Extra! Extra! Infelizmente esse editorial não foi tão bom
(ou: um pequeno desabafo desconexo)
É muito esquisito. De uma forma estranha a Guerra do Paraguai mudou a minha vida. E assumo que depois da escola eu nunca nem parei pra estudar mais isso ainda que faça graduação em História. E não, isso não me dá um pinguinho de autoridade pra falar de nada. Eu não escrevo análise, não me sinto capaz, não me digo historiadora. E acho que nunca direi. Ou seja, MUDOU A MINHA VIDA ao mesmo tempo em que ficou meio por isso mesmo.
Primeiro foi uma coisa que mudou minha percepção — e que narrativamente acabou sendo a minha conversão como drama: eu descobri aí que a gente nunca vai saber a verdade. O professor apresentou duas versões mais classiconas mesmo: a de que era influência do Império Britânico e a outra que critica isso e que vamo lá né que até parece que eles tinham tanta influência assim, vamos pensar nos nossos motivos. Adendo que me pergunto se britânicos estudam essas merda que o Império deles fez no mundo ou se imaginam que a nossa história é bem eurocêntrica e que todo mundo tá ligadinho neles desde que estudamos Rev. Industrial. Mas bem, ele quis mostrar que existe mais de uma versão. Nesse caso, mais de uma versão que já foi oficial. Mas que sempre existirão inúmeras versões. E a essa altura eu não sabia o nome ou o que que isso teria a ver com teoria mas eu tive essa realização de que a gente nunca ia saber a verdade. Ainda me dá um desespero e uma paz. Mas não é só que a gente nunca vai saber, é que nem existe. Olha que coisa linda.
Bem, a segunda coisa que a Guerra do Paraguai fez por mim — é num jeito bem pessoal mesmo, porque se for falar de importância histórica foi o que me fez perceber o caminho da luta abolicionista, por ex. Eu costumo, quando faço apanhados, a explicar por aí — foi quando eu fui sozinha pro Museu de Belas Artes que fica ali na Cinelândia. Vou dizer que sinceramente não lembro, mas creio que até já estava na graduação mesmo e devia ter em torno de meus 18 aninhos.
Lembrava vagamente de ter estado ali em um passeio da escola ou algo do gênero. Eu nem sabia que o museu era pago, e não sei bem o porquê, mas isso me surpreendeu na época. Então tô eu lá tirando meu atrasinho de não ter ido num museu que fica ali do lado do trabalho da minha mãe e que teoricamente é de se esperar que alguém que faz História deveria ter ido.
Eu lembro que achei meio “ah tá que legal essas imagens que estão todas no meu livro da escola”, mas né tudo meio parecido, beleza?, beleza. Lembro que uma das últimas coisas que vi foram aqueles quadros meio indigenistas e fiquei “nossa, olha a Iracema, que coisa. Aquela aulinha de literatura que era foda mas o prof era mó escroto”, etc. Tava lá orgulhosinha de ter visto essas coisas antes em algum lugar.
Cheguei em casa ainda meio esnobe com meu passeio de gente grande que fiz sozinha ainda por cima e minha mãe pergunta como foi etcétera etcétera. Aí ela me perguntou o que que eu achei do quadro da Guerra do Paraguai do Pedro Américo (chama Batalha do Avaí). Opa, sem reação. Eu não consegui emitir nenhuma opinião sobre além de que era um quadro GIGANTE e que a moldura era muito bonita. Sabe, a imagem tava lá no meu livro de História da escola. Mas eu não pensei muito sobre ela fora que é uma coisa ilustrativa genérica que tava lá no meu livro de História. Sei lá, que que vocês respondem quando perguntam o que que vocês acharam do quadro do Delacroix? Eu acho que entendi a referência naquele filme meia tigela do Bertolucci com a Eva Green, “Os Sonhadores”. Mas só isso também.

Minha mãe é uma coisinha muito boa pra minha vida. Ela foi me explicar que o quadro foi uma encomenda do Estado Imperial pro Pedro Américo. Que a ideia era enaltecer a atuação brasileira na Guerra do Paraguai. Só que aí que vem aquela coisa, aqueeela que nos faz até salivar pra falar. Ele fez o que queriam, mas não exatamente como queriam. Ela me perguntou “o que você viu no quadro?”. Eu lá meio com aquelas respostas reticentes “cavalos, armas, uniformes e aquele-mesmo-tom-de-céu-e-uniforme-que-faz-todos-esses-quadros-parecerem-iguais…?”. E ela “quem tava de uniforme?”. Os aliados! (Ah, é! Aliados não é só a Inglaterra, França e EUA na II Guerra não, tá, James? Um inglês meio simpático meio arrogante que eu conheci que acha que eles além de só terem entrado na II Guerra pra salvar a Polônia, que patentearam e têm uso eterno e exclusivo da palavra aliados). Então, os aliados da Tríplice Aliança: Brasil, Argentina e Uruguai (estudados necessariamente nessa ordem de importância). Contra o Paraguai. Sozinho.
Pois é, e quem não tava de uniforme? É, amigos, os paraguaios. A real que ela me deu esse dia é que esse quadro foi um tiro no pé porque ele evidencia, exatamente, a guerra injusta e genocida. Pior que três contra um. Eram exércitos contra uma população civil. E o brasileiro ainda era um Exército formado majoritariamente por negros escravizados e “voluntários da pátria” recrutados por livre e espontânea pressão. Cheio de involuntários nessa nossa pátria aí, hein?
Bem, essa epopeia toda aí pra dizer que ficou vindo em flash isso com esse novo editorial do Extra, “Isso não é normal” que todo mundo já deve estar interado a essas alturas — eu nunca tô na crista da onda das notícias e opiniões polêmicas, to láaaa atrás moscando. Enfim, rolou esse editorial (eu não sei nem o nome, gente) do Extra (aka Globo grupo) falando que vão ter uma seção exclusiva pra retratar a guerra no RJ porque isso não é normal. Eles se posicionaram. Só não consigo muito tirar a pulga atrás da orelha que eles se posicionaram do lado dessa política genocida de Estado. Eles disseram que queriam perder o título de único jornal do mundo a ter essa seção específica — que eles mesmos criaram.
Bem, logo em seguida muito mais bem explicado eu li o texto do Intercept e o do Anderson França no facebook e concordo com ambas as análises. O que me deixa bem triste é isso que não saiu da minha cabeça: é um exército contra uma população civil. E uma mídia pra apoiar.


