Uma amizade que não deveria terminar

Lembro do tempo que a escola significava fazer amigos e não estudar.
Quando lembro da minha infância e dos meus primeiros amores, tu sempre está presente.
Sabia de tudo que eu queria e o que eu pensava. Me conhecia de verdade, como ninguém nessa vida me conhece.
Era aquela amizade invejada por muitos e que poucos tinham. Amizade de berço, amizade de rua. Dizer ‘era’ me faz chorar e pensar que não sei como voltar pra te ter de novo.
Resolvi contar nossa história para relembrar os tempos que foram bons. Os tempos — que não foram poucos — que tu foi a minha metade.
A gente sempre gostava de algum guri. Era muito engraçado porque a gente apenas gostava, eles nunca sabiam. Eram segredos nossos e ninguém mais sabia. Quando sofríamos por esses tais meninos que nem sabiam da nossa existência, a gente sofria juntas.
Então ficava tudo fácil. Resolvíamos ir locar filmes (não existia sky e nem netflix, pessoal), mil anos para escolher e sempre tinha que ter um de terror. Sempre que eu vejo algum filme de terror eu lembro de ti. Principalmente se tem pipoca e brigadeiro.
Um dia escreveram na nossa rua, o meu nome e do guri que eu gostava pra todo mundo ver! Quem apagou por mim? Quem escondeu e guardou com muito amor todos os meus segredos?
Daí eu penso: onde será que você está com todos aqueles meus segredos? Os segredos de hoje, eu vou contar pra quem?
Foram longos e lindos verões e invernos juntas. Noites e dias de muitas histórias. Nós passávamos tanto tempo juntas que na minha casa tua era minha irmã e, eu na tua casa jamais era visita. A gente nunca brigou. Nunca.
Um dia eu mudei de escola, fiz novos amigos, mas sempre dava um jeito de estar perto de ti. De repente, eu não estava mais contigo.

Eu juro que tentei não me afastar. Eu juro que tentei fazer de tudo pra continuar orgulhosa de ter uma melhor amiga desde os meus 7 anos.
Mas a vida, essa coisa louca que é a vida, não quis que durasse mais. Eu tinha tanto orgulho, eu enchia a boca pra contar que eu sim tinha uma melhor amiga e que nossa amizade já tinha mais de 15 anos.

De tanto que falei, ela resolveu ir embora.
Tudo foi embora. Você foi embora, nossa amizade foi embora. Nossa infância e adolescência foram embora.
O sonho que tu ia ser madrinha do meu casamento e de todos os meus filhos foi embora. Esses dias tu apareceu por aqui e minha mãe me contou que vocês conversaram. A primeira coisa que eu quis saber foi se tu tinha perguntado de mim.
- Não, filha. Ela não perguntou por ti.
Minha mãe pensou e me disse que tu está do mesmo jeito, casada, que compraram uma casa. Mas não, não lembrou de mim.
Tenho medo de te encontrar na rua e não saber qual vai ser a minha reação. Uma coisa podes ter certeza, posso sofrer por todos aqueles guris e todos os outros que ainda vão me fazer chorar, mas jamais sofrerei tanto por nossa amizade ter chegado ao fim. Não tem mais filmes, não tem mais pipoca, não tem mais segredos. Tem um vazio que nunca mais será preenchido aqui dentro.

Like what you read? Give . a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.