Sobre ser mãe de pet

Essa semana circulou pelas redes sociais um texto sobre como é inadequado as mulheres se denominarem “mães de pet”, quando a palavra “mãe” deve ser apenas para humanos. Li o texto, pesquisei outros textos, outros pontos de vista e, como mãe de pet, resolvi me manifestar.

Primeiramente, acredito na multiplicidade e diversidade dos indivíduos; acredito que as pessoas são complexas demais, mudam com facilidade; somos vulneráveis, medrosos e extremamente exigentes com relação ao outro. Infelizmente, todas essas características hoje estão nos dividindo ao invés de nos unir.

Há uma dificuldade em se colocar no lugar do outro, em sentir empatia, em dividir a dor do outro, ou pelo menos respeitá-la.

Sou mãe de pet, mas sei que meus cachorros não são meus filhos, no sentido estrito da palavra. Penso que esse discernimento seja importante. Uma criança demanda muito mais cuidados que um animal; exigem muito mais de suas mães, pais, avós, cuidadores, etc, do que um cão, um gato ou qualquer outro animal exige de seu dono. Uma criança tem manias, personalidade, modo de ser, gostos, vontades, que em um animal podemos moldar, adestrar, domesticar ou simplesmente nem notamos. Ser mãe de humano é enfrentar uma sociedade inteira machista e heteronormativa. E isso é muito claro nos diversos textos que criticam mulheres-mães-de-pet. Mas, vamos pensar o outro lado? Como uma mulher se torna uma mãe de pet?

Parece que ser mãe hoje é uma exigência da nossa sociedade e não uma escolha. Parece que somente ao ser mãe vamos nos realizar como mulheres. Parece que ser mãe é o motivo pelo qual devemos existir, viver e respirar. Parece que ser mãe é nossa incumbência, nosso ônus e nosso bônus. No entanto, com o feminismo e a luta das mulheres, parece ser possível também dizer “Não!” a tudo isso, a todas essas exigências, a toda essa condição social que carregamos. Quando Butler fala sobre o fardo em ser mulher, cada vez mais concordo com ela. Principalmente quando esse fardo é jogado por mulheres em cima de outras mulheres. Poxa, gente, deveríamos ser do mesmo time, não?

Existe uma diferença entre maternidade e maternagem. Maternidade é a capacidade biológica que a mulher tem em gerar filhos, ou seja, se ela pode engravidar ou não, se ela é fértil ou não. Já a maternagem é a capacidade de cuidado com o outro, de educar, querer bem, defender, etc., que se desenvolve na relação mãe-filho desde que o bebê nasce; o chamado “instinto materno”. Maternagem não tem nada a ver com gerar filhos ou não. Assim como maternidade não tem nada a ver com cuidado. Maternagem pode ser percebida em homens, mulheres e nos animais. Maternidade não.

Agora, imagine você, mulher, que quer muito ter filhos e não pode? Não importa quanta maternagem você tenha, você não possui maternidade, você não pode gerar filhos. Como lidar com isso? Como lidar com a pressão de sua família, seus amigos, uma sociedade inteira te dizendo “Seja mãe!” e você querendo ser mãe, mas não pode? Como lidar com a sua própria pressão por ter um corpo que não funciona, lidar com suas vontades, desejos e frustrações? Só quem já viveu o querer engravidar e não poder sabe o quanto ficamos afetadas e tristes; nos sentimos menos mulher, menos capaz; nossa autoestima chega a níveis baixíssimos e haja força de vontade em querer levantar da cama, lavar o rosto e seguir em frente.

As vezes a vontade de ser mãe é tão grande que cria um buraco vazio dentro de nós.

Então, você provavelmente está pensando “Ué, adota!” e… PLIM… a varinha mágica da adoção surge como a solução dos seus problemas, quando na verdade, a vida e as relações são bem mais complicadas que isso. Adoção não é a solução mágica para quem quer ter filhos, é apenas um dos caminhos. É um processo longo, difícil, doloroso, muitas pessoas desistem no meio do caminho. São expectativas, sonhos, medos, preconceitos, um caldeirão de emoções. Nem todo mundo topa passar por isso. E está tudo bem! Além disso, pessoas levam anos até achar uma criança para adotar, pois o sistema de adoção brasileiro ainda é precário, mesmo com todos os esforços das pessoas que trabalham com isso em agilizar os processos. Ainda, precisamos ter em mente que não é um casal que precisa de um filho, mas sim é uma criança que precisa de uma família, e o processo fica mais complexo, pois o que importa é o bem estar daquela criança e não as vontades dos adotantes. Pensar a adoção em termos simplórios só cria mais estigma sobre esse assunto. Mas adotar também é uma escolha. Além do mais, têm mulheres que sonham em engravidar, em gestar, em ter o barrigão, sentir chutar, em dar à luz, mas nem sempre isso é possível. E o buraco que se abriu lá no início já virou um rombo. Como fechar?

Hoje, cada vez mais mulheres estão podendo fazer seu planejamento familiar, escolhendo o momento de ter filhos, optando por não ter filhos, ou ter apenas pets, ou filhos e pets.

A pressão que se sofre por não ter filhos é tão grande quanto a pressão por ser uma boa mãe.

Estamos todas no mesmo lado da moeda, só precisamos parar de nos excluir e nos afastar. Filhos são símbolo da família. Em nossa cultura temos a errada ideia de que a família só se forma quando nascem os filhos. Casais que possuem anos de relacionamento, morando junto, dividindo contas, sonhos, problemas, ainda não são vistos pela sociedade/amigos/parentes como constituindo uma família pois não tem filhos. Um casal sem filhos não é uma família. E isso dói.

Querendo ou não, você aceitando ou não, os pets surgem em nossas vidas como uma forma de diminuir esse buraco, essa dor. Os pets nos ensinam a dar amor sem receber nada em troca, nos ensinam ter responsabilidade, cuidado, atenção.

Os pets nos ensinam a amar, a cuidar, a desenvolver a maternagem. Por isso os pets se tornam nossos filhos.

Não porque eles nasceram de nós ou porque queremos ser tão mães quanto as mães de humanos. Não somos mães no sentido social e político, de luta e busca pelos direitos. Se não sabemos o trabalho que dá cuidar de crianças, nos desculpem, não é por mal. Mas afirmar que somos mãe de pet não quer dizer que somos contra as mães, contra as crianças, que somos melhores ou estamos em posição de privilégio, nada disso. Somos mães de pets, apenas isso.

E, se o movimento é para a desconstruir a maternidade-cor-de-rosa, vamos desconstruir a maternidade como fardo e sofrimento apenas das mulheres que tem filhos, pois as mães de pet também carregam sua cruz. Respeite a história de cada uma.

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