Durante algum tempo, enquanto encarei uma severa depressão em 2013, eu mantive um blog para falar sobre o tratamento, os percalços. A ideia então era tirar um pouco do véu sobre o cotidiano da doença e também buscar desromantizar o senso-comum em torno do tema. Foi uma tarefa que me ajudou a compreender muito sobre mim, o mundo externo mas, principalmente, foi uma ferramenta de aproximação com outras pessoas, muitas desconhecidas, que estavam passando pela mesma situação e precisavam de uma palavra de apoio, um conselho ou apenas de mais uma amiga.

Sinceramente? Depois de um tempo isso virou um fardo difícil pra mim. Eu queria me afastar daquelas lembranças e viver meu novo momento. Parei de escrever sobre e mantive contato com poucas pessoas. Mas, a maior lição do período foi: se a depressão começar a bater na porta, é hora de pegar o interfone e pedir ajuda.

A maior sinuca de bico da coisa toda, quando ela começa a te espreitar pela fechadura é: será mesmo que não é uma outra visita lá fora? Pode ser só a tristeza, pode ser uma ansiedade passageira, pode ser uma angústia que deixou alguma coisa pra trás e veio buscar. Porra, pode! Claro que pode! Entra aí, toma um café. Vamos resolver as coisas de igual pra igual e depois você vaza. Pode ser?

Essa tática costuma dar certo, mas nem sempre dá pra resolver tudo em um expresso pequeno, rapidinho.

Acontece, contudo, que muitas vezes a gente não quer encarar o cafezinho. As visitas lá fora começam a se acumular e, uma a uma, a te pressionar. Fia, abre a porta! Não adianta colocar a vassoura de ponta cabeça, a gente vai ficar aqui. Aí elas começam a bater o pé. Socar forte na porta, tocar a campainha mil vezes. Você não vai abrir merda nenhuma, certo? Então elas vêm e arrombam tudo. Portas, janelas. Sobem de elevador, de escada. Escalam as paredes. Se acomodam e antes que você se de conta, já estão no seu sofá, na sua cama, no chuveiro, na geladeira. Todas muito bem acomodadas.

Bom, você sabe do que eu to falando, né? São os sinais. A gente pode ignorar quanto for, mas uma hora eles eclodem.

Uma outra coisa importante sobre essas visitas impertinentes é que, muitas vezes, a gente tem vergonha de falar delas pras pessoas. Elas são grosseiras, inconvenientes, te tiram do sério. Quem quer admitir que recebe esse tipo dentro da própria casa? Ninguém. E aí, ao esconder, fica mais difícil. As pessoas ao seu redor começam a estranhar seu comportamento. Ora lacônico, ora histérico. E voltar pra casa começa a ser um desafio. E ficar fora pode ser ainda pior, porque além de tudo é necessário manter a ordem do mundo externo. Será que alguém percebe que você anda escondendo as coisas dentro do armário? Debaixo da cama? No forno do fogão?

Fale. Abra seu coração pra quem você confia. Volte ou comece a terapia. Respire fundo. Converse com suas aflições, com calma e atentamente. Não adianta ter pressa no processo. Troque o expresso por um coado feito com calma, ou um chai quentinho. Chame as visitas, uma por uma, e elas começarão a ir embora, satisfeitas em serem ouvidas. O diálogo é infernalmente difícil. Se perder a paciência, dê um passo pra trás e segura o fôlego. Se estiver em tratamento medicamentoso, dê uma chance a ele. Se não der pra levantar da cama, pelo menos não fique no escuro. Tente, ao menos, deixar o ar entrar pela janela.

A insegurança em torno de quem vai estar ao seu lado e aguentar a barra vai surgir. Você vai começar a questionar se as pessoas te amam suficiente pra ficar. Ouvir um “quem for embora não te merecia” não facilita em nada, eu sei. Mas a única forma de descobrir o verdadeiro carinho e a verdadeira compreensão é dando uma chance. Se expor assim, é como colocar a mão na palmatória, mas os abraços inesperados darão lugar aos sorrisos e as lágrimas vão começar a secar. Cada vez que alguém não desistir de você, sua paz irá se fortalecer. Dê oportunidade para estes momentos, eles fazem parte da retomada.

E, para quem não sabe como agir com alguém que está sofrendo, peço: respire fundo e tenha paciência. Não crie expectativas em torno da pessoa, isso irá fazer a pressão aumentar. Se você não for capaz de ajudar a amenizar o ambiente, acolha. Ninguém precisa ser o fardo de ninguém, tudo isso é sobre ser solidário, estar atento. Os bons momentos vão voltar, assim como depois de todo inverno, vem a primavera.

Todos os clichês acima são verdadeiros e podem ser testados empiricamente ;)

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