
Nota sobre música e gênero
Prêmio Caymmi de Música — 2ª Edição
Aconteceu na sexta-feira passada. Quando a gente pára pra pensar se lembra que acontece o tempo todo.
Estive lá para prestigiar o evento porque a minha grande paixão por rádio (e por música) me leva a cair de paraquedas em espaços singulares, mas isso merece um texto à parte.
O caso é que, nas minhas rotineiras andanças, é raro o dia em que não ouço rádio. Principalmente a Rádio Educadora. Sendo assim, é impossível ser ouvinte e ignorar um cenário musical em constante ebulição, pois a Educadora é uma janela fenomenal para a música baiana contemporânea, principalmente àquela que foge da monocultura do axé music.
O outro caso é que eu, também, muito em sincronia às percepções que me são caras, tava lá empolgadona com as moças que eu tanto admiro concorrendo a uns prêmios massa. E aí, conforme iam anunciando os vencedores de cada categoria comecei a me inquietar. E a inquietude que me acomete, como fiz cutucando minha mãe, tia — e quem mais comigo estivesse — , trato logo de passar adiante:
MAS CADÊ AS MOLÍERES?
Entre 110 artistas, técnicos, instrumentistas e produtores indicados, quase nenhuma recebendo os louros da vitória. Ainda estou aguardando que o site atualize os números para me certificar, mas, em minhas contas, foram 3 ou 4 diretamente premiadas e, dessas, duas categorias às quais concorreram eram exclusivamente femininas…OU SEJA…
E quando aquilo tudo parecia se conformar a uma normalidade, eis que surge um feixe de luz.
E com isso eu já sabia que viria um soco no estômago.
Resumidamente, ela então falou da gratidão de ocupar um espaço que era seu. Espaço de mulher. E de mulher preta. Na digna representação de tantas outras, que citou uma a uma, fez um Teatro inteiro ouvir sua voz.
Eu, de cá, nada posso fazer além de lamentar a ainda tacanha visibilidade das mulheres em nossa música e endossar o coro das vozes que falam por nós.
Coisas belas movem a arte, mas, há uma altura dessas, esse obscurantismo no compromisso em garantir reconhecimento e representatividade efetivas ao nosso gênero, no mínimo, é um grande vacilo para um movimento que afirma acreditar na força transformadora da música.
