O que aprendi morando no sul da Itália

Foto que tirei das mesinhas de um restaurante em Roma

Em 2013 eu morei por 3 meses em Florença, mas acho que naquela época eu não tinha um olhar bem treinado para observar com cuidado as coisas ao meu redor.

Faz 4 meses que moro no sul da Itália e sinto que exercitei melhor a minha observação sobre os costumes e a própria cultura do país. Eu e meu namorado sempre ficamos conversando sobre as diferenças que notamos ou até mesmo as coisas que temos em comum com os italianos.

Resolvi escrever sobre essas observações que fizemos ao longo desses meses, mas acho que vale deixar claro que nada disso é regra para a Itália toda. Aqui ficam algumas coisas que notamos principalmente no sul.

Reciclagem não é opcional

Essa não é uma prática exclusiva da Itália, afinal, muitos países europeus levam a reciclagem bem a sério. O que me surpreendeu aqui foi a forma como eles separam os materiais, podendo ter cerca de 7 tipos de separações, como nas orientações da foto, e o descarte de cada material é feito em um dia específico da semana.

No começo me deu um nó e não vou negar que batia uma preguiça quando pensava que precisava lavar as latas de metal, tirar as tampinhas de plásticos de embalagens de papel e afins. Claro que sempre fiz direitinho e me acostumei, até porque há uma multa se você não segue a regra.

Tem dialeto na Itália inteira

Eu sempre achei que dialeto era uma coisa mais da Sicília ou de regiões bem específicas, mas morando aqui eu entendi que quase toda cidade tem seu dialeto. O mais curioso é que cidades vizinhas podem ter dialetos diferentes.

O italiano é a língua que une todas as regiões do país e o dialeto é mais falado entre moradores de uma cidade, mas não se preocupe com isso, pois mesmo se você morar em uma cidade onde há um dialeto, as pessoas irão se comunicar em italiano com você.

Os trocos são sempre certinhos

No Brasil estamos acostumados a relevar alguns centavos em uma compra. Se algo custa R$ 5,99, você não espera receber 1 centavo. Aqui na Itália, principalmente no sul, isso não rola.

Se a compra dá 5,99, você receberá um centavo de volta, assim como esperam que você sempre pague os centavos certinhos. Se sua compra der 3,47, então eles esperam esses 47 centavos.

Existe um senso de confiança

Não posso dizer da Itália inteira, até porque é um país que tem diversas culturas, mas mais no sul eu percebi que as pessoas não têm tanto medo de serem enganadas, passadas para trás ou roubadas mesmo. Sempre que eu me adiantava a falar sobre pagar alguma coisa na hora, as pessoas me diziam para eu não me preocupar, para acertar depois.

Eu sempre pensava: “Essa pessoa não tem medo de que eu desapareça e nunca pague nada?”. É bizarro ver como esse é o primeiro pensamento que vêm à cabeça. A gente é cheio de malícia pra saber quando se deve desconfiar de uma situação e vi que aqui não tem nada disso.

Na verdade, eu vejo que essa falta de desconfiança caminha junto com a despreocupação com dinheiro. Não é que eles não ligam para dinheiro, mas por onde passei, vi que isso não é o que rege a vida das pessoas, eles não têm uma preocupação excessiva com ganhar dinheiro ou estar sempre em vantagem.

Viver sem pressa e descansar de tarde

Se você já foi para a Espanha, sabe que existe a “siesta”, aquele horário da tarde em que as pessoas dão uma pausa no trabalho para descansar ou fazer outras coisas que não estejam relacionadas ao trabalho. Na Itália também tem isso e é chamado de riposino pomeridiano.

Como estou morando numa cidade pequena, praticamente tudo fecha a partir das 12h30 e só reabre às 16h30 ou 17h. Nesse período as pessoas aproveitam para tirar um cochilo, cuidar da casa, ficar com a família, tomar um café num bar ou então fazer exercícios ao ar livre. Não existe um senso de urgência.

Não há dúvidas do quanto essa prática contribui para o bem-estar das pessoas. Você vê como os italianos têm qualidade de vida e estão sempre relaxados, além de terem uma boa saúde. Você vê pessoas de 70 anos andando de bicicleta sem problema algum. As pessoas mais velhas são bem ativas e você as encontra até em pubs, tomando uns gorós. É muito lindo ver isso!

A emoção se reflete até em serviços públicos

Os italianos são bem emotivos. Aqui, a emoção realmente pode afetar momentos em que deveriam ser tratados de forma mais racional. Do correio à polícia, se você não souber como lidar com os italianos, pode se embananar todo.

Em muitas das ocasiões depende do funcionário ir com a sua cara e do quanto você o cativou nas suas primeiras palavras. Isso pode até determinar como vai ser o atendimento. É uma relação estranha e com o tempo você aprende a identificar melhor os comportamentos e como lidar com eles.

Todo mundo é um pouco vaidoso

Eu percebi aqui que as pessoas estão sempre arrumadas até quando elas não estão produzidas. Me contaram sobre um termo chamado sprezzatura, que na moda seria a arte de montar um visual despojado, escondendo o esforço e fazendo parecer que as combinações foram aleatórias e naturais. E os italianos parecem mesmo seguir isso.

O que reparei bastante é que vaidade não tem idade ou gênero: adolescentes, idosos, homens e mulheres estão sempre bem vestidos. E estar bem vestido não tem a ver com a pessoa ter grana. Pelo que notei, todo mundo se veste meio igual.

A comida é sagrada

Eu achava que era brincadeira quando diziam que os italianos podem até ficar bravos por causa de comida. Aqui, a comida é algo sagrado e há um ritual. Por exemplo, se você come uma massa e depois quer comer uma carne, jamais deve colocar a carne nesse mesmo prato, pois os resíduos de molho ou tempero irão alterar o sabor da carne. E eles não deixam você fazer isso.

Entendi melhor como funciona a estrutura para servir pratos: antipasto (entrada), primo piato (uma massa ou um risoto), secondo piato (uma carne vermelha ou branca) e contorno (verduras ao forno) ou insalata (uma salada fria), aí depois vem a sobremesa, um digestivo (dose de limoncello, grappa, etc) e o café. Não necessariamente você precisa comer tudo isso, é só para entender a sequência. Não tem problema pedir apenas um primo piato, por exemplo. Os italianos também fazem isso.

Uma coisa que me deixou maravilhada é que tudo é feito com ingredientes frescos. Pelo que vimos, os italianos não são chegados em produtos industrializados. Muitas pessoas têm hortas e árvores com frutas em casa e algumas famílias produzem seus próprios vinhos orgânicos, limoncello e azeites.

Os mercados sempre parecem gourmet

Qualquer mercado de bairro tem produtos que a gente considera gourmet no Brasil e aqui são só os produtos comuns. Isso é bem louco de ver. Na seção de frios, tudo parece maravilhoso e diferente e são só os frios normais que eles comem todos os dias. Tudo está disposto de um jeito fofinho e pitoresco.

É engraçado ver como a gente realmente fica deslumbrado com as opções de alimentos aqui. E como comida é algo muito sério para eles, você vê que os alimentos estão sempre frescos ou são sempre bem feitinhos. Não tem nada que seja feito nas coxas, nem mesmo os produtos mais baratos.

Outra coisa legal é que na cidade onde moramos tem um mercadinho local que vende produtos do Brasil, como mistura para pão de queijo, feijão preto, leite condensado, cerveja, guaraná e farinha. E essa cidade tem só 6 mil habitantes!

“Os doces de vó” são os doces normais

Eu sempre brinquei que existe o “doce de vó”, que é basicamente qualquer massa doce que tenha açúcar de confeiteiro por cima e algum recheio de creme. Foi uma surpresa perceber que esse tipo de doce é o comum, como canollo, cornetto, entre outros.

Então de repente tudo ficou claro: são doces de vó porque muitas vós e bisavós no Brasil são de origem italiana e, portanto, estão acostumadas com a culinária italiana. Agora não parece incrível, mas foi um puta insight a hora que nos demos conta disso.

O catolicismo está bem presente

Quando eu digo presente, não é só porque as pessoas dizem ser católicas e rezam todas as noites. Nas ruas você vê o quanto as pessoas são realmente praticantes. Nas cidades, principalmente nas menores, tem sempre um oratório a cada rua, com velas ainda acesas, flores, fotos de algum parente e imagens de santos.

Achamos curioso quando um amigo nosso italiano nos perguntou qual era a nossa religião, e então ele disse que era católico — e isso foi mesmo um assunto. Sei lá, isso dificilmente é um assunto que jogo numa roda de conversa, mas vimos o quanto eles se importam com a religião.

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