Tom Chaplin: 'Meu vício me forçou a falar'

Após o início do hiato do Keane, em 2013, o vocalista Tom Chaplin caiu num mundo de drogas, depressão e ansiedade. Quase perdeu o que tinha de mais importante: o relacionamento com a mulher e a filha. Buscou tratamento, superou os vícios e agora apresenta “The Wave”, seu primeiro álbum solo, que chegou às lojas no Brasil na semana passada. Em entrevista, o músico contou com naturalidade detalhes de seus problemas mentais, na esperança de servir de exemplo de superação, se comparou a John Lennon e se disse desesperado para apresentar seu novo trabalho no Brasil.

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Quando você começou a sentir vontade de fazer um álbum solo?
Foi uma vontade que foi crescendo e crescendo dentro de mim aos poucos. Eu já estava há 20 anos com o Keane, se for contar desde que começamos. Sempre senti essa necessidade de explorar mais minha criatividade crescendo com o passar do tempo. No começo do Keane, eu escrevia algumas músicas para a banda. Mas, nos últimos anos, o Tim [Rice-Oxley] começou a escrever todas aquelas ótimas músicas que acabaram estourando e eu me deixei levar, parei de escrever e dei uma pausa nesse caminho criativo. Com o passar dos anos, essa vontade de voltar a compor crescia e crescia. Queria ir lá e me jogar. No final de 2013, nós da banda conversamos sobre dar essa pausa natural. Eu disse para eles que eu queria voltar a compor, fazer um trabalho solo e dar esse hiato no Keane.

Como foi para você a pressão de fazer "The Wave", como ex-vocalista do Keane, uma banda já muito bem-sucedida?
Não pensei muito na pressão disso. Eu trabalhei muito, sozinho, nesse disco. Foi nesse período que meus problemas com as drogas voltaram e voltaram do pior jeito, como nunca antes eu havia experienciado. Eu não conseguia ser criativo, perdi o interesse em música e comecei a perder também as coisas que eram mais importantes para mim, os meus relacionamentos com as pessoas que amo, como minha mulher e minha filha. Superar esse problema e mudar a mim mesmo foi a coisa mais difícil que já tive que fazer. No ano passado, quando gravei o disco, eu estava num ótimo momento da minha vida, mentalmente e fisicamente. O álbum simplesmente saiu. Não parecia que eu tinha tido qualquer problema criativo no passado. Era tanta coisa saindo de mim, tantas composições, que era difícil até escolher. Criativamente, não houve qualquer pressão nesse álbum.

'Superar esse problema [das drogas e da depressão] e mudar a mim mesmo foi a coisa mais difícil que já tive que fazer.'

O álbum foi alguma espécie de cura ou tratamento para os problemas?
Quando você tem um problema mental, seja depressão, ansiedade ou qualquer outro, você tem que cavar fundo até as raízes desses problemas. Falar com uma terapeuta, compartilhar os meus problemas, foi a melhor forma que eu encontrei para lidar com isso. Você tem que realmente explorar as razões para tudo aquilo estar acontecendo com você. Antes de melhorar, você não consegue fazer muita coisa. Você pode até usar a música para falar sobre seus problemas, mas nunca vai ser uma solução. Não se você não for até a raiz e entender seu problema.

Você fala com bastante naturalidade sobre o assunto…
Por boa parte da minha vida, achei difícil falar sobre os problemas que eu tinha. Sempre mantinha eles dentro de mim, presos. A grande coisa sobre o meu vício foi que ele me forçou a falar. Achei uma terapeuta de quem gostei e falei com ela sobre meus problemas. Fazendo isso, me senti libertado. Meus problemas não eram tão grandes quanto eu pensava. Agora, eu não acho tão difícil falar sobre isso. Aprendi que é bem mais fácil quando você se abre e fica vulnerável. Tudo o que sai de você é verdadeiro. Falo porque sei que as pessoas podem se relacionar e que isso pode ajudar alguém. Se eles estão em um momento difícil, passando por algum tipo de ansiedade ou de vício, eles podem me ouvir falando e podem se sentir inspirados a compartilharem seus problemas.

'Aprendi que é bem mais fácil quando você se abre e fica vulnerável. Tudo o que sai de você é verdadeiro.'

O quão feliz você está com o resultado do disco?
Estou na lua de empolgação. Estou tão orgulhoso. Há três anos, honestamente, não achei que conseguiria terminar e que um dia estaria assim. Achei que isso nunca aconteceria e já tinha até desistido. Estar agora, falando com você, tenho consciência de que me sinto plenamente satisfeito. Não há nada que eu faria diferente, nada que eu mudaria nesse disco. A resposta que eu tenho recebido das pessoas em geral é muito positiva. É adorável. Não poderia estar mais feliz.

Você compartilhou o disco com seus companheiros de Keane, trocou dicas ou pediu opiniões durante o processo?
Eu compartilhei, quando o CD estava terminado. Eles pareceram responder bem. Foram positivos sobre a minha música e como eu falo sobre a minha vida. Eles também estavam muito preocupados com o que eu estava fazendo comigo mesmo e com o momento em que eu estava emocionalmente. E eles estão muito felizes agora, com como as coisas acabaram terminando bem.

Quais foram as suas principais referências em ‘The Wave’?
Tive tantas influências que mal consigo enumerar. Uma das comparações mais interessantes mesmo que faço é com John Lennon. Quando ele saiu dos Beatles, ele também procurou esse lado puro e pessoal dele. É claro que eu não sou o John Lennon [risos], mas vejo algumas similaridades. Achei isso bem inspirador. É algo para se olhar e pensar. E é claro que o Keane também teve impacto, em alguns pontos. É uma combinação de muitas coisas.

'Quando ele [John Lennon] saiu dos Beatles, ele também procurou essa lado puro e pessoal dele'

Quais são seus planos em relação ao Keane? Vocês ainda pretendem tocar juntos novamente no futuro?
Não pensei muito nisso. É uma coisa importante e, é claro, uma grande parte da minha vida. E sei que é importante e uma grande parte da vida de muitas pessoas pelo mundo, que são nossos fãs e querem que a gente toque juntos de novo. Mas estou curtindo muito esse momento, estou aproveitando mais minha vida, tenho mais fome e energia em fazer música agora. Quero conseguir continuar fazendo isso até cansar. Estou ciente de que sempre poderemos voltar. Então, minha resposta é: talvez. Talvez. [Risos].

Você tem planos de visitar o Brasil com a turnê do novo álbum?
Não tenho nada concreto planejado. Obviamente que estou desesperado por ir. Há tantas pessoas no Brasil e em toda a América do Sul que são grandes fãs do Keane e que com certeza gostariam de me ouvir cantar solo. Tenho que pensar em uma forma de isso dar certo. É toda uma operação, que não envolve só o que eu quero. É caro, é uma longa jornada. Estou desesperado para ir e tentando de tudo que eu posso para tornar isso uma realidade. Peço aos fãs que aguardem e que acompanhem minhas redes sociais.

Se você pudesse mandar uma mensagem aos fãs brasileiros, qual seria?
Eu realmente não tenho nada concreto, em termos de ir vê-los, infelizmente. Mas muito obrigado pelo apoio. É muito louco para mim que eu faça música em um lugarzinho tão remoto da Inglaterra e que tenha uma resposta tão grande no mundo, chegando ao Brasil. É impressionante mesmo. Obrigada.

Você sempre quis ser músico?
Sim, desde muito novo. É um ótimo jeito de se expressar e de se conectar com outras pessoas. É uma forma maravilhosa de levar sua vida. É algo que eu sempre quis fazer e espero continuar fazendo até o fim da minha vida.