Nós, as Pandoras

Imagine que o surgimento da mulher tenha acontecido para punir a humanidade, até então XY. Nós, ardilosas, somos a maior arma dos Deuses contra os homens que os confrontam. Nós, cheias de ímpetos e paixões. Eles, dotados de razão e discernimento. Nós, as responsáveis por abrir a caixa das desgraças.

Se muitos dos mitos fundadores da existência da mulher partem deste princípio, como negar a construção de que todas nós somos, senão, um constante pecado rondando a sociedade, devendo estar sempre em busca de redenção?

Nós e as relações

Quando quis cortar relações temporariamente, me disseram que eu não sabia lidar com a situação. Quando meu ex fez o mesmo, foi elogiado por saber manter distância, colocar um ponto final

Qualquer mulher em um relacionamento heteronormativo já se deparou com este cenário: sua atitude, mesmo se for igual ao do seu companheiro, nunca é vista da mesma forma. Mesmo se motivada pelas mesmas razões, o julgamento é, invariavelmente, diferente.

Ao término do namoro, conheci uma pessoa bacana e ficamos. Meu ex descobriu e muitos amigos em comum julgaram ser muito cedo, desnecessário. Mas ele também estava ficando com outras garotas desde então, contudo era porque ele precisava superar, portanto, nada mais normal

Para a maioria dos homens estas comparações podem parecer, em um primeiro momento, exageradas. Mas basta uma conversa rápida entre mulheres para percebermos a naturalidade na forma como somos tratadas quando o assunto é o lugar cedido para nós nos relacionamentos. Mesmo sendo homens matando suas companheiras, ou que o revenge porn seja uma prática majoritariamente masculina, e sendo nós as estupradas quando negamos sexo, não resta dúvida que socialmente, nós somos as loucas.

Loucura, por outro lado, não é a melhor forma de definir estes comportamentos masculinos. Isso porque todos eles são, em sua essência, a prática mais comum do machismo e, por estar tão incrustado em nosso cotidiano - desde Eva e Pandora, parece muitas vezes uma batalha perdida.

Depois de uma discussão, meu ex-marido saiu de casa e nunca mais voltou. Pediu o divórcio por e-mail, enquanto eu estava em depressão e em seguida ficou com uma das minhas amigas

O relato acima é um prato-cheio para culpabilizar as mulheres. A primeira pergunta pairando no ar é: Ela deve ter feito alguma coisa muito grave para o marido tomar uma atitude tão drástica quanto se divorciar por e-mail, certo? E essa amiga ficando com o marido da outra?. Mas, desconfiada das reações, se mudasse os atores de lugar, resolvi inverter os papéis e perguntar a opinião das pessoas sobre o caso. Minhas suspeitas estavam certas e inevitavelmente, acabei ouvindo: Como é possível uma mulher se separar do marido no meio de uma depressão e ficar com o amigo do cara logo depois de pedir o divórcio por e-mail? Vaca!

Os interesses ou as justificativas das mulheres em uma relação ou ao término dela, na verdade, pouco importam. É sempre um beco sem saída. Duas atitudes idênticas ou muito similares, sempre possuem resultados diferentes, se olharmos com o recorte de gênero.

Quando descobri a traição do meu namorado fiquei, obviamente, muito fragilizada. Não quis mais contato, deletei ele e seus amigos do Facebook, precisava de um tempo pra mim. Fui chamada de exagerada, mas ninguém nunca pensou no exagero dele ao ser infiel e mentir para mim?

Muitas mulheres, se ocupassem o lugar de traidoras, acabariam sofrendo violências de toda natureza: sejam elas físicas ou psicológicas. A mulher infiel é uma piranha sem sentimentos, motivada pelo rancor e incapaz de doar seu amor e afeto ao homem que a ama. E se ela perde a cabeça ao descobrir a infidelidade passa a ser chamada de histérica. Mas, um homem desleal é aceito e sua atitude quase sempre justificada (a esposa não dá mais atenção, engordou, parou de procurá-lo depois dos filhos etc). Pode até ser tido como canalha, é verdade, mas caso mate, bata ou abuse de sua mulher traidora ele será, normalmente, protegido pelo aparato do “coitada, mas ela mereceu! Fez ele sofrer!”

A solidão da mulher negra

Passamos mais de um ano juntos, mas não socialmente. Tínhamos uma vida a dois e outra vida frente até mesmo os amigos mais próximos. Era comum ele usar outras meninas para me fazer ciúmes e, infelizmente, funcionava. Comecei a ficar com a pecha de descontrolada, para somar às provocações racistas. E, quando terminamos, ficou evidente o que estava em jogo ali, afinal, todas as meninas brancas com quem ele fica desde então, são expostas como um prêmio, do qual nunca fui digna para ele

Quando conversei com amigas e conhecidas negras sobre a temática do relacionamento heteronormativo, o papo sempre caía no mesmo lugar: solidão. Além de lidarem com todo o machismo estrutural da nossa sociedade, a cor da pele conta — e muito. E, para piorar, encontramos muitos discursos querendo hierarquizar tanto a classe quanto o gênero acima da questão racial, como se uma mulher negra pudesse deixar de sê-la, mesmo por segundos. É impossível secundarizar uma vivência concreta.

A família dele não me aceitava e, quando eu questionava isso, era chamada de paranoica. Eu raramente era convidada para os eventos familiares e isso foi me consumindo aos poucos, me sentia invisível. Em uma crise de choro, ele perdeu a paciência, disse que eu não tinha postura. Mas eu o amava e só queria carinho e respeito, é demais?

Se, enquanto mulher branca, passo o meu tempo acordada problematizando todo o machismo sofrido nas minhas relações íntimas ou não (e as vezes até mesmo reproduzindo isso), ao conversar com companheiras negras, suas perspectivas ganham uma dimensão, para mim, impossível de mensurar. Levar a fama de louca aqui é apenas uma das camadas de todos os ultrajes ouvidos por estas mulheres durante toda a vida, como por exemplo a de não ser “boa/ bonita/ decente” o suficiente para um homem, qualquer que seja ele, porque — enquanto mulher negra, seu papel na sociedade já é um jogo de cartas marcadas e suplantar isso é uma tarefa quase sempre solitária e árdua.

Estávamos em um relacionamento aberto, mas comecei a questionar porque ele só ficava com meninas brancas, enquanto eu era negra. Ele dizia que eu era uma ‘nega de sorte’. Quando demonstrei estar incomodada com isso perante seus amigos, todos disseram se tratar de uma brincadeira, talvez eu estivesse levando tudo a sério demais. Depois pensei: e se fosse uma menina dizendo isso do seu namorado negro, ela automaticamente não seria tachada de vadia racista? Aparentemente questionar isso significava ficar sem namorado e sem amigos, e foi exatamente o que aconteceu; afinal, acabei sendo tida como intransigente

Estado civil, mãe solteira

É só sair com amigas para tomar uma cervejinha, e sempre me perguntam com quem está meu filho, mas o pai dele nunca ouviu esse questionamento, mesmo com a guarda sendo compartilhada. Eu sou tida como irresponsável, ele como um bom pai que precisa de um momentinho pra relaxar

Quando comecei a conversar com amigas mães sobre a ideia deste texto, me vi catatônica com os relatos. Não foi nenhuma surpresa, mas ouvir da boca de várias mulheres os mesmos relatos é chocante! E todos eles têm um ponto em comum: ser mãe solteira é ser julgada sempre. Todos os olhos, fofocas, atenções e ouvidos estão lá para ela e basta uma derrapada e seu papel como mãe será questionado até pelo dono do boteco.

Logo quando me separei, combinei as férias do filho com meu ex e isso já faz sete anos. Um dia precisei, por conta do trabalho, alterar as datas e foi impossível! Fui chamada de egoísta, irresponsável. O ex-marido chegou até mesmo a citar o meu papel de mãe, afinal eu não poderia desestabilizar a vida de uma criança (sim, apenas por mudar as datas de férias!). Fico imaginando se eu, mãe, fizesse isso, ainda mais sendo muito ausente, fazendo visitas a cada quinze dias e olhe lá — com certeza teriam dito barbaridades de mim! Mas ser pai tem desses privilégios. Ele se diz muito ocupado para estar no dia-a-dia, e pra piorar, quando preciso trabalhar mais horas para pagar as contas que a pensão não cobre, não tarda até eu ouvir sobre a minha displicência com a criação do meu filho.

No papo com as mães, uma das problemáticas era universal: sempre existe o momento, no desenrolar das relações, onde é preciso contar ao então pretendente que, apesar de ser uma mulher bonita, incrível e inteligente, você também é mãe. Elas concordam também que neste momento, todas as qualidades dirigidas até você, perdem espaço e encantamento. Começa ali a dúvida se aquela relação tem futuro, geralmente por dois motivos. O primeiro, claro, é a pretensão masculina de achar que toda mãe solteira está procurando um outro pai para o seu filho. E o segundo é, se a mulher se dá bem com o ex, isso cria um campo de insegurança, mas se ela se dá mal, é um sinal de uma mulher desequilibrada, sem condições para entrar em outro relacionamento sério.

Ser mãe é ser julgada. Se você engorda, emagrece, se você se irrita ou não, se você cobra um pai mais presente ou se não liga mais para ausência dele, tudo isso é posto em xeque o tempo inteiro, todos os dias e todas as horas. Ser mãe, socialmente, é ser alguém acima das emoções ordinárias e, caso elas apareçam torna-se evidente o quão despreparada você é para poder criar alguém. É como ser constantemente um réu por um crime sequer cometido

Os pais, por outro lado, possuem uma larga vantagem quando se trata da responsabilidade. Visitar os filhos com pouca frequência ou pegá-los aos fins-de-semana e, mesmo assim, deixá-los sob cuidado de uma babá para poder sair com os colegas de noite, não ter disposição e pouca paciência, são atitudes naturalizadas porque são, geralmente, atribuídas como responsabilidade majoritária das mães. Basta o pai elogiar os filhos, isso já é prova contundente da sua boa-fé.

Meu ex marido sempre foi ausente. Quando começou a namorar novamente não ficou mais próximo do nosso filho, mas me cobrava mais sobre a criação dele, claro, para se fazer de bom pai para a sua nova companheira. Agora ela está grávida e ele já me alertou sobre a redução do valor da pensão e que terá menos tempo para visitas. Quando reclamo da sua falta de responsabilidade, as pessoas dizem que estou sendo, na verdade, ciumenta e rancorosa, por conta da nova família dele

A luz no fim do túnel

Hoje, o ativismo feminista tem aproximado mulheres e suas vivências. Mesmo o machismo estrutural sendo um fato em nossas vidas, é a partir da troca de experiências que estamos nos fortalecendo e notando incongruências na forma como nos aceitamos e até mesmo como somos retratadas e julgadas. Percebemos, por fim, os relacionamentos abusivos sendo destrutivos e buscamos retomar nossa auto-estima e confiança.

Ao entender a naturalização da persona da mulher louca, sempre justificada a partir de uma perspectiva que nos desumaniza, vemos como a manipulação a qual estamos sujeitas nos faz realmente crer que — não importa quão racional é determinada atitude ou o quanto ela é resultado da opressão sistemática, estamos realmente nos excedendo.

Minha proposta é nós darmos um basta. Não às nossas emoções, não aos nossos impulsos, mas sim para essa sociedade sempre com dedo em riste, pronta para um veredito -apenas por sermos mulheres. É imprescindível encararmos nossa experiências do ponto de vista material, tangível. Nossas reações não podem mais ser encaradas no campo da falsa-simetria, querendo nos comparar aos homens que nos humilham, nos isolam, nos ferem; mas ainda assim são vistos como detentores da dignidade e do bom-senso.

Peço, aos homens, para encararem este texto como uma crítica geral (e não individual) das problemáticas vividas por nós, mulheres. Exerçam a empatia na compreensão dos testemunhos levantados e sejam vocês também ativos nessa mudança.