Era Deusa
Ela era como uma deusa, e então como uma deusa se via. Não precisava de multidões que a seguissem, nem de papeis que lhe diriam como adorá-la. Era uma deusa pelo simples fato de existir, e existia pelo simples fato de ter-se criado. Na forja da mente, se moldara à sua imagem, aproximando-se, em cada detalhe, cada vez mais de si mesma. Suas características não eram boas ou ruins, nem detentoras de moral a fim de serem admiradas ou apedrejadas. Ela mesma não nutria desejos por delimitar em tão poucas palavras atos que lhe preenchiam de forma tão natural, que não eram considerados paradoxos até serem postos frente aos olhos das outras pessoas. Também essas eram deusas, cada qual à sua imagem, dona de sua própria forma, argila e receita. Essas divindades conversavam entre si para trocar ingredientes, mas isso não significava que eram menos, ou mesmo mais, do que um dia já haviam sido. Era como se todas fossem feitas da mais maleável massa, e que essa mesma massa possuía o poder infinito de se transformar naquilo que quisesse, no momento em que se quisesse, no tempo em que se quisesse. O poder era tanto que nem mesmo o conceito de poder lhes era acessível, visto que tudo era possível. Certo dia, decidiram criar um pequeno jogo. Nada muito grande, apenas uma leve distração que as levasse para se divertir de vez em quando. O objetivo era reconquistar tudo isso que um dia lhes pertencera, todo esse vazio repleto de possibilidades, todo esse ser e não ser, todo esse paradoxo. Para isso, criaram dentro de suas forjas ideias absurdas sobre o conceito do poder, a fim de que, quando chegasse a hora, houvessem se confundido e procurado o suficiente para se reencontrar em uma nova forma, em um novo momento, em um novo tempo. E tudo isso para preencher esse vazio que transbordava dia após dia. A questão é que a finalidade não estava no objetivo, e sim no jogo. Para ser mais exata, a ideia de finalidade lhes escapava ao toque, e talvez essa seja a maior beleza. Existiam por existir, mudavam por mudar, eram por serem. E por serem, eram. Por mudarem, mudavam. E por existirem, existiam. Por elas, e para elas.
