Trilhos
por Sarita Gianesini
Não havia nenhum barulho metálico riscando os trilhos. Apenas passos. Surdos. Batendo o concreto das calçadas. Em silêncio. Fones de ouvido calando a realidade em volta. Cada um caminhando em seu próprio mundo. Mas para onde? Provavelmente para não perder a hora. A hora de quê? O tempo em que cada um vai saber porquê está fazendo as coisas que andamos fazendo como sempre.
Um dia saberemos de fato o que estamos fazendo aqui? No meio do meu próprio atraso, afundava o chão com as solas das botas um pouco maiores que meus pés com a mesma força do pensamento que me atormentava. Lembrei do dia na escola em que tive que responder uma pergunta que me incomoda até hoje. Era aula Educação Religiosa, estudávamos na última sala do corredor, a parede grudada com o turbulento bicicletário. Tinha uns 13 anos quando me vi sufocando diante daquela folha de perguntas apertadas em xérox reduzido pra ocupar menos espaço. O problema não era a prova. Era aquela questão específica perturbando minha cabeça de 13 anos.
“Qual o seu maior medo?”
Nem tinha menstruado ainda, vestia roupas largas pra esconder o corpo, estava à anos de perder o BV, não tinha a mínima pista de qual profissão seguiria. Mas o temor… ah, o temor. Isso era cristalino na minhas ideias caraminholantes de 16 anos atrás. Pensei muito. Não que não soubesse a resposta. O que eu não sabia era se teria coragem suficiente para registrar meu maior medo. A lápis escrevi algo como: “Morrer sem ter feito diferença nenhuma no mundo”.
Já passei por apertos procurando sentenças nessa vida. Entretanto, não lembro de nenhuma frase tão difícil de escrever como essa. Algum tempo depois recebi o teste de volta, corrigido. A tal resposta veio circulada em marca texto amarelo. No corredor, o professor me puxou de canto e disse que aquela era uma resposta muito impressionante para alguém da minha idade. Ele deve ter dito algo mais, como que eu deveria procurar ajuda psicológica. Não lembro.
O causo é que o mesmo medo me assombra desde então. Sempre. Às vezes passa dias, semanas, meses inteiros sem nem passar para me dar um oi. Volta e meia ele ressurge. Risca meus pensamentos como o Luas corta Dublin em barulhos estridentes. Me paralisa. O que minha cabeça de 13 anos diria se me visse caminhando com o mesmo temor sem solução perturbando minhas ideias de quase 30 anos?
Talvez aquela adolescente diria que o mundo é grande demais para passar batido por ele. Eu, aos quase 30, responderia que o mundo não é um só. São muitos. Pequenos. Fragmentados em diversas realidades. E por serem tantos mundos num só, seria quase impossível passar sem estremecer para o bem ao menos um pedacinho de algum micromundo por aí. Uma hora, as coisas voltam aos trilhos.