Tener orgullo

América Latina: aquele lugar pra lá do Atlântico onde todo mundo fala Espanhol.

No, wait…

É um pouco mais complexo que isso!

Uma definição mais assertiva é a de que América Latina é o conjunto de países localizados no continente americano e que tem o latim como idioma ancestral. Melhorou né?

Não.

Sabe o Canadá? Ele também tem como idioma oficial o francês — uma língua latina. Seriam os canadenses então… latinos?

Ok. América Latina não é algo simples de se definir. Foquemos então na parte mais meridional do novo mundo. Sim, a América do Sul. Essa linda parte do globo, maior produtora de café, cocaína, desmatamento e Miss Universo do planeta (lacking source).

Somos aproximadamente 400 milhões de pessoas. E aqui podemos traçar uma linha idiomática: metade dessas pessoas falam espanhol/inglês (Guiana)/francês (Guiana Francesa)/holandês (Suriname). A outra metade, português.

Sim. O Brasil, não satisfeito em deter (roughly) 50% do território sulamericano, também possui metade de sua população. E também aproximadamente 50% do PIB do continente. Makes sense…

O que não faz muito sentido é o fato de que nós aqui não conhecemos muito da cultura dos nossos vizinhos. Conhecemos muito pouco, ou quase nada. Dúvida?

Diga o nome de um cantor argentino. Não achou nenhum? Que tal um ator? Difícil? Ok, vamos tentar algo diferente. Um estilo musical boliviano. Nenhum? Um prato típico chileno?

Dou-me aqui o direito à generalização: se você conseguiu responder a maioria das perguntas, você é a exceção.

Por algum motivo muito obscuro (a causa aqui é irrelevante), nós não absorvemos muito do que acontece em nossos vizinhos. Preferimos prestar atenção no que vem de longe, não na nossa vizinhança. O que é bizarro, dado que eles (os vizinhos) sempre conhecem alguma coisa de nós. Sempre sabem do nosso carnaval. Do nosso churrasco (e dos argentinos também. Perdão Uruguai). Do nosso samba. E se para Luiz Galvão e Moraes Moreira não existe nada mais bonito que um "brasileiro pé duro", na minha humilde opinião poucas coisas são mais engraçadas que um gringo tentando sambar. Não me esqueço a pitoresca sensação que tive ao ir em algumas “rumbas” (baladas, no chulo) na Colômbia e (em praticamente todas) em algum momento o DJ tocar Carrapixo. Sim, aquele do tambor que bate igual aos ponteiros de um relógio. Para equilibrar, cito também o êxtase que Shakira causa nas festas no Brasil. Estamos quites, Colômbia.

Talvez o futebol seja a interseção dos interesses — não só sulamericanos, mas de todos que vivem abaixo do muro do Texas. Na Bolívia, conheci um menino que se chamava Jardel Neymar. E o pai foi enfático ao dizer que sim, eram os nomes dos jogares brasileiros.

Mas pensando melhor, acho que tem algo que nos une mais que o futebol: Chaves! Ou El Chavo. Ah, esse é onipresente. Lá eles riem da “garrotera”. Aqui, rimos do piripaque.

Eu só não entendo quando eles reclamam por termos mudado o nome de Don Ramón para o nosso idolatrado Seu Madruga. Lá eles chamam Bruce Wayne de Bruno Días e todos acham normal. =P

Outra coisa que choca quem não nasceu no Pindorama: abacate com açúcar! Para um mexicano, isso é tão grave quanto bater na própria mãe. Ah se eles soubessem o prazer que é tomar uma vitamina de abacate bem gelada de manhã. Hummm!

Um fato que marcou a minha descoberta da cultura de nossos vizinhos foi a morte de Gustavo Cerati.

“Gustavo quem?”

Foi essa minha reação quando alguns amigos se mostraram chocados ao saberem da morte do líder da banda argentina Soda Stereo.

Aí me explicaram que este senhor está para o rock cantado em espanhol como Renato Russo/Cazuza estão para o rock brasileiro. Me senti um ignorante este dia.

Dediquei um tempo para conhecer a banda (confesso que foram apenas alguns vídeos assistidos no YouTube), e não custou muito a notar a influência que eles tinham — inclusive no Brasil. Ouçam a canção “De Música Ligera” para entenderem do que estou falando.

E daí foi uma sequência de descobertas: de Los Fabulosos Cadillacs à Celia Cruz (que está para a música cubana como Alcione está para o samba); de Joe Arroyo a Calle 13; de Buena Vista Social Club a Kevin Johansen; de Sofia Vergara a Ricardo Darín; de fricassê de cerdo à paila marina… E olha que eu ainda acho que estou muito “mainstream” (para não dizer superficial) nesse negócio de conhecer os vizinhos!

A verdade é que mesmo com essa baixa capilaridade cultural latino americana, ainda é fácil notar como somos muito parecidos.

Quando um argentino me chamou para jogar truco, demorei a entender que ele realmente se referia ao jogo de cartas. E a julgar pelo nome, hoje arrisco dizer que isso veio de lá, e não o contrário. Ou então quando contam piadas do Jaimito — a versão hispânica do Joãozinho. Que frustrante foi descobrir que eles não tinham o “Juanito”…=/

Nós temos funk carioca. Eles têm o Reggaeton (com direito a “perreo” igual aos daqui).

Chamamos pessoas de Fulano e Cicrano. Eles, de Caetano e Mengano.

Ah, e eles têm Nobels, Oscares… E nesse quesito, nós temos é um pouco de inveja mesmo. ^^

Queria viver mais a cultura latina. Somos (relativamente) tão novos, e temos uma variedade-barra-riqueza cultural tão grande. Hoje acho um desperdício olharmos tanto lá pra cima e deixarmos de olhar aqui para os lados.

Concluo com uma frase que ouvi num show do cantor argentino Kevin Johansen em 2014, em Paraty:

“Todos quieren ser latinos: quieren cantar como nosotros; bailar como nosotros… Hay que tener orgullo de eso!”

Tenhamos orgulho!