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Me imaginava às seis da noite, naquela penumbra fininha de fim de tarde, te esperando sentada na praça Carlos Chagas. Ok, eu nunca pisei em Belo Horizonte. Pra ser sincera fui nem para Minas Gerais, mas minha cabeça teimou que tinha de ser na Carlos Chagas, então ia ser. Talvez fosse até perigoso. Não sei o índice de violência exato de lá. E se for alto? É uma capital afinal. Pensando melhor… Talvez pudesse ser em outra praça.

Ah, mas a Carlos Chagas parece tão bonita.

Reformulando, eu me imaginava sentada na Carlos Chagas te esperando às seis da noite, naquela penumbra fininha de fim de tarde, correndo o risco de ser morta e achada numa vala. Mas o cenário é bonito, né não? Não ia me importar de ficar ali vendo o pessoal de Minas, até você chegar, atrasado, claro. Ia pedir desculpas pelo atraso e eu ia dizer que tudo bem, porque eu gosto de ficar sentada em qualquer pavimento para ver passar aquele movimento de suor, janta para fazer, cansaço, filhos para buscar, perfume barato e fichamento de amanhã.

A gente ia andando até algum barzinho e no caminho eu te perguntava sobre a sua vida. Fazia tanto tempo que não te via! Você me dava respostas gentis, mas invariavelmente curtas, do tipo que a gente fornece quando está conversando com um estranho e não quer ser rude. E eu ia pensar, sem dor, nem apreço: Viramos isso mesmo.

E lá vai. Você senta, eu sento. Pegamos o cardápio, você vai de cacau com leite e eu de água, pretexto, pagamos mais pelo lugar do que pelo cardápio. Desenrolamos outras conversas tendo como acompanhamento o barulho das mesas ao lado, a Mariana tava bem puta porque o Carlos é babaca. Espero que se resolvam. Agora você fala mais porque está mais a vontade, eu vou jogando perguntas e percebo que não sei de nada da tua vida de agora.

A gente ri, se diverte e fica de boa. Relembrando histórias antigas, despejando açúcar na mesa e fazendo carreiras, porque você nunca dispensa uma boa piada. Ficamos assim por um bom tempo até que chega ela, é um valor baixo, mas insisto em dividir, você briga e paga a conta.

Eu ainda me sinto muito sozinha sem você, mas não posso falar sobre isso porque a gente não tem tanta liberdade um com o outro. Nós nos conhecemos bem, eu sei tudo de você, seu passado inteiro, mas não tenho conexão alguma com o seu presente.

Você pergunta e eu te digo que estou muito feliz com meu emprego. O salário é uma merreca, mas eu gosto para caramba do que faço e o pessoal é gente boa.

Daí a gente passa na banca, porque eu quero ver um negócio. Você pega aqueles M&Ms de pacote e eu insisto em pagar, para poder pagar alguma coisa para você. Você deixa.

A gente vai para aquela ponte na beira do lago, minha cabeça disse que tem que ser a da minha cidade. Então teletransporta sua imaginação para cá. Dessa cidade eu sei, saí pouco daqui.

Ficamos com os cotovelos apoiados na ponte de madeira e eu te vejo de perfil. Tu cresceu cara… Cresceu mesmo. Está com aquele olhar de adulto, mais sereno e preocupado, mas ainda é você. Eu também cresci bastante. É, a gente cresceu. Mas não deu para crescer junto.

Você sorri para mim com um ar de que foi? E eu falo das luzes da cidade para desviar do que estou pensando.

O lago é cercado por apartamentos. Quando o pessoal comprou os imóveis, o marketing era: “Garanta seu imóvel já! Em até 232 vezes sem juros. Atenção! Vista para o lago!”. Mas o lago é cercado de apartamentos, a vista do lago são apartamentos. Você retifica e faz um discurso comunista, velhos hábitos nunca mudam.

E a gente encara aquelas luzes, são as luzes de quem já tirou o suor do corpo, fez a janta, pegou as crianças na escola, que agora estão vendo Peppa ou Apenas um Show na tv da sala, de quem chegou em casa cheirando a perfume barato e agora tem que se explicar, de quem foi tirar uma soneca e só vai acordar amanhã e perceber que não fez o fichamento de amanhã.

Seu telefone toca e você atende. Ela está te esperando para vocês verem aquele filme cult no SESC, a sessão é às 21:30. Tu me dá um abraço bem demorado e toma a segunda rua, virando à esquerda, porque é mais rápido do que ir pela avenida nesse horário. E eu fico ali na ponte, com a vista do lago e seu cheiro em mim. Ah, você trocou de perfume! Mas acho que a essência é a mesma.