É Voluntariado ou Emprego?

Brisar-te-ei
Sep 1, 2018 · 7 min read
Cachoeira Loquinhas na Chapada dos Veadeiros-GO / Foto: Lucas Félix

Desde 2015 tenho feito voluntariado em algumas cidades no Brasil e na Argentina. Há mais ou menos três meses desisti de seguir fazendo isso.

Comecei a jornada em abril de 2015. No geral, fiz voluntariado em seis ou sete lugares, em sua grande maioria hostels. Eram trabalhos com trocas, geralmente, bem definidas: trabalhar na limpeza, na recepção, bar, preparo/serviço de café da manhã, vigia e etc. As horas de trabalho e dias de folga variavam de lugar pra lugar. Uns com trocas mais justas (café da manhã, almoço, cama…) e outros nem tanto. Com o tempo, comecei a questionar se tudo aquilo era realmente válido, vendo pela perspectiva da troca como um todo.

Quem pensa que essa troca se resume a somente e exclusivamente trabalho, está bastante enganado!

Você troca experiência, conhecimentos, privacidade, muita energia. Uns mil “Oi! Bom dia!” só pela manhã, mais mil “boa tarde, tudo bem?” depois do almoço e final de tarde, mais um sorriso engessado na cara mesmo que tudo esteja uma bosta, além de ter que se comunicar sempre — e quando eu falo de se comunicar é conversar e puxar assunto — com as pessoas. Hóspedes chegam e se vão todo dia, logo: uma chibatada de troca energética acontece. E olha, como voluntário e acho que até na vida, é bem difícil cuidar 24h das energias que giram ao nosso redor. Falo isso dentro da minha experiência em Hostel/Pousada. Foi aí que resolvi me abrir pra outros tipos de trocas, visto que eu já tinha aprendido tudo o que eu queria nesse ramo de turismo. Comecei a sentir necessidade de fazer algo para crescer como pessoa, pra trabalhar meu eu, minhas pautas de vida.

Vegetação em Pirenópolis-GO / Foto: Lucas Félix

Descobri então um lugar que se apresentava como holístico, espiritual, com atividades relacionadas aos conhecimentos de Osho e ao tantra, além de outras coisas. E a troca, comunicada verbalmente como eu sempre fazia, era bem justa! Era uma oportunidade de estudar, ter contato e se aprimorar em conhecimentos antigos e ainda conectado a natureza. Mas nem tudo foram flores e mantras.

Durante minha busca por novos lugares para fazer trocas, período que antecedeu esse último voluntariado citado acima, encontrei muita, mas muita gente dona de hostel/camping/ecovilas/altos rolês sem noção do significado da palavra Voluntariar. Encontrei “voluntariados” com trabalhos de 40h semanais, seis dias na semana, sendo um almoço e uma cama sua moeda de troca. Oi? Além, claro, de ser 100% submisso aos donos que, por vezes, preferem ficar de boa enquanto os “voluntários” fazem seu estabelecimento crescer. Em uma entrevista via skype com um hostel do Rio de Janeiro inclusive, o dono do local agia como se eu estivesse fazendo uma entrevista de emprego, sem se mostrar contente com essa possível troca ou perguntar algo da minha vida, a não ser as experiências de trabalho.

Sim, é óbvio que um proprietário deve fazer perguntas a fim de saber mais sobre aquela pessoa que possivelmente trabalhe no estabelecimento dele. Mas esse não é o ponto.

Vegetação em Pirenópolis-GO / Foto: Lucas Félix

Primeiro, vamos ao significado de vo·lun·tá·ri·o

adjetivo

1. Que se faz de boa vontade e sem constrangimento.

2. Amigo de fazer a sua vontade; caprichoso.

3. Que faz parte de uma corporação por mera vontade e sem interesse.

Podemos notar uma grande diferença entre emprego e voluntariado, não? Voluntariar sugere um trabalho de boa vontade, sem pressão, com compromisso, onde a pessoa é auto-suficiente, sem interesse. Ela foi até “praticada” em nossos tempos como forma de troca. Já as características de um emprego são diferentes, onde existe o empregador, o trabalhador, a dependência, subordinação. Resumindo: não podemos mascarar uma coisa com outra! É tipo falar que ciúmes são sinais do amor do outro! Se você quer alguém pra fazer tudo dentro do teu negócio, pague por isso. Usando hostel/pousada como parâmetro: Um café da manhã e uma cama não pagam essa experiência! (ou experimenta fazer isso, trabalhar fora pra ganhar grana pra poder comer, viajar, viver e ainda ter forças pra colocar os projetos pra frente! ❤ )

Lembrei até que: A gente não foi feito pra se matar de trabalhar. Ainda mais pros outros! HAHAAAYY Essa máscara já não tá rolando, @!

Óbvio que tem pessoas acatando tudo isso silenciosamente, inclusive pagando para trabalhar e tá tudo bem. Né? São experiências diferentes pra pessoas que vivem na cidade grande, que estão cansadas dos trabalhos padrões, da rotina uó e querem um descanso, que buscam nem que seja UM DIA próximo ao mar, a natureza, longe do caos. Imagina duas semanas, um mês?! Mas é bem diferente do perfil dos viajantes, mochileiros e nômades da nova era.

É preciso entender que entre voluntariar e ter um emprego convencional existe uma linha de diferença que dá duas voltas inteiras no nosso planeta.

Um é por vontade, vem de dentro. Outro é por obrigação, dinheiro.

Cachoeira Loquinhas / Alto Paraíso de Goiás-GO / Foto: Lucas Félix

E isso me volta a meu último voluntariado. Foi o lugar que fiquei menos tempo e, com toda certeza, o pior para se trocar trabalho e energia. Uma experiência que eu defino parecida com os trabalhos da escravização moderna, onde donos e herdeiros de empresas mascaram abusos e negligências trabalhistas com “voluntariado”. Mesmo longe, ainda sinto o desrespeito e a falta de empatia, principalmente com trabalhos pessoais meus. Tudo mascarado com espiritualidade!

Pra mim, vejo que uma troca considerada justa seria mais ou menos assim (isso caso a autonomia não seja uma alternativa): 25h de trabalho por café da manhã, almoço (vegetariano, sem gastos com carnes) e cama. (Mais horas que isso já não funcionam pra mim, visto que, no meu caso, preciso trabalhar fora/fazer freela pra juntar grana.)

É de extrema importância, também, ver se os horários do trabalha vão funcionar pra você!

Não adianta fechar com um lugar pra voluntariar 32h por semana, sendo que você necessita trabalhar em outro lugar pra fazer grana. Se você tem dinheiro guardado e pode ficar só com o voluntariado, vivendo de boinha, esse não será um empecilho para você!

Não esqueça que o seu tempo de descanso precisa ser um fator a ser considerado na hora de escolher um local para voluntariar. É de extrema importância ter um tempo pra recarregar as energias! Lembre-se que você é só um humano, não uma máquina.

Com tudo definido e amarrado, se estabelece um compromisso entre você e o outro. Assim como eles não podem ser folgados, o voluntário também precisa, PELO MENOS, exercer o que lhe foi atribuído. Coerência, bebê! ❤

Chapada dos Veadeiros / Foto: Lucas Félix

Para concluir todo esse arrudeio, é simples meu povo: Tem mil lugares por aí com portas abertas e escancaradas para receber voluntários. Você vai encontrar ecovilas, hostels, pousadas, escola de idiomas, aldeias… Mas OLHO!

É real e oficial que agora a onda é voluntariar! Tá todo mundo querendo e tá dando mais voluntário nesse mundo que caju lá no Ceará! Com uma demanda grande, muita gente vai se aproveitar. Vai ter muito lugar massa, que vai ser tão massa de estar ali compartilhando aquele momento com aquelas pessoas que trabalhar vai, também, ser prazeroso. Mas vai ter muito lugar bem meia boca (e que possivelmente vai te sugar e pode ser que você só perceba quando for tarde ou tenha acontecido alguma situ chata. bu.).

Como viajante, nômade ou sei lá como você quer me chamar, nesses três anos aprendi, vi, compartilhei, fiz muita coisa com meio mundo de gente de todo canto da Terra. Foi massa e é massa! Mas é cansativo pra alguns, pra outros tem a ~época de repouso~. Hoje o caminho que escolhi é de sim, seguir viajando, descobrindo, aprendendo. Mas tenho buscado uma autonomia financeira pra poder pagar um aluguel num lugar onde eu possa focar, movimentar e dar forma aos meus projetos. E morando em hostel, “comunidade”, pousada, isso não é tão fácil. Vai faltar energia, tempo, dedicação.

Hoje minha troca de serviços são por caronas, comida, dias num quintal acampado em Alto Paraíso. A autonomia vem com a Valente Itinerante, a Brisar-te-ei, com os freelas. As trocas de experiência surgem nas caronas, em viagens, em parcerias. As vontades e necessidades agora são diferentes e tem sido um ciclo bem mais motivador!

Trilha dos Cânions / Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros / Foto: Dhyan Gandha

Agora sim, finalizando!: Possivelmente a melhor prevenção, para evitar possíveis rolês meio mé, é buscar avaliações antigas (se você usar plataformas como WP) do local, ver se a troca é justa para ambos (não pense só em você ou no próximo!) e, principalmente, se permitir e ficar ligadx em como sua energia interage com o ambiente. Não esqueça de ouvir sua intuição! :)

Não sejamos trouxas. Questionemos!

Contato: querobrisar@gmail.com

Brisar-te-ei

Written by

Uma das infinitas formas de brisar. Breve: #BrisarteeiMAG ǫᴜᴇʀᴏʙʀɪsᴀʀ@ɢᴍᴀɪʟ.ᴄᴏᴍ

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade