Inços, pires e flores

- Preciso contratar outro jardineiro. O antigo veio aqui e me passou a perna, que raiva! Pegou meu dinheiro e disse que tirou todos os inços. Duas semanas depois, o quintal já estava tomado por eles. Não aguento mais tanto mato! Quero meu jardim bonitinho, nem tenho mais vontade de ir lá fora.

Foi assim que contei para minha vó sobre a relação com o meu primeiro jardim.

Ela e o vô haviam chegado do interior. Era a primeira vez deles em minha casa. Ele, no sofá assistindo televisão, disfarçava não ouvir o lamento. Ela, à mesa, tomando café-da-manhã que tentei recriar como se em sua casa fosse. Pão, queijo, presunto, nata, cuca, chimia ou geleia de frutas — para quem não é do Sul. Café preto e leite quente para a manhã curitibana. Ela tomou o gole e apoiou o rosto sobre uma das mãos. A outra alisava a toalha de mesa que tinha flores coloridas estampadas — não bordadas.

Bruna Maia

Eu tinha vinte e poucos anos e queria manter a casa e a vida como um brinco. Controlar as pragas que pareciam ter tomado conta de todos os cantinhos dos meus dias. Ela ouvia tudinho. Sobre a grama, o jardineiro, os planos, os sonhos e as falhas. Após o típico silêncio-sabedoria de vó, tranquilamente, me dizia:

- É bom ter um quintal bonito, mas o mato também faz parte do jardim.

Uma única frase que se oferta como preciosa dica sobre a vida. Assim são os avós.

- Problemas existem, e eles sempre vão existir.

Palavras do monge budista, com a mesma tranquilidade de vó, durante um retiro de meditação.

Foi assim que reconheci a grandeza dos avós. Ouvir em silêncio, prestar atenção no que está escondido nas palavras, anterior as atitudes. Falar o que precisa ser dito. Com doçura, com cautela, ocupar as orelhas com sentido.

Não valia à pena ter um jardim quando o meu olhar enxergava apenas os matos, dar importância demais aos inços me afastava da própria vida. Para o quintal existir como jardim, com flores e formosuras, é preciso lidar com os matos. Saber que eles continuam ali. Eles vêm com o vento, com os passarinhos, das profundezas da terra. Nem sempre a culpa é do jardineiro.

Enquanto eu ainda assimilava os ensinamentos despretensiosos da vó, passando chimia no pão — só pra disfarçar — ela emendou:

- Você precisa de xícaras com pires, minha neta. Senão, logo, logo, sua toalha vai manchar de café. Silêncio e sabedoria, assim são.