Eu também mereço amor

Desde de muito novo me fizeram (e eu também me fiz) crente de que as coisas boas só chegariam com muita batalha e isso incluía o amor e o cariño. Como uma gincana, uma jogatina e até mesmo uma escola, para conhecer esse tal de amor era preciso com muita veemência realizar diversas provas e testes para se ter o tão cobiçado “prêmio” – num termo bem pejorativo mesmo. Na adolescência puis-me a abrir meu mundo, comecei a usar meus artifícios e ensinamentos para ele, virei meu mundo todo de cabeça pra baixo e abri mão de muita coisa pra me sentir bem de perto o que é ser amado mas na medida de que eu me esforçava mais, isso se escapava de minhas mãos, dos meus braços e junto com isso uma sensação de frustração e culpa assolava minha vida e cada vez mais eu internalizava isso, e isso cresceu feito erva-daninha: pensei que, aos que perdem o jogo o amor não é lhe dado, eles não o merecem.
 Eu não desisti, chamava qualquer coisa que me tocava de amor e com o passar do tempo esse “amor” que eu achava que construia em fragmentos aos poucos se virava contra mim, numa espécie de veneno mortal, eu bebia, com uma sede voraz. Machucava mais do que acalentava até chegar num ponto tão exaustivo deste jogo que só comecei a me defender, de tudo que me vinha embrulhado de “amor” até estar tão seco e oco por dentro que as sombras que me perseguiam quando ia à luz se tornaram motivos de desconfiança do que me envolvia. Notei que ao passar dos dias acabei por alimentar esse amor que eu pedia com tanta potência, até que chegasse alguém e me ajudasse a alimenta-lo. 
Estava tão exausto e envolvido por uma frustração tão grande de que diante dessa dor pude revesti-la em uma força maior ainda até chegar no ponto de cessar essa necessidade de afeto/amor fora de mim, que o amor que era prêmio na gincana da vida, vivia em mim sem nenhuma espécie de esforço. Soube na hora que era merecedor de amor, afeto e cariño sem nem mesmo precisar me esforçar, porque o amor é um ato orgânico e sei também que se precisar forçar ou batalhar pra ter o amor de alguém (talvez, o que muito provável que sim) esse amor não é para mim e que dentro da fortaleza “EU” existe um amor ainda melhor: orgânico, genuíno, sem migalhas, sem súplicas e sem culpa.