Diário de Bordo

Espanha — Madrid

De novo aquele vento gelado do primeiro contato quando descera da aeronave em terra espanhola. Madrid era uma cidade fria e cinzenta naquela estação de inverno, bastante diferente da que bordava em fantasias.

Uma viagem repentina. Não fazia um mês que, em tolos devaneios, desejava loucamente estar na cidade de seus sonhos mais ousados. Con tus ganas de huir, cantarolava “Te dejo Madrid”, acompanhada da voz enebriante de Shakira, e se imaginava no seu país das maravilhas.

Mas a realidade lhe podava. Achava impossível que aquilo ocorresse naquele momento da vida. No entanto, naquele dezembro de um ano dourado, não podia acreditar no que seu tato lhe dizia: seus pés tocavam um sonho impalpável. Estava na capital de uma Espanha concreta.

Tudo começou com o convite inesperado de uma amiga e, logo menos, dividia no cartão, em parcelas a perder de vista, o passaporte para o que esperava ser uma fuga do que era, em direção ao que almejava se tornar.

Assim, de cara, não achou uma cidade bonita, tampouco se sentiu acolhida pelo clima. Ao pisar naquele solo, coberto de folhas secas, não imaginava as experiências que lhe aguardavam, mas nutria comedidas expectativas (boas).

Para o primeiro dia, por falta de um adjetivo capaz de descrevê-lo fielmente, atribuiu a definição de um dia arrasador.

***

Pois bem, havíamos saído de Barcelona a caminho da capital madrileña. Fomos de ônibus e quem diria que, logo na Europa, passaria pela pior viagem, em termos de desconforto, que pude ter o desprazer de experimentar. Foi horrível. Não pregamos o olho, eu e Laura, lado a lado na poltrona.

Na madrugada a porta que ficava a nossa frente se abriu, alguns passageiros desceram para fumar um cigarro, fazer xixi ou procurar algo para comer (não imagino onde, pois me pareceu que paramos no meio do nada, era um breu e não havia nem sinal de uma alma viva).

Olhamos pela janela, tudo muito escuro. Não posso esquecer de mencionar que congelamos no exato momento que abriram aquela portinhola estrategicamente localizada à frente de nossas duras e não reclináveis poltronas. Acordadas estávamos, acordadas permanecemos até a chegada.

Demoramos um pouco para encontrar as meninas que nos hospedariam em sua casa e nos esperavam na estação de ônibus. Ainda mais demorado foi chegar à Villaviciosa de Odón, onde passaríamos aquela temporada.

Foi um tal de pegar metrô, descer em várias estações, para só então chegar ao ponto do ônibus que conduzia a Villa, lugarejo que ficava a 20 minutos de Madrid. No trajeto me dei conta que seria impossível acertar o destino sem Lila e Karen como guias.

Chegando lá, mal podia esperar para me jogar em qualquer objeto que se assemelhasse a uma cama. O que mais desejava depois de tanta andança era descansar.

Porém, contudo, todavia…como a tia de Laura — Rosana — , que chegou conosco, já voltaria à Valencia no mesmo dia, a ideia era que ela usasse o tempo que ainda permaneceria na cidade para “turistar”. E nada mais justo que a acompanhássemos na empreitada, já que ela tinha ido apenas na intenção de nos deixar na cidade em segurança.

Avistei o sofá como miragem na sala das meninas. Respirei fundo para conter o ímpeto de me atirar nele. Descarreguei parte das malas e fomos então conhecer tudo que fosse possível de Madrid até o instante de nos despedir de Rosana.

Não sabíamos por onde ir, por onde começar, afinal de contas, nunca havíamos estado na cidade e na ocasião do momento não estávamos acompanhadas das anfitriãs que nos receberam. Alguém sugeriu pegar o tal ônibus turístico que pegamos em Barcelona, mas era um passeio que durava um dia inteiro e para otimizar o curto tempo de Rosana, teríamos que agir independentes de roteiros pré-moldados.

Restou-me pôr em pratica aquele velho ditado, “quem tem boca vai à Roma”. E lá fui eu perguntar aos nativos qual o ponto turístico mais próximo — “mas que dê para ir à pé!”, enfatizava tamanha era a indisposição para enfrentar longas caminhadas, depois de uma viagem péssima.

A primeira direção que nos encaminharam seguia uma calçada extensa e bastante inclinada, e, nesse ponto, os nativos aparentemente ignoraram o que disse sobre preferir caminhos tranquilos. Será que eu era mesmo fluente ou estavam sendo apenas gentis fingindo me entender? rs.

(…)Findo o passeio, conhecidas as praças mais recomedadas e avenida mais importante, lá fomos nós, à caminho da rodoviária para deixar Rosana. Eu, arrastada pelas bagagens. Em um dado momento o cansaço me anestesiou e pensei que desmaiaria ali mesmo, no concreto de mais uma das longas ruas enladeiradas que enfrentamos naquele odisséia pedestre. 
(…)
Pela primeira vez na vida senti uma dor que não queria ser chorada sozinha, mas teria que ser pelas circunstâncias que me conduziram àquela situação, teria que ser pela ausência de um ombro-amigo que desnecessariamente me estapeava a face para ser notada.

Deitei-me. Deitaram-se as lágrimas no travesseiro. Estava agora também psicologicamente exausta. Não fosse pelo turbilhão de emoções recentes, minha mente teria sucumbido no ato. Foi, contudo, inevitável pensar na certeza dos amigos que jamais me virariam as costas.

Lembro que ouvi no silêncio e na escuridão do quarto o sono das três meninas a meu redor. Acidentalmente estávamos próximas demais, no espaço físico, pois dividíamos os colchões.

E, se não fora pelos detalhes dos acontecimentos que não narrei, qualquer um poderia sugerir, ao vislumbrar aquela cena das quatro garotas unidas pelos colchões, que além de dividir a cama as mesmas dividiam uma amizade.

Percebi que não raras são as vezes que divisão é apenas circunstancial. Já não me recordo do que sucedeu depois, acho que num dado momento o frio congelou meus pensamentos naquela madrugada para me fazer adormecer.

Continua (…)

***

Por razões que desconhece, mas que a fizeram quase duvidar de ter vivido a experiência, a fatura das passagens nunca vieram.

Escrito em 15 de outubro de 2012.