Sobre querer escrever e não saber como.
Às vezes acho que apenas fui alfabetizada. Me ensinaram a ler e a escrever a junção das sílabas para que eu não morresse de fome ou evitasse entrar em uma rua sem saída. Apenas o suficiente para comunicar, sem confiança, as minhas ideias e complicar tudo o que não tem complicação. Não me ensinaram a interpretar e escrever o que penso de forma ordenada e estou quase convicta de que serei mais uma frustrada no mundo descolado do “adoro escrever, mas tô guardado pra um projeto bacana”. Na boa, Deus, porque não fiz Veterinária?
Vez por outra eu entro (sabendo que vou perder) numa discussão com o Universo sobre a injustiça que é ter uma vontade grande e uma preguiça maior ainda. Como podem me trancar na minha zona de conforto para sempre? Me mandam a vontade de escrever, mas não mostram o caminho para isso.
Nessas horas eu sinto Deus se impacientar comigo e dizer (não literalmente, mas eu recebo um peteleco tão forte que tenho a impressão que Ele está ao meu lado):
- Ei, menina! Tá reclamando de falta de criatividade? Então toma aqui esse job cavernoso pra você alterar 9 vezes (talvez 10), de madrugada (horário em que os melhores pedidos de alteração chegam), sendo algo do tipo: “Olha, AMEI o cartaz, mas eu preciso que ele seja todo branco para economizar tinta da impressora”. Escreve, talvez, sobre o fato de você ser sempre a mais estranha da turma — qualquer turma — e incapaz de enfileirar mais que duas frases com qualquer pessoa que você conheça! Tá achando pouco? Então toma aqui esse alguém que vai arrancar teu coração e devolvê-lo mais amassado que troco de bebo. Só daí você já tira uma trilogia adaptada por Hollywood com Emma Watson no teu papel e Charlize Theron no da tua mãe! Simplesmente escreva a primeira asneira que aparecer na sua mente e publique. A Lispector tá aqui mandando vibrações positivas.
Então eu paro e escrevo.
Escrevi.