Vento
por Sarita Gianesini
É verão. Finalmente o céu cinza de inverno desanuvia e a temperatura vai acima dos 15º Celsius. Pelas enormes janelas da sala o sol atravessa a vidraça grossa pela sujeira de meses. Ele, o sol, convida pra rua. Maroto, chama pra caminhar pela beira do rio.
Ela aceita. Toma um banho, lava os cabelos e decide não usar secador de cabelo dessa vez. Quer a água evaporando ao tempo que é pros fios virarem cachos frouxos sem pressa. Vamos brincar de faz de conta. Faz de conta que é Brasil e que o cabelo vai estar seco em 20 minutos. E a roupa? O que vestir nesse calorão que dá as caras no norte?
Abre a única porta do guarda-roupa que é sua e pega um suéter branco e o jeans colorido que ousara comprar. Só que é muita luz entrando pela janela. As pernas transparentes de inverno gritam por sol sem Trifil — mentira que é tudo 5 pares por $2 na Penneys. Hoje ela iria assim, wrap dress, von Furstenberg de fast fashion, 30 anos na cara, Forever 21 I love you.
Óculos de sol a postos e a calçada era dela. Toc-toc-toc. O salto da botinha castigando o pavimento. Na descida do trem a cidade logo mostrou que estava mais para abertura de Sex and the City do que para locação de desfile imaginário. E o verão, ah, o verão, mero engodo.
_ Oh, Dublin! Thank you, thank you very much!
Aguaceiro e vendaval. Um vestido envelope ao deus-dará. Como atravessar uma ponte naqueles trajes para chegar no lado Sul? O Liffey e as avenidas paralelas ao rio só fazem canalizar toda a ventania. Lovely. Haja mão pra conter a saia a subir, a sombrinha a virar do avesso, a bolsa escorregando do ombro, o Ray Ban caducando no pé d’água.
E as pessoas andando deeeeeee vaaaaaaaa gaaaaaaaar. Fazendo turismo na chuva. Ela só queria chegar. E lá vem o voluntário da ONG tal pedir um minutinho. I’m sorry, I’m late. O calçamento escorrega. O cidadão fuma a despeito da tempestade. Água, vento e fumaça de cigarro na cara. Mais o vestido a voar. Olhares. Sorrisos de quem via ali, uma Marilyn do avesso. Isso é sério? Está acontecendo mesmo?
Dublin cutucava. Mais do que isso, chacoalhava-a com força. Cada um sabe quando a fruta cai de madura e o tempo já não serve de remendo. Era a adorável capital empurrando-a para fora, à força de chuva e vento. Acabou o aconchego georgiano. O encanto da cidade grande com ar de pequena. It just does not feel right anymore. E não é ingratidão. Pelo contrário. É apenas parar, reconhecer todo o amor que Dublin tinha lhe dado, ensacar a viola e seguir adiante.
