Uma meia no chão por 10 dias.

Estação de trem no Japão.

Tem dias que a gente passa correndo por onde anda. A música tá boa demais para prestar atenção, a correria pode estar maior ainda e por aí vai. Mas o fato é que: nem sempre paramos para prestar atenção ao nosso redor.

Certa manhã eu saí de casa. Correndo porque dormi demais e porque não queria sair, mas o que se pode fazer, tinha que trabalhar. Nesta manhã especificamente decidi acalmar. Ainda tinha que dar aquela corridinha básica, apertar o passo e coisa e tal, mas decidi prestar atenção em cada detalhe e movimento que fazia. Focar no agora e só no agora. Prestar atenção em um passo, depois o outro, a estação de trem, as pessoas e a meia.

A meia estava lá naquele dia. Jogada no chão da estação. Como uma meia parou lá eu não sei. Afinal de contas, a gente notaria se uma meia caísse do pé..(né?!). Mas o que mais me deixou intrigada foi que a estação, como sempre, estava imaculada. Nunca se vê sujeira no Japão.

Deixa eu ser bem exagerada e dizer NUNCA de novo.

Pra ver se assim vocês conseguem ter noção do que é UMA sujeira chamar atenção. (tem exceções? Tem. Mas a regra é clara: se trabalhas no metrô, vais aspirar o chão e escadas trinta vezes por dia).

Enfim, a meia seguiu lá. Na manhã seguinte não fazia meu exercício de focar no agora, só ouvia John Mayer enquanto esperava o trem e BUM: vi que a meia seguia no chão. COMO ASSIM? Penso eu. Com a minha malandragem brasileira e pensamento errado julgo que alguém foi preguiçoso. “Puxa vida esses japoneses. Já foram melhores hein?! Pfff”.

Mas, depois do terceiro dia parei de pensar que era preguiça e fui entender o que havia com aquela meia. Por que ninguém tirava ela de lá?
Ao final do 10º dia algo aconteceu. Ouvindo Beatles, a meia desapareceu. A plataforma do trem voltou a ficar como todas as outras e a vida seguiu, como se a meia nunca tivesse existido.

Sabem por que ela ficou lá esse tempo todo?

Porque a meia era de alguém. Ninguém ía mexer no que não era seu. Os guardas não recolheram porque alguém podia voltar pra buscar. Eventualmente o dono deve ter voltado (imagino na minha cabeça criativa ele pensando “poxa, agora lembrei que perdi minha meia na estação de Kagurazaka. Vou lá buscar”. Ou finalmente decidiram levar ela pro achados e perdidos (Botar fora? Nunca!).

Mas esse textão todo foi pra dizer: quero mais meias no chão pra me lembrar do país que estou morando e do quanto cada um cuida da sua vida e não mexe na dos outros SIMPLESMENTE porque não é sua. É simples assim. 
A gente que complica. 
Fim.