Sugar daddy

“A trégua”, de Mario Benedetti, gera empatia com o velho que curte novinhas

gabrielle camille
Nov 1 · 5 min read

Até algum tempo atrás, o termo “sugar daddy”, usado para se referir a homens mais velhos e endinheirados dispostos a bancar uma novinha em troca de um relacionamento, se restringia às páginas no Tumblr de adolescentes que cultuavam o livro Lolita e a cantora Lana del Rey. Esse ano, no entanto, a expressão caiu na boca do povo, e a modalidade de relacionamento sugar virou até enredo da novela das nove.

A cantora Lana del Rey é referência quando se fala em sugar daddy.

Em A dona do pedaço, exibida pela Rede Globo, o ator José de Abreu interpreta Otávio, um homem rico e casado, mas que mantém casos extraconjugais com meninas que têm idade para ser suas netas. Seu primeiro alvo é Edilene, empregada na mansão em que vive com a família. A jovem, aconselhada pela amiga Sabrina, engravida de Otávio, que, ao saber da notícia, a convence a fazer um aborto. Edilene morre por conta do procedimento, mas o baile segue para Otávio: o garanhão começa a se envolver com Sabrina, e o casal estabelece um relacionamento dentro da dinâmica sugar. Sabrina, a “sugar baby”, vive às custas do velho, que a enche de mimos e dinheiro para ter sua companhia e bimbadas, tornando a relação vantajosa para ambas as partes.

A vida imita a arte: fora das telinhas, José de Abreu, de setenta e três anos de idade, namora a maquiadora Carolynne Junger, de vinte e dois.

Em A trégua (1960), do escritor uruguaio Mario Benedetti, o protagonista Martín Santomé também é um homem maduro, com boas condições financeiras e que tem um affair com uma novinha. Mas, ao contrário da história retratada em A dona do pedaço, a relação dos dois é baseada no amor sincero que sentem um pelo outro, de maneira que, apesar da grande diferença de idade do casal, o relacionamento não pode ser classificado como sugar.

Mario Benedetti tomando um chimas: apesar de ter passado mais de dez anos exilado, período em que morou na Argentina, no Peru, em Cuba e na Espanha, o autor manteve as raízes gaúchas.

O livro é escrito no formato de diário e descreve os dias do viúvo amargurado Santomé, que, prestes a completar cinquenta anos, se planeja para a aposentadoria que se aproxima. A rotina monótona do trabalho como contador é o que mantém sua vida em ordem, e a perspectiva do ócio ilimitado causa preocupação. No entanto, antes mesmo que se aposente, a chegada da jovem Laura Avellaneda à firma de contabilidade arranca Santomé da inércia. Interessado, ele a chama para tomar um café. Ela recusa. Ele a chama de novo, e ela novamente recusa, mas promete que não vai se esquecer do convite. A colega de trabalho cumpre a promessa e, dois dias depois, eles finalmente tomam um café juntos. Santomé, que há muito tempo acreditava ser incapaz de amar, aproveita a oportunidade e reúne coragem para se declarar. Para sua surpresa, seus sentimentos são correspondidos.

Avellaneda, como Santomé se refere à moça em seu diário, tem vinte e quatro anos, mesma idade de Blanca, filha dele. O contador também é pai de Esteban e Jaime, com os quais tem relações distantes e conflituosas –– o que se agrava ainda mais quando ele descobre que Jaime é “maricas”, ou seja, gay. No início do envolvimento com Avellaneda, o personagem enfrenta uma série de dilemas morais, principalmente devido ao medo da reação dos filhos, já que até então ele havia sido um viúvo exemplar, que limitava sua vida amorosa a encontros furtivos com prostitutas. Mas, conforme ele e Avellaneda se tornam mais íntimos, ele se dá conta de que está verdadeiramente apaixonado e que, mesmo com o risco de ser encarado como um velho safado ou de eventualmente ser corno, está disposto a levar o romance adiante.

O livro recebeu uma adaptação argentina para os cinemas, que foi indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 1974.

Santomé aluga um apartamento para ser o ninho de amor do casal em Montevidéu. Lá, vive com Avellaneda momentos de genuína felicidade, uma trégua de alegria em sua monótona e solitária existência. Ele também faz as pazes com o passado: ao encontrar uma carta antiga escrita por Isabel semanas antes de morrer devido à eclâmpsia no parto de Jaime, o protagonista percebe que, se conhecesse a falecida esposa como ela era na época, estando ele com a maturidade dos quase cinquenta anos de idade, escolheria ficar com Avellaneda. Isso não significa que ele não amava a mãe de seus filhos, mas que tinham uma relação acima de tudo carnal, enquanto seu caso com a colega de trabalho era fundamentado nas conversas e afinidades, sendo as bimbadas um ingrediente de menor importância. Àquela altura, já calejado pela vida, era esse tipo de vínculo que o cinquentão buscava.

Ao longo da leitura, esbocei sorrisos com as observações sarcásticas de Santomé, mas também chorei ao ponto de ter que assoar o ranho do nariz no lençol. Ao contrário de outras narrativas que retratam velhos tendo casos com novinhas, A trégua tem o poder de fazer o leitor torcer para que o casal fique junto, mesmo com todas as problemáticas que envolvem os relacionamentos com age gap significativo. Uma obra que arromba o tabu e gera reflexão sobre o envelhecimento.


Nível de exigência da leitura: Baixo, são apenas 180 páginas e, como se trata de um diário, alguns registros têm apenas um parágrafo, de modo que o resto da página referente àquele dia fica em branco.

Obra passível de cancelamento? Sim, o personagem principal faz colocações machistas e homofóbicas, mas deve-se levar em consideração que a obra foi publicada em 1960.

Para quem a obra é indicada? Todos os públicos, mas vale ressaltar que a leitura pode ser um forte gatilho para quem está passando por uma crise de meia-idade.

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