erguido ao alto seguindo por tubos à veia dela. Fecha os olhos quase escondidos pelos cabelos castanhos levemente avermelhados divididos ao meio sobre o peito, cobrindo os dizeres estampados da blusa cinza, com babados na cintura. Com uma delicadeza que destoa, o rapaz se entretém desfazendo os nós naqueles fios que chegam à cintura dela. O pente roxo passeia com cuidado pela cabeça. Em cada puxada, mesmo que leve, segura o cabelo para que a pressão não chegue à cabeça. Talvez tente puxar para fora os nós que estão a pressionando há 48 horas, que parecem a todos nós, intermináveis. Rosto fino, olheiras roxas, pele morena, mas desbotada pela dor de cabeça que lhe afligia.

O esposo — denominação que usou para responder à enfermeira — seguia a saga de desatador. Uma copeira conseguiu uma dúzia de informações e arrancou dele meio sorriso. As paranaenses são lindas e fortes, logo ela vai ficar boa, garantiu a curiosa ao cabeleireiro das 9h do leito 629–3. Ele é um tipo comum, magro, cabelo negros, curtos e desgrenhados. Provável consequência da noite torta na cadeira destinada aos acompanhantes dos doentes. Camisa branca com listras azuis. Um par de asas desenhado no peito e o dizer: street boys.

Na manhã daquele sábado de inverno, mas com sol forte e calor, ele poderia estar polindo o carro recém lavado. Bebendo com os amigos em um posto de combustíveis. Passeando, exibindo o possante para as meninas da rua. Empinando moto. Dormindo, depois da balada. Indo à praia. Na academia. Na faculdade. Em casa.

Nós desfeitos, ele prende com cuidado as madeixas para trás, deixando-as cair sobre aquelas costas magras e cintura fina. Ela tenta abrir os olhos, brigando com a luz farta do quarto. Deita-se de lado. Só mais tarde, quando o vejo dormindo sentado na cadeira, mas com a cabeça forçadamente ao lado da dela, torto e de mãos dadas, consigo reparar nos dizeres da blusa que ela vestia. Music is my true love. Só um amor verdadeiro desataria tantos nós.

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