por vezes a gente se pega repensando coisas vividas. de tempos atrás, de uma outra vida. de outra pessoa que éramos à época, do que fazíamos, com quem compartíamos os dias, o viver.
com frequência, essa é uma experiência individual e dolorida. seja pela saudade de um tempo distante, seja pela nostalgia, culpa, arrependimento ou por todo o sentimento ligado ao passado de nós mesmos.
mas há uma vivência dolorosa que é coletiva. de muitas de nós, mulheres. e é tão dolorida justamente por ser algo coletivo. o repensar de vivências passadas, que é não somente revisitado, mas reanalisado, ressignificado e redolorido. é o repensar de relacionamentos entre homens e mulheres.
há mais de cinco anos, me relacionei com um homem que me causou traumas dos quais eu não tinha consciência até há pouco. literalmente pouco. algo como semanas.
há mais de cinco anos sofri em uma relação que até hoje ecoa negativamente em mim e de cujos efeitos eu não tinha dimensão.
quando, inúmeras vezes, fui acusada por meu namorado de estar olhando para os lados e flertando com desconhecidos. quando saíamos de algum lugar por um mal estar que se formava, em que tinha de perder horas, noites inteiras, às vezes semanas de minha vida, tentando justificar que apenas olhava pra uma árvore que lhe parecia concorrência.
quando me percebi reproduzindo comportamentos extremamente possessivos e nocivos, cobrando cada movimento da individualidade de meu companheiro, porque era nessa lógica que passava a entender um relacionamento. quando, depois de tanto tempo sendo cobrada por minha presença, por minha exclusividade, por minha adequação ao relacionamento ideal, me vi cobrando e julgando aquilo que disso destoava.
quando tive de ouvir que era motivo de raiva que eu não tivesse mais nada de “virgem” a oferecer para o meu namorado. quando minhas vivências foram transformadas em vergonhas, em pedaços que deveriam ser escondidos da minha existência. quando acabei por me sentir culpada por não ser “pura” ou “inédita”.
quando me senti culpada por ter desempenho melhor do que meu namorado em disciplinas que cursávamos juntos na faculdade. quando tive de consolá-lo por seu excelente 9,5 que encolhia sua masculinidade ao lado de meu 10.
quando ouvi uma “brincadeira” de um amigo nosso, sobre ter recebido elogios de um professor sobre minha produção intelectual somente por ser mulher. e, nesse momento, ouvir de meu companheiro que eu exagerava, levando as coisas a sério demais quando me manifestei. quando acabei por pedir desculpas aos dois.
quando fui acusada de me portar de forma inadequada, de envergonhá-lo na frente de seus amigos por minha espontaneidade, que lhe parecia vulgar. e, ao mesmo tempo, quando fui acusada de ser“careta” por me incomodar ao ser chamada de “vadia” durante um momento de intimidade. por não me encaixar na fantasia perfeita do macho alfa: a santa na rua e a puta na cama.
vale a pena contar a história? vale me expor dessa forma? tantas reflexões nos inundam no pensar sobre coisas que assim são. amplificar as vivências — colocá-las à disposição da leitura do mundo — pode ser tão potente, pode ecoar de forma tão intensa. e também destrutiva. pode corroer, distorcer, magoar, machucar, matar.
mas vale contar a história.
vale justamente pelo social que há no pessoal. pra que não pensemos estar sozinhas, porque não estamos.
e tampouco estava eu sozinha à época em que vivi um relacionamento tão nocivo quanto agora o compreendo. tinha minhas amigas do lado, que me apoiaram naquilo que com elas partilhei.
mas naquilo que sequer eu sabia ser necessário buscar apoio… naquilo eu estava sozinha. eu e ele.
é por tudo isso que escrevo aqui. que me exponho. pra que saibamos que outras de nós viveram e vivem esse tipo de experiência tão naturalizada e invisibilizada. não é normal. não é saudável. gera todo tipo de consequências que até hoje vou percebendo em mim. e essa ressignificação — pessoal e coletiva — pode mesmo transformar. pode ser aquilo que uma de nós precisa para perceber que não tem de se desculpar, que não há culpa a não ser a dele. que toda a autoestima que escorre, que toda a insegurança que brota podem ser simplesmente respostas a um amor que de amor não tem nada. que é posse e controle. que é machismo.
quero reviver tudo em minha mente. por mais doloroso que seja. pra poder me libertar. para em outro momento de minha vida relembrar desse de agora e pensar em como consegui interpretar como trauma o que entendia como defeitos e falhas minhas. traumas que podem ser superados. que podem abrir possibilidades pra novas eus, que não sintam tanta dor sem sequer ter dela consciência.
