Sempre fui das letras e palavras, devota ao amor e à fidelidade, ao companheirismo e à crença no eterno. Sempre fui, também, amante das analogias, paradoxos e metáforas. Quem somos nós sem o poder de expressão? – me perguntava eu, num período de minha vida em que ainda era possível achar uma resposta plausível. E hoje eu me encontro aqui, tão íntima das palavras que já as perdi, tão amiga da solidão que a sala de visitas virou estadia permanente, me tornei essa pessoa tão cheia, mas ao mesmo tempo tão vazia do que saber falar.
Continuando com as lembranças e fazendo jus à minha vocação, consegui hoje montar o enorme quebra cabeça de peças desencaixas e tortas. Percebi que ao lavar os cabelos durante o banho, muitos fios caem e descem ralo abaixo. Mas ao mesmo tempo continuam existindo milhões de outros fios na minha cabeça. Fios esses que lavo com os mais caros xampus e condicionadores, que passo o melhor creme, que seco com o secador parcelado em 4 vezes. Alguns dias depois, eu vou repetir o ritual e os que foram cuidados e amados, vão cair e descer pelo ralo. Curioso, não?! Porém não é nada além do ciclo natural. É normal. E desenhando isso tudo na minha mente, percebi que você é um desses fios, ou inúmeros deles. Eu te cuido com todo amor e cuidado, te protejo de flechas e dardos inimigos, te encho de amor, beijinhos e abraços apaixonados. E pela ordem natural do seu ser, do seu constante inconstante ser, você vai embora.
Apesar de todo amor e cuidado, você decide cair e descer pelo ralo. Negando, assim, todo o brilho e perfume do nosso infinito. Nada de mais em tudo isso, né? Se foi, deixa ir – eles dizem. Mas não pararam pra ver que na proporção de um que vai, crescem mais quatro ou cinco na minha cabeça. E como sempre, o índice de motivos positivos supera as razões negativas. Somos o que plantamos, e colhemos aquilo que amamos. Infelizmente eu sou nós, plantei amor e colhi solidão.
