O meio de tudo
Andei pensando sobre o meio.
Sobre como é não estar de um lado, nem de outro,
mas sem estar em cima do muro.
Um meio digno, um meio necessário.
“Deus vomitará os mornos” vem à mente,
e tudo que está no meio, entre dois lados,
realmente soa rejeitável.
Como o mundo seria melhor sem intermediários,
sem a mídia, que me afasta da verdade,
sem o dinheiro, que me condena à mesquinhez,
sem a palavra, que me trai copiosamente.
Mas espero,
e me coloco no lugar do meio.
Pois quando estou preso no meu próprio lado
e não quero enxergar o outro,
o meio se torna um problema -
já que ele é um anteparo,
é a prova da existência de algo que eu nego
porque não dou conta.
Mas quando vejo pelos olhos do meio,
encontro a fronteira entre duas oportunidades,
igualmente possíveis, simultaneamente impossíveis,
a casa onde coexistem os inabitáveis.
Quando moro nesta casa,
o obsceno não me ofende,
o moralista não me indigna,
o violento não me assusta,
o ingênuo não me incita.
Com o meio,
o mundo gira em torno de um eixo:
cada ciclo me tira da mesmice do medo.
O meio é o vazio,
onde as verdadeiras escolhas estão esperando para serem feitas.
Sem o meio,
só existe o fim e o começo.
