É BOM, MAS É RUIM.

Bruna Luise
Aug 27, 2017 · 6 min read

Vim fazer fofoca do Japão. Não conta pra ele.

Imagino que muitas pessoas já escreveram e dissertaram em mesa de bar sobre como o Japão é incrível no quesito gentileza, pensamento coletivo e serviço ao consumidor. Deixa eu ver se consigo fazer vocês entenderem o nível que esses três tópicos acontecem aqui. Vai ser difícil. Porque as melhores e as piores atitudes estão nas pequenas coisas e aqui no Japão o bom e o ruim tendem a ser a mesma coisa. Oi?!

Quem discordar do que vou dizer pode abrir um novo tópico de discussão no bar sobre isso ou me chamar pra beber e conversar (geralmente funciona), porque até agora não consegui mudar de ideia sobre: o lado fantástico do Japão, aquele que todos os turistas vão embora elogiando e que ~superficialmente~é incrível mesmo, também é o lado negativos dos seres de olhos puxados do lado de cá.

Me sinto uma guria mimada reclamando do Japão, mas faz parte. Não é como se eu dissesse: “paiê, o trem que vem de 2 em 2 minutos atrasou”; ou “paiê, andam fazendo reverências demais em restaurantes para mim”. Acredito que o lado negativo japonês não está na falta de emprego, na falta de educação, na falta de pensamento ao próximo que torna as pessoas egoístas, como no Brasil e em muitos outros países. O lado negativo está na cultura exagerada da gentileza e do pensamento coletivo. De novo, o lado bom, também é o ruim.

Ainda que o Japão tenha se tornado um país aberto e moderno aos olhos do mundo há muito tempo (mesmo quando insistem em usar fax ao invés de e-mail) muitas vezes sinto como se todos ainda se comportassem numa cultura de ilha fechada e isolada como antigamente. Te imagina na época de guerras aqui. Ou morando em uma ilha fechada de poucos recursos e tendo um terremoto atrás do outro. Tu precisaria do próximo. Precisaria compartilhar das plantações de todos. Precisaria que ninguém te roubasse enquanto tentasse sobreviver. Precisaria que respeitassem teu espaço e não te julgassem(verbalmente). Precisaria que não houvessem conflitos pelo bem de todos.

Sem o pensamento coletivo esse país nunca teria chegado onde chegou. Aqui existem pessoas demais por metro quadrado e, não fosse por esse detalhe e pela economia do país, eles seriam como a Índia ou a China. (quer falar bem da China? Não convida um japonês pra conversa).

Tudo que eles passaram e aprenderam juntos fez com que todos seguissem sendo gentis uns com os outros. Isso foi passado de geração para geração. Rigidez atrás de rigidez fizeram com que todos se respeitassem. Fez com que não se ouvissem gritos nas ruas porque atrapalharia ao próximo. Fez com que toda e qualquer pessoa que trabalhe em serviço ou venda ao consumidor o trate como um ser superior de outra galáxia, também. Fez com que aos poucos, as pessoas não conversassem mais. A cultura japonesa implora que tu seja gentil com as pessoas e que os consumidores sejam tratados incrivelmente bem. Merecedores de tal ação ou não.

Não me entende errado. Eu amo isso. Amo a cultura japonesa como um todo também (não teria escolhido ir parar no outro lado do mundo e recomeçado a vida do zero se odiasse esse lugar). Amo tanto que entendi e compreendi que gentileza e boas maneiras se aprende observando. Se aprende sendo a única pessoa que não está fazendo e agindo como o próximo, que não está esperando o sinal do trânsito fechar para atravessar na faixa. Se aprende por osmose.

É de praxe aqui receber muitos agradecimentos e reverências em restaurantes, por exemplo. Nisso eles estão me deixando ridiculamente mal acostumada. MAS tu não esperaria isso do serviço público, dos funcionários do governo, da senhora que emite a tua carteira de identidade enquanto tu não falava uma palavra da língua dela e ela tentava de todas os jeitos traduzir pra ti com muita paciência e um sorriso gentil no rosto. Enfim, tu espera ser bem tratado quando paga por isso. O mundo me criou assim. Por isso vir para cá te prova que nem tudo é sobre o quanto tu paga e sim sobre a educação e a cultura das pessoas. “Óbvio né Bruna. Eu já sabia disso, tu não?!”

Eu achava que sabia. Achava que entendia gentileza e resiliência. Mas nada se compara aos japoneses no seu dia a dia. A não ter que se preocupar com absolutamente NADA a não ser fazer teu trabalho, te alimentar e cuidar de ti mesmo (respeitando o próximo, é claro). Aqui se eles vêem que tu estás com problemas ou perdido eles vão te pegar pela mão e fazer o possível e o impossível para te ajudar. Até te colocar num táxi, entrar junto, pagar por ti e garantir que tu chegou no teu hotel em segurança. Juro. Aconteceu comigo. Isos entrou para o meu livro pessoal chamado: “ainda tenho esperança na humanidade”.

Mas sabe com o que tenho que me preocupar constantemente? Em não pedir ajuda caso realmente precise. Aqui começamos a entrar em um lado negativo do país e escolhi um exemplo assim para ilustrar. Eles podem não querer te ajudar, podem não gostar de ti, te acharem um saco, não gostarem de estrangeiros, etc, etc — cite aqui todas as situações que já te fizeram agir de má vontade ou dizer “não” — mas a cultura japonesa implica que é melhor aceitar as coisas do que causar conflitos. Do que dizer não. Já vi muito isso acontecer e dói ver pessoas indo trabalhar indispostas só porque não souberam dizer não. Pessoas que poderiam estar felizes mas não souberam ter equilíbrio na vida pela falta de “não”s ditos. Adolescentes e adultos que não se rebelam contra as cargas exageradas que recebem. Relacionamentos doentios porque construíram uma barreira entre pessoas tão grande e ao mesmo tempo tão tênue que tu acha que estão todos sendo gentis uns com os outros mas na verdade só estão sendo resilientes.

Resiliência e ineficiência são duas palavras que eu, na minha humilde opinião, acho que define o lado negativo japonês. Podemos tentar ir a fundo nesse assunto e sempre teremos o que discutir no próximo dia, porque isso aqui é muito profundo. É a resiliência que faz o Japão ter um dos índices mais altos de suicídios do mundo. MUNDO. E eles tem tudo. Menos voz própria. Eles tem tudo, até o chefe dizer que eles tem que trabalhar 100 horas extras a mais no mês. Mesmo eles sabendo que aqui é muito difícil ser demitido. Por quê? Porque de novo todos querem evitar conflitos. E isso é um ciclo que se repete eternamente. Das reverências intermináveis, aos funcionários que se obrigam a sair para beber com os chefes se querem causar uma boa impressão e acabam indo pro banheiro vomitar porque não aguentam 4 noites seguidas de sake ininterrupto pelo “bem do relacionamento com o chefe”, para poderem estar de pé no próximo dia as 5 da manhã sabendo que vão beber a noite de novo. Nunca vou entender porque dormir no trabalho é ok, mas recusar saída da empresa não.

A resiliência e a vontade de não causar conflitos geram uma gentileza falsa. Hoje já não sei quando alguém está sendo gentil comigo ou está me odiando e sendo muito falso. Não sei mais discernir se minha chefe está contente com meu trabalho. Não sei mais dizer se as pessoas se amam ao olhar pra elas porque vejo diariamente a mesma cara, a cara da resiliência pelo bem ao próximo.

Mas hein, não deixa de vir pro Japão, não. Deixei para falar de um lado ruim bem depois de mostrar muita coisa incrível pra ver se vocês conseguem equilibrar. Deixei para começar a reclamar depois que vocês já viram o quanto estou agradecida por estar vivendo essa experiência. Assim espero.

E se quiser me chamar pra beber e conversar, vem me visitar. Vão te atender tão bem no bar que tu vai querer dar uma gorjeta enorme e um abraço gigante nas pessoas. E eles não vão aceitar, porque não aceitam gorjetas. E não vão nem chegar perto de ti pra abraço. Abraço é coisa para datas especiais entre família. Não é nem pro dia a dia. Não é amizade. E vocês aí pensando que a reverência japonesa é linda, né? Eles fazem isso sem se tocar, sem se olharem nos olhos. Pela cultura. Pela resiliência. Porque sim.

E eu só queria um abraço.

)

Bruna Luise

Written by

Brazilian living in Tokyo. Vivendo o sonho do Sushi todo dia com reflexões nipônicas vindas do coração.

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