o terror da leitura de estantes

Tudo começa com uma pesquisa estranha de um estudante que está sendo bem sério quanto ao seu pedido:

“ — Quede o livro que eu pedi outro dia?

Eu, em minha memória seletiva apenas para coisas aleatórias (Abençoa Loki nos esquemas), devolvo a pergunta pro pequeno:

“ — Você se lembra como era o livro? A capa, a história?

O tiquinho de gente cruza os braços e aponta para um lugar específico na estante onde o livro deveria estar. Um livro preto, com letras amarelas bem forte que contava a vida de um passarinho e quase não tinha letras. As informações passadas pelo menino ajuda no filtro aqui, dá até para jogar no Google e tentar a sorte!

Então após perder metade do horário de visitação do pequeno procurando o livro, me dou por vencida, pergunto se ele não gostaria de pegar outro livro e que irei com certeza ir atrás do bendito. Isso virou uma questão de honra!

Uma lenda muito propagada nas bibliotecas escolares é que os nossos usuários não sabem o que querem. O que mais recebo de perguntas aqui no balcão é sobre características de livros ou seus assuntos. Eles sabem o que quer, apenas não colocam nome naquilo que querem.

(Maaaaahoooooiêêêêêêê serviço de referência, fuén-fuén)

Diferentemente do público adulto pesquisador — que vai te enrolar até dizer chega com o tópico a ser estudado, pois nem eles mesmos sabem o que querem da vida — o público escolar juvenil tem uma avidez na hora de cavucar as estantes. Chega a ser excruciante essa recuperação de informação no modo antigo, demorado e cheio de becos sem saída. O livro preto de letras amarelas sobre a história do passarinho não foi encontrado até agora, mas tenho certeza que já o vi percorrendo as estantes do infantil…

A habilidade inerente ax bibliotecárix — memória eidética — me foi conquistada com a quantidade de livros que eu tinha que decorar dentro da biblioteca do Silvio Lobo, agora aqui, se tornou uma questão de vida ou morte. Ou leitor ou não-leitor.

Quando a coisa fica feia, a coisa feia pede ajuda a umx bibliotecárix

Insatisfeita por não ter encontrado o livro, sentei-me derrotada no carpete do canto de leitura e contemplei a minha falha com o devido criticismo. O sistema de informatização da rede não está estável, 80% do acervo não está catalogado online e hey! A memória eidética ajuda, mas não tarda. O leitor mirim, bufando de impaciência pega o primeiro livro que vê na mesa e vai marcar seu nome na ficha.

Esse é o começo de um possível fim. O guri pode nunca mais querer ler outro livro após isso, o guri pode ter a impressão que a biblioteca não vai suprir seus intentos para leitura, o guri pode achar que estou sendo louca. Aí chega aquela hora horrível de todx bibliotecárix e projeto de bibliotecárix de plantão: LEITURA DE ESTANTES.

O pesadelo de qualquer bibliotecário, mas tarefa-chave para esse trem funfar!

O que é leitura de estante?

É o que chamamos literalmente de “ler” es estantes, vendo livro por livro, se está tudo certo em seu lugar ou se precisa ser removido para outra prateleira. Essa tarefa costuma ser feita de acordo com a demanda — ou seja, bagunça — que as prateleiras podem estar. Em uma biblioteca universitária isso chega a ser raro devido o padrão Dewey (Deweyvando, queridooooona) ou Otlet de excelência na classificação. Se tem um sistema de classificação no meio, a vida fica feliz para a gente, se não tiver, o trem complica. É mais fácil colocar livro no lugar devido se há um número pra identificá-lo, agora se for por questão de assunto, precisa conhecer um bocado do que está mexendo (Falei um pouco sobre como foi aqui na biblioteca escolar onde trabalho nesse post aqui). Se separar por cor, também mesmo esquema, tem que saber com o que está mexendo.

Por isso retiro a minha humilde pessoa do lugar teimoso em que estou e digo que as aulas de Catalogação II serviram mesmo pra alguma coisa. Melhor modo de se descobrir wtf o livro se trata, olha nesse trem aqui óh:

Quiridus, sempre leiam a ficha catalográfica, ajuda pra caramba!

A leitura de estante é uma prática praticada (??) por milênios, assegurando axs bibliotecárixs que as prateleiras estão em ordem, no caso aqui, ordem de assunto, com uma hierarquia de mostragem priorizando os livros que os estudantes mais gostam de ler para aqueles que estão há anos pegando poeira. Essa atividade é comum nas bibliotecas, proporcionando uma seguridade infinita para você, amigolhes bibliotecárixs, mas também causando diversos questionamentos, praticando exercícios sem perceber. POR QUE RAIOS LOMBADAS NÃO TEM O MESMO PADRÃO?! Umas tão pra esquerda, outras pra direita e aí algo de estranho ocorre…

Você começa a perceber que seu pescoço está doendo.

Preparem-se para a Leitura de Estantes!

Tudo bem que a estante de pesquisas — livros que não saem da biblioteca a não ser para os professores — está classificada como na CDD, mas às vezes dá vontade de chorar, muito, muito mesmo. O acervo 800 foi subdividido em assuntos para facilitar a vida do leitor, e pensando neles que devo ser obrigada a fazer leitura de estantes quase todo santo dia… Tarefa extremamente mecânica.

Oh sim, SEU MANÉ!

O lado bom da leitura de estantes é que já fiquei interada do acervo, logo a memória fotográfica ajuda com a localização de algum livro em específico. Também há como saber quais são os livros que são deixados de lado (Vide poeira acumulando na parte de cima) e os que são mais manuseados. Há também aqueles pobres livros escondidos em lugares nada convencionais — como essa semana achei um livro infanto-juvenil sobre educação sexual na prateleira da quiançada que curte cordel, poesia e rimas.

É dose.

Alguns livros também são empurrados para um limbo imaginário entre as estantes, ficando impossível fisgar eles com o procedimento normal (Preciso literalmente pegar uma vassoura para empurrar o livro, fazer ele cair e recolher do chão entre as estantes.), ali ele ficaria se não houvesse leitura de estante.

Sonho de consumo: sem estantes, só nas mesas com lombada pra cima e todo mundo poder manusear sem problemas.

Ainda não cheguei a parte de layout da biblioteca, mas sinto que a melhor forma de disposição para a garotada são mesas grandes, retangulares com os livros com lombada virada pra cima, fácil de manusear e visualizar. Sei que afetaria o espaço dentro do local, mas esse haveria de ser uma alternativa para as estantes que eles tanto têm medo (Sei lá porquê, faço propaganda a rodo sobre como é legal fuçar estantes…).

Estou adiando a leitura de estantes aqui no recinto, chega a ser covardia com todo entusiasmo dos alunos em retirarem o livro da prateleira e COLOCAREM o livro de volta. Se soubessem o meu desespero por conta disso, eles ficariam mais tempo debruçados na janela (Biblioteca aqui é no 1º andar e essa é a minha fonte principal de espasmos e mini-enfartos com apossibilidade mínima deles caírem).