paterson

Filme lento, simples, delicado. Uma vidinha declamada em versos que contam tanta coisa da nossa tão pouca coisa ao redor: a caixa de fósforo, o passeio diário com o cachorro, os sonhos infinitos da namorada. E que inveja o amor sem complicações deles dois, só gostando um do outro…

Tanticos de imensidão do mundo! Até a tristeza, quando acontece, é pela imensa dorzinha de encontrar a existência destroçada num caderno de poesias. Lágrimas silenciosas num perambular sem rumo pela cidade. Bem diferente da tragédia óbvia em Manchester à Beira Mar, de lágrimas arrancadas pra fora dos olhos da platéia.

A Lu, com quem eventualmente partilho uma sessão de cinema, gostou mais ou menos do filme. Achou lento, parado, sem muita coisa acontecendo. No fim da sessão, como se nenhum filme tivesse acontecido, só se preocupava com a vergonha de ter derrubado toda a pipoca no chão. Em busca de perdão, se confessou a um dos funcionários do cinema. “Tudo bem, acontece!” absolveu-a o sacerdote de crachá. E ela ficou feliz.

Sempre de falar, caminhava em silêncio, escondida em alguma perturbação, talvez um princípio de dor. “E essa ansiedade”, perguntei. Ela nem respondia eu adivinhava uma dor de amor no sorriso envergonhado, melancólico. “Tô esperando uma mensagem”, ela se confessava. “De amor, né?” provoquei. “Um amigo de um amigo”, ela me explicava. Começaram a sair faz pouco tempo. Dormiram juntos ontem, mas até aquele momento não recebera nenhuma mensagem dele. Pra confortá-la, e talvez lhe conceder alguma esperança, eu disse que existia uma encenação nas trocas de mensagens, “O certo é demonstrar o mínimo de interesse, desprezando quem você interessa pra não ser desprezado por ela. É uma defesa e um ataque ao mesmo tempo”. Ela concordou comigo se recordando de um amigo que disse exatamente pra ela não mandar mensagem alguma, “o contrário é certeza de frustração” ele ainda teria dito.

Pra distraí-la, perguntei do trabalho, das festas que iam acontecer. Conversamos sobre férias e planos viagens. Descobri um irmão e a admiração por um estagiário. Falou das amigas e rimos de um amigo em comum. Ao nos despedirmos na entrada do metrô, me convidou pra uma “troca de livros” que ia acontecer no domingo próximo, no seu escritório, e prometeu outras sessões de cinema…

E ao menos por um instante, como sempre poderia ser e tantas vezes não é, sua tristeza se distraía na nossa conversinha de nada, nessa nossa poesia do dia a dia.

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