O homem intransponível

Dizem que as palavras que você conhece, da maneira como as conhece, mudam a sua forma de ver o mundo. Alberto ainda não sabia o que isso queria dizer, mas estava perto de descobrir quando sua última ex-namorada passou pela porta e gritou algo que ele jamais se esqueceria.

Ele já havia sido chamado de muitas coisas; o homem ignorante, o cara chato, a pessoa insuportável, o mal amado. Uma vez lhe disseram até mesmo que se o excremento fosse ao banheiro, seria Alberto. Mas nada o chocou tanto quanto a mulher que, próxima à batente, disse entre lágrimas que ele era “o homem intransponível”.

Naquela noite, Alberto poderia ter chorado, colocado tanta cerveja em sua barriga que não se lembraria de quem era por uma semana ou ter mudado de nome e endereço. Ao invés disso, ele caminhou lentamente até o seu quarto, abriu o computador e pesquisou a famigerada “intransponível”. Não por não saber o que ela pudesse significar e sim por querer entender o que ela poderia ser dentro daquela frase.

Significado de Intransponível (ele achou)
“adj.m. e adj.f.
1. Diz-se daquilo que não é possível transpor; que não se tem a possibilidade ou não se é capaz de superar ou ultrapassar; que é insuperável ou intransitável.
(Etm. in + transponível)”

Alberto pensava e, quanto mais pensava, entrava em pânico. Seria bom ou ruim ter a intransponibilidade? No primeiro dia, Alberto surtou. Admirou a forma como a mulher colocara as palavras: “Homem Intransponível”. Subiu em cima da cadeira e, com uma caneta na mão, falou olhando para o ventilador: “Homem intransponível”. E, então, uma terrível imagem lhe sucedeu. O ventilador não o entendia. Suas palavras, para este, soavam intransponíveis. E essa ideia causou um grande alvoroço em Alberto. Se ele era intransponível, era óbvio que afirmava coisas intransponíveis.

No segundo dia, em seu trabalho, Alberto resolveu testar sua intransponibilidade. Colocou a mesma cadeira em que subiu no dia anterior no meio do corredor, de modo que impossibilitava a passagem. Quando um de seus colegas indagou o que ele estava fazendo, Alberto perguntou se, naquele momento, ele era um homem intransponível.

A palavra fez a cabeça do colega esquentar. Jonathan poderia passar ao lado da cadeira se levantasse bem os pés. Mas não era essa a pergunta. A pergunta era se Alberto ERA, naquele momento, um homem intransponível. E como viu que o colega empacou, Alberto concluiu que ao menos sua pergunta era intransponível. E se alguém fazia perguntas intransponíveis, poderia muito bem ser a mesma coisa.

Então, no terceiro dia, Alberto tentou encontrar um equilíbrio e fez uma lista de todas as coisas que achava que poderiam ser intransponíveis. Uma pedra? Riscou. Uma montanha? Riscou. A bota enterrada na lama funda? Riscou. Tudo poderia ser intransponível se você fizesse do jeito errado, com os elementos errados e as ideia erradas.

Abalado com suas últimas 50 palavras ou frases riscadas, por um momento lhe passou um pensamento pavoroso e fétido, que lhe agradou depois de um minuto. Alberto começou a colocar nomes na lista. Pensava em quem mais poderia indicar para o cargo de pessoas intransponíveis. Lembrou do seu chefe e como muitas vezes, diante de um projeto, havia sido intransponível. Pensou na moça bonita do quarto andar, que sempre fugia dele quando puxava algum assunto. Sem pensar duas vezes, foi falar com ela. Não com o chefe, que estava mais intransponível do que a moça. Talvez intransponível em nível médio com intransponível em nível médio apontasse algum caminho.

Clara, que revirou os olhos quando Alberto chegou, fingiu que precisava sair da sala de café porque havia se esquecido de fazer uma ligação. Então, pela segunda vez, Alberto resolveu exercer a intransponibilidade que existia dentro dele. Parou em frente a ela e lhe disse que precisava fazer uma pergunta. Clara gotejava. Era o encontro perfeito. Então, ela lhe deu um sinal com a cabeça para que o fizesse.

E Alberto perguntou se ele a achava uma pessoa intransponível. Clara riu sem saber por quê. Com os olhos perdidos apenas declarou:

— Quê?

— Você acha que eu sou uma pessoa que se é incapaz de ultrapassar?

— Ah, não… Alberto, eu o ultrapassei no cargo mediano já tem um tempo. Tecnicamente, sou sua superior. — Clara deu de ombros. Alberto arregalou os olhos e ela tornou a falar — Todos nós em algum momento somos intransponíveis — Clara corou e saiu andando rápido, obstinada a realizar sua ligação fantasma urgente.

Alberto estreitou os olhos. Clara não era mais intransponível, havia conversado com ela. O homem riscou de sua lista todos os nomes que havia colocado. Clara havia mostrado seu lado transponível em dois aspectos. Não que o primeiro fosse bom. Ou era? Se poderia ser transponível em algum aspecto, não era um homem intransponível.

No quarto dia, Alberto não aguentou. Correu até a casa de sua ex-namorada, que atendeu a porta mal humorada.

— Por favor, — Alberto tinha a face em espanto e Beth aprovou aquilo, achando que receberia um pedido de desculpas ou que o homem imploraria para namorá-la novamente — apenas me diga o que quis dizer com intransponível!

Beth foi de um moreno, para rosa, e de rosa para vermelho.

— Quis dizer…. — Beth começou a gritar — Quis dizer… que você é belicoso, ignóbil, pachorrento, pérfido, pacóvio…!

— Nada disso quer dizer intransponível. — Alberto a interrompeu.

— E daí, Alberto?

— Você não sabe bem o que quis dizer quando me chamou de intransponível. — Alberto sorriu.

— Vá embora! — Beth berrou de tal forma que fez todos os cachorros da vizinhança começarem a latir.

Alberto olhou para Beth. Intransponível era o que ela queria dizer ao falar “intransponível”. Intransponível era a palavra mal dita. Intransponível era o homem que ele tinha deixado na soleira da porta dela.

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