Lançamento do livro “Escrachos aos torturadores da Ditadura”
Sou graduada em História pela Universidade Federal da Paraíba e no ano de 2014 defendi na Universidade Federal de Pelotas minha dissertação de mestrado intitulada “O tempo da memória política. (Re)significando os usos sobre a memória do período militar no Brasil”. Sim, nome grande, os historiadores adoram, e quanto maior, mais delimitado a pesquisa ou o texto é (ou pelo menos deveria ser).
Pois bem, pesquisei sobre um tema da história do tempo presente, um desafio para os historiadores, pois como diria Roger Chartier (1998), é “um encontro [do pesquisador] com seres de carne e osso que são contemporâneos daquele que lhes narra as vidas”. Um dos maiores desafios foi, sem dúvida, a escolha das fontes. Para isso, a delimitação temporal foi fundamental.
A pesquisa histórica desenvolvida, sob a orientação da Drª Letícia Mazzucchi, buscou realizar uma análise interdisciplinar de uma manifestação em “prol da memória”, que também é uma manifestação por verdade e justiça sobre os crimes da Ditadura civil-militar no Brasil: os escrachos aos torturadores.
Minha preocupação após a defesa foi compartilhar os resultados da análise com a sociedade civil, e não apenas com meus pares da academia. Afinal, pensamos e trabalhamos para contribuir com a produção do conhecimento, que precisa ser plural, e circular para além do Lattes. Mas me preocupava, também, dar um retorno aos atores sociais que contribuíram com a pesquisa, me recebendo em suas atividades, me concedendo entrevistas de história oral e etc. Por isso, a ideia de transformar a dissertação em livro buscou cumprir esses dois papeis: compartilhar com a sociedade a análise sobre os escrachos, e dar um retorno ao grupo social investigado.
A impressão da obra foi possível graças a ajuda de amigos e também de desconhecidos, que contribuíram por meio de um financiamento coletivo. O Núcleo de Preservação da Memória Política também comprou algumas unidades do livro, ajudando, desta forma, com a realização da obra.
O livro saiu, com vontade própria de ganhar o mundo, ser recebido por ávidos leitores, mobilizar mais cidadãos a lutar por respeito aos Direitos Humanos. Espera também contribuir com esclarecimentos sobre um tema por tantos anos ocultado pelo Estado brasileiro: os crimes cometidos pela Ditadura e a importância da responsabilização aos criminosos.

O primeiro lançamento foi realizado na Aula Inaugural do semestre letivo do Curso de História da UFPB. Compartilhei a mesa com minha orientadora da graduação, a inspiradora professora Drª Lúcia Guerra, que com muita garra coordena o Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos da universidade. Foi uma imensa alegria poder falar para alunos calouros e amigos professores presentes na atividade.

Falei do recorte temporal da obra, a importância de democratizar o registro dos atores sociais que há muitos anos lutam por memória, verdade e justiça no Brasil, mas também respeitar a juventude que assumiu essa pauta e está ressignificando a memória da Ditadura. Mencionei brevemente as principais políticas públicas de memória no Brasil, que tem buscado revisitar esse passado traumático. Apresentei como está dividida a obra, citei alguns casos emblemáticos dos escrachos realizados pelo Levante Popular da Juventude em 2012, e das retaliações feitas pelos torturadores denunciados pelos jovens.
No entanto, meu objetivo principal foi ressaltar que há uma negligência da sociedade civil quanto as violações cometidas durante a Ditadura no Brasil. A discussão ainda não alcançou toda a sociedade, sobretudo no seu aspecto humanitário.
Para além de questões político-partidárias-ideológicas, trata-se de um tema de violação aos Direitos Humanos, crimes de lesa-humanidade contra crianças, jovens, adultos e idosos. Não houve critério de seleção na barbárie. Muitos pagaram um alto preço, inclusive com a vida, para que hoje possamos gozar da democracia.
Por isso, como cidadã, me vejo na obrigação de ressaltar a importância do olhar sob uma perspectiva humanitária sobre o tema da Ditadura e, como historiadora, preciso reafirmar que ainda há muitos campos desse período nefasto, que precisam ser descortinados e estudados. Ainda há muito trabalho a ser feito e fontes a serem consultadas.
Espero que este livro possa ser inspirador para que outros pesquisadores se mobilizem a contribuir com nossa história nacional, ampliando a produção de conhecimentos sobre o tema.
A venda de todos os livros será destinada ao grupo Levante Popular da Juventude, em doação da autora.
Ana Paula Brito é paraibana e militante no campo dos Direitos Humanos. Doutoranda em História Social na PUC/SP. Mestra em Memória Social e Patrimônio Cultural pela UFPel. Graduada em História pela UFPB. É Diretora de Comunicação, ação educativa e cultural do Núcleo de Preservação da Memória Política de São Paulo, onde atua na coordenação da pesquisa histórica da primeira etapa para a implantação do Memorial da Luta pela Justiça. Foi Pesquisadora Plena do Memorial da Resistência de São Paulo entre os anos de 2014 e 2016, sendo responsável pelo Programa de Pesquisa.
