Franz Kafka e o impeachment de Dilma Rousseff

Como o autor tcheco se relaciona à situação política do nosso país

Com o auxílio do Dicionário Informal:

Kafkiano é o adjetivo relacionado ao escritor Franz Kafka, normalmente associado à ideia do surreal, absurdo, confusão entre o real e a ficção, estado hipotético de penumbra, danação absoluta e submissão ao imaginário. Crise de identidade entre o mundo e o indivíduo.

A partir disso, não seria exagero reconhecer que a política brasileira é kafkiana, parece-me que nosso cenário político é permeado de eventos surreais, segue alguns retirados da votação do impeachment pela Câmara dos Deputados: votos por membros da família e até mesmo pela paz em Jerusalém, menção honrosa à Carlos Ustra, primeiro militar reconhecido pela Justiça como torturador da ditadura, o fato de a votação ser presidida por Eduardo Cunha (contra o qual pesam algumas acusações, dentre elas: omissão de bens, falso testemunho e recebimento de propinas milionárias) e é claro o inesquecível espetáculo dos confetes de Wladimir Costa.

Realizada em abril, essa primeira etapa teve grande repercussão entre a maioria do povo brasileiro e nos colocou, de fato, no centro de um enredo kafkiano. Com certeza, a declaração de Bolsonaro sobre a ditadura nos deixou no limbo entre ficção e realidade. Os votos com dedicatórias trouxeram a tona uma crise de identidade política, aqueles deputados deveriam legislar pela paz em Jerusalém e pela neta Júlia ou por nós? E a chuva de confetes de Costa selou nossa sensação de surrealidade. Pronto, somos kafkianos.

Agora estamos em agosto, enfrentando mais uma etapa da votação do impeachment de Dilma Rousseff, atualmente no Senado. Tal qual Josef K. ou Gregor Samsa, creio que muitos de nós não compreendemos em plenitude o que ocorre ao nosso redor, por vezes, cultuando a ideia de que nada sabemos diante dessa chuva de informações, nada neutras, que provocam mais confusão do que esclarecimento.

Por isso, o sentimento máximo que Kafka tão bem retratava em seus protagonistas, a sensação constante de que não há solução para os problemas enfrentados, também pertence a nós.

E nessa narrativa cheia de reviravoltas devemos ficar em alerta, pois na atual posição, tornaram-nos leitores e não protagonistas da história política brasileira.