A VIDA SOCIAL DE UMA BEER SOMMELIÈRE!

Muita gente acha que depois que você se torna beer sommelière, tocará Michael Jackson toda vez em que você estiver andando pela rua e vários pints de IPA cairão sobre o seu colo durante todo o dia. Amigo, não é assim. É a realidade, nua e crua, bem maltada, mas verdadeira. Passamos pelos mesmos perrengues que qualquer outra profissão, com a única vantagem: a hora que tudo dá no saco, abrimos uma bela de uma cerveja e dizemos que estamos fazendo a análise sensorial.

Outros pontos se tornam bastante comuns na nossa vida, pelo menos na minha, e eu vou tentar de uma maneira divertida, contar para vocês. Mas acalmem-se, tem muita coisa legal também, mas isso é meio óbvio, né?

1- Prepare o bolso.

Rapaz, prepare. Muita gente acha que depois que você vira um especialista em cerveja, você nunca mais pagará para beber uma. Você se enganou, bebê. Aliás, dica da coleguinha: dar “carteirada” para beber na faixa é muito feio e um belo desserviço ao mercado. Não faça isso, ok? Um bom profissional, quando não está trabalhando ou foi convidado para criticar tecnicamente uma cerveja ou quando não for oferecido pelo dono da própria, terá sim que colocar a mão no bolso e pagar pelo que consumiu. É o certo, é o simpático, é caro também, mas você ainda ajuda seus parceiros de bar e fornecedores a sobreviverem ao mercado.

2- A calça jeans vai apertar… E a culpa é sua!

Dizem que cerveja não engorda, e que ela tem o mesmo tanto de calorias que um suco de laranja. Aí eu pergunto: você bebe 8 copos de suco de laranja quando sai com os amigos? Mas da cerveja sim, aposto. Não vamos nos enganar: tudo em excesso engorda e se a sua ideia é não ter aquela barriguinha de melão, manere. E outra, cerveja chama batata, hambúrguer, pastel, embutidos, queijos, doces, pipoca… chama tudo, menos alface.

3- “Eu sou a Rainha dos copos”

Assim como o mala da carteirada, não ache que você é a única especialista no assunto e que precisa, a todo custo, dizer ao mundo o que você achou daquele rótulo. E essa também vai para o chato do diacetil: se todas as cervejas que você tem tomado recentemente apresentam, na sua opinião, esse defeito sensorial, o problemático pode ser você. Refaça o curso que off flavours ou por favor, procure uma ocupação — longe da internet.

Um bom profissional sabe a hora de falar e a de calar, e se você está num bar com os amigos se divertindo e o propósito não é ter uma avaliação técnica sobre o que está bebendo, não gire o copo no alto, nem discorra por horas a importância da espuma para o amigo ao lado. Ele só quer beber, cara! Lembre-se: educar o consumidor é uma coisa, ser o tio do pavê é outra.

4- Você ouvirá perguntas como: Por que a Heineken é amarga?

Vai ouvir. Muitas vezes, mais até do que gostaria. Tem horas que dá vontade de pegar a garrafa de Heineken da pessoa e atirar na mesa ao lado e sair andando. Mas como bom profissional, você tem que saber que apenas um nicho ainda pequeno tem acesso e paladar para as especiais e que, quando você começou, você também não era o diferentão da IPA. O mercado está crescendo, mas a maioria ainda bebe as mainstream estupidamente gelada e a goles de sede.

5- Vai ter dia que você preferirá falar que é dançarina do Tchan a dizer o que você faz!

Essa ideia me surgiu nas minhas últimas férias, onde eu e a minha amiga estávamos na balada e chegaram dois malas sem alças para falarem conosco e um deles, me perguntou com o que eu trabalhava. Para espantá-lo, eu queria dizer tudo, até serial killer. Com lágrimas nos olhos, disse que trabalhava com cerveja. Foram os 40 minutos mais desesperadores das minhas férias.

Enfim, há momentos em que realmente me imagino falando isso quando me perguntam com o que eu trabalho. Qualquer dia eu soltarei essa na balada. Nos primeiros anos, você acha o máximo ser o Rei/ Rainha do Lúpulo, alguns anos depois, você começa a ver que não existe nada de sobrenatural nisso. Quando você diz a frase que dá passagem ao armário de Nárnia: “eu sou beer sommelière”, prepare-se para as próximas perguntas que vem a seguir: Po, você aceita meu currículo? Mas você bebe o dia todo? Nossa, isso não é trabalho! Quer trocar comigo? Ai que chato que é só beber cerveja legal! Por que Heineken é amarga? — Sim, essa frase vai dominar o mundo, trocarão de lugar com a “Ordem e Progresso” da bandeira nacional.

E você, só olhando para aquele ser deslumbrado, se imaginando ao lado do Cumpadre Washington, rebolando, sorrindo, de shorts verde limão e pensando: Nem tudo são Founders KBS, meu amigo…

6- A cada happy hour, uma chamada oral diferente!

Seus amigos nunca mais escolherão uma cerveja sozinhos para beber. Pode ter 20 pessoas na mesa, mas a carta de bebidas chegará, inexplicavelmente — ou nem tanto assim — nas suas mãos. E aí você olha para eles, eles olham para você e nada te resta a não ser sugerir, torcendo para fazer a coisa certa, uma cerveja para cada um dos VINTE que estão na mesa. Ah, vale se atentar ao estilo e preço e ser muito delicada na sugestão, senão ainda vai ouvir: Caramba, 30 reais uma cerveja? Sabe quantas Skol eu compro com isso?! E não se esqueçam: eles querem uma que não seja tão forte como a Heineken…

#oremos e #bebemos!

Sugestão para beber enquanto lê esse post…

Madalena Double IPA
Cervejaria Premium Paulista
Brasil

Cervejaria aqui de Santo André, a Cervejaria Premium Paulista é responsável pelas cervejas que levam o nome de Madalena. Rótulos lindos, cervejas ótimas e preço bacana.

Escolhi a Double IPA porque é uma das que eu, particularmente, gosto demais. Boa formação e estabilidade de espuma, coloração cobre claro. No aroma e sabor, predominância do lúpulo, notas de malte lembrando caramelo e álcool (7,5%) — apesar de pronunciado, bem inserido. Uma porrada de amargor! Vale cada gole.

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