VIVI PRA VER JAPONESES DANÇANDO ARERÊ.

Uma reflexão sobre seres exóticos, crianças japonesas e Ivete Sangalo.

Morando no Brasil todos os orientais e, principalmente japoneses, parecem muito exóticos para nós. Né? (ninguém sabe direito o que exótico significa, mas é o que todo mundo fala).

Essa gente toda igual de olhos puxados que vive lá do outro lado do mundo. Que só come peixe cru e noodles (BTW, se tu acha que come comida japonesa com os sushis brasileiros, saiba que: todo japonês acha estranhíssimo tudo que fazemos. Cream cheese? Oi? Hot Uramaki? Oi? Eca? Miojo da turma da Mônica então… esse deve fazer o tio que inventou os noodles e o ramen se revirar na cova. Mas que eu comia eu comia).

Os japoneses são conhecidos por nós como pessoas de um país de primeiro mundo, de educação e de sociedade exemplar — não vou falar aqui sobre suicídio e cultura do trabalho, teremos muitos outros posts vindos de terras nipônicas para falar um pouco sobre isso — . Mesmo quem nunca parou para ler qualquer coisa sobre o Japão sabe por osmose ou pela Ana Maria Braga algumas coisas, de tão importante e famoso pro mundo que esse país é. (Alô Sakuras, estamos falando sobre vocês).

Esse é, também, um país de terremotos que assustam cada tia minha que vou te contar. É cada whatsapp que recebo dizendo “Bruninha te cuida, vi o terremoto na TV!”. Como se eu pudesse fazer algo a respeito e como se o Brasil não fosse ridiculamente mais perigoso :D. Ainda que só vivenciei 2 terremotos mais fodas aqui e, em ambos, as pessoas seguiram bebendo e comendo como se a mesa na frente delas não estivesse balançando e dançando~loucamente ao ritmo da terra~.

Mas cês já pararam para pensar no quanto o oposto também acontece? Como os brasileiros são os seres exóticos aqui do outro lado do mundo?

Tá certo que agora que falei vocês devem estar aí concordando. “Claro Bruna, óbvio”. Mas já tinham parado pra pensar antes mesmo?

Vocês tem ideia de quantos olhares eu recebo nas ruas por parecer ocidental AND latina?

Quantas crianças olham pra mim na rua sem o filtro da sociedade de evitar contato nos olhos. Elas me olham com tanta curiosidade. Algumas com medo. Algumas rindo. Mas olham, e muito.

Já os adultos tem uma tática de olhar pra gente muito interessante: eles olham e baixam os olhos umas trinta vezes até sanar a curiosidade ou verem que percebemos. Mas o resumo é: nós somos os seres estranhos aqui. Os seres que despertam curiosidade.

Meu bairro é relativamente grande e ainda assim, a caixa do super mercado parece me reconhecer (e insiste em me ensinar todas as vezes como usar a máquina pra pagar a conta :D). A dona da Bakery do nosso outro bairro me via e já ia buscar o pão que eu gostava porque sabia que eu compraria ele (o dia que não tinha ela ficou muito triste me pedindo desculpas).

Mas, e agora vou chegar onde quero chegar, em nenhum lugar sou mais exótica e diferente como no meu trabalho.

Aqui em Tokyo dou aula de Inglês para crianças japonesas.

(“mas tu não é nativa americana”. Escuto isso pra caralho e toda vez dou um sorriso enorme e respondo com meu melhor sotaque American/British: No, I am not. But still kids seem to be learning from me. How amazing is that?). Blá blá blá, preconceito tem em todo lugar. Blá blá blá.

Voltando ao ponto depois deste desabafo sobre ser brasileira, ensinar inglês e dar aula para japoneses: as crianças e os outros professores japoneses da minha empresa têm uma curiosidade genuína sobre mim. Esses dias inclusive uma criança perguntou quantos dedos eu tinha (essa não tem aprendido muito comigo, confesso).

Todos sabemos como o Brasil soa exótico para pessoas do outro lado do mundo. Assim como orientais são exóticos para nós.

Tudo que escutamos sobre japoneses geralmente é o oposto do que Brasileiros são. E, se tem uma coisa que brasileiros fazem melhor e MUITO melhor do que japoneses, é se divertir. Dançar.

Estamos iniciando no trabalho um Summer Camp para as férias escolares e minha chefe me pediu se eu podia elaborar um dia sobre o Brasil. As crianças não tem muita ideia do que é o Brasil além do futebol e carnaval (na real pouca gente do outro lado do mundo tem). Minha chefe estava muito curiosa há muito tempo me fazendo algumas perguntas soltas sobre meu país e atitudes e agora está dando pulos ~contidos~ de alegria porque uma professora brasileira vai dar uma aula diferente sobre assuntos que as crianças nunca tiveram. Nem ela.

Pesquisando sobre essa minha aula e sobre alguma música para elas aprenderem, me peguei ouvindo a trilha sonora inteira de axé Bahia 1999 e pensando no quanto eu não faria isso no Brasil. Mas estar longe é isso, ter saudade do calor humano que só nós brasileiros sabemos o que é. Ter saudade do que tu cresceu tendo, ouvindo e sentindo. Ter saudade. Fiquei lembrando das festas que já fui dançar Ivete Sangalo e resolvi que queria trazer esse calor latino e brasileiro pra dentro da sala de aula.

Eis que minha chefe concorda e, mês que vem, todas os meus alunos estarão dançando com suas lindas coreografias desengonçadas ARERÊ da Ivete. (pode cantar, vai: um lobby, um hobby, um love com você, ê ê)!

Eu acho que vivi para este dia acontecer. Ver um monte de crianças fofas de olhinhos puxados dançando e pulando algo tão diferente. Tão Ivete Sangalo. E no final, elas ainda vão ganhar Paçoquita. Porque né, to com saudade e precisava de uma desculpa pra comprar uma caixa inteira que vendem por aqui :D. Chega a ser clichê, mas morar fora e dar aulas para crianças é tão isso quanto incrível. No Japão então. As vezes nem eu acredito.

Também por estar com saudade precisava começar a falar sobre essa experiência ~exótica~ de vida que é ser empurrada pra dentro do trem toda manhã e aprender a ler esse monte de desenhos que os japoneses ~insistem~ em chamar de alfabeto.

Um dia eles me convencem e eu aprendo direito. Até lá, vou escrevendo minhas impressões e reflexões aqui porque não moro mais num país tropical :D. (…Abençoado por Deus e bonito por natureza ~mas que beleza~).

Pausa para as fofuras do dia :D
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