Uma quase página de diário — ou do vazio

Eu queria ter dito alguma coisa que a impedisse de cometer suicídio naquela tarde chuvosa de quarta-feira. Queria ter tido mais tempo para lembrá-la das coisas incríveis das quais ela fez parte. Queria que ela tivesse terminado aquele livro que eu indiquei, aquela série que assistíamos juntas. Mas não consegui. Ninguém conseguiu. Porque por mais que tenha tentado, a vida foi mais forte do que eu, foi mais forte do que ela.

Não a culpo, ela tinha aqueles olhos brilhosos de quem carrega a alma por dentro da íris, aquela habilidade assustadora de devorar livros que lhe fazem pensar na existência simbólica do ser. Ela tinha peso de luz. E só quem sabe o quanto ser luz pode pesar entende do que estou falando.

Engana-se quem pensa que ela não sorria, porque ela sorria sim, e nesses raros momentos em que eu via seu lindo sorriso, eu tinha vontade de chorar, todo mundo tinha, acho que ela também. Mais uma vez, eu repito: ela tinha peso de luz.

Nós nunca falamos sobre a morte e hoje eu me arrependo. Queria ter dito que também sofro. Queria ter dito que quase todo mundo sofre ao ter a coragem de admitir ser quem se é. Queria ter estado lá, queria ter impedido que ela se jogasse, queria a ter segurado em meus braços, mas ela tinha peso de luz, era capaz de voar e voou. Voou para longe de mim. Voou para longe do alto daquela ponte em uma tarde chuvosa de quarta-feira.

Ainda me lembro dela todos os dias, ainda espero chegar à casa e encontrá-la mexendo nos meus livros, dizendo que eu não limpo o quarto. É engraçado como depois de um tempo a dor muda. Você não para de sentir, mas se acostuma à dor, ela se assenta. Depois de um tempo, você lembra e sorri.

Eu não a culpo, não me culpo. Talvez o mundo é que tenha grande culpa. algumas almas nascem para serem destroçadas e, quando voam, deixam corpos vazios a vagar pelos dias.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Brunella França’s story.