Representatividade no teatro

A arte surgiu juntamente com a humanidade pela necessidade da expressão, sejam sentimentos bons ou ruins, a arte está lá para traduzi-los. Quando o tema é opressão e representatividade, não há sombra de dúvidas que terão artistas dispostos a falar sobre isso.

A comunidade LGBTQ+ sempre fez parte do teatro, principalmente do teatro musical. Por mais que possa parecer surpreendente, em 1926 a Broadway apresentava seu primeiro casal lésbico na peça de Édouard Bourdet, The Captive (A Prisioneira); o melodrama explora o romance de Irène e Madame d’Aiguines, porém a primeira tenta disfarçar seu amor se casando com Jacques, apesar de seus esforços o casamento não dá certo, ela volta para a sua amada e dizendo que o relacionamento delas é “uma prisão para a qual devo voltar cativa”. O musical teve apenas 160 seções antes de seus atores serem presos pela polícia de Nova York por suas atitudes “imorais”.

Com o passar dos tempos e as mudanças sociais, mais musicais apresentando personagens da comunidade (até mesmo protagonistas) foram surgindo. Outra obra importante a ser lembrada é La Cage aux Folles, de 1983, a peça não só tem um casal gay como personagens principais, mas como um deles é uma drag queen, e além disso eles tem um filho juntos! A trama da obra é sobre a esposa do filho deles que vem de família conservadora, e a tentativa do filho de fazer com que seus pais sejam “menos gay” na frente da família dela; no final o filho aceita os pais do jeito que são e a família da noiva também aprende a respeitá-los. O período em que a peça estreou permitiu que fosse bem mais aceita pelo público, dando oportunidade de tantas outras abordando questões LGBTQ+ serem produzidas também, e por consequência, criando uma abertura para que a indústria cinematográfica explorasse a temática.

É claro que esse tipo de mudança não acontece do dia para a noite, infelizmente ainda é muito comum que personagens que fazem parte de grupos marginalizados sejam representados a partir de estereótipos: o homem gay afeminado, a mulher negra “barraqueira”, a mulher latina faxineira, esses estereótipos são ainda mais comuns no mundo do teatro com atores não brancos, já que a raça é algo impossível de mudar com a atuação.

A primeira pessoa negra a se apresentar na Broadway foi Bert Williams em 1910, na produção teatral de revistas The Ziegfeld Follie. O ator de pele clara era conhecido por usar maquiagens de blackface durante suas apresentações (dizia que ajudava a entrar no personagem), mesmo assim o humor e dignidade que trazia para suas performances garantia o respeito tanto de negros quanto brancos. Mesmo com sua conquista impressionante para a época, em muitas vezes Williams não pode performar junto com outros membros do elenco, pois ainda haviam estados onde a segregação era legalizada. Pouco a pouco a comunidade negra foi ganhando espaço no teatro musical: em 1920 Charles Gilpin se tornou o primeiro homem negro a ser o protagonista de um elenco não segregado; em 1925 a peça de Garland Anderson Appearances (Aparências) foi a primeira da Broadway de autoria de uma pessoa negra; em 1972 Vinnette Justine Carroll foi a primeira mulher negra a dirigir uma peça para a Broadway, com sua produção de Don’t Bother Me, I Can’t Cope (Não Me Incomode, Eu Não Consigo Lidar); entre tantos outros.

Por mais que a comunidade negra seja um dos grupos que mais sofre marginalização pela etnia, ela não é a única; qualquer um que não seja branco está sujeito a ataques preconceituosos, e quando sua aparência é essencial para sua carreira, isso se tona um problema. A quantidade de personagens escritos para pessoas não brancas que são totalmente baseados em estereótipos é alarmante, tanto que muitos atores vão para audições esperando esse tipo de papel. Também não é incomum ver atores sendo bombardeados com criticas ao interpretarem papéis onde se esperava um ator branco, mesmo que a etnia não altere em nada na trama (vide Jelani Alladin interpretando Kristoff na versão da Broadway de Frozen, e Jenny Jules como Hermione em Harry Potter e a Criança Amaldiçoada).

A opinião dos atores no geral é que os diretores tanto de teatro quanto de cinema precisam começar a escrever personagens sem pensar em uma etnia específica, e principalmente, parar de pensar em pessoas de cor apenas quando o assunto é racismo. “Um dia eu fui para uma audição de dança, e quando cheguei na sala de espera vi um amigo meu que também é asiático. E eu pensei ‘ugh, com certeza estamos disputando pelo mesmo papel, o papel de token, o papel da pessoa não branca’, mas não, ele estava lá sendo testado para um papel e eu para outro, e isso foi incrível! […]Eles queriam escolher pessoas e não cores, isso precisa acontecer em todo lugar, bem mais do que já está acontecendo. Isso faria uma diferença enorme”.

(J. LEE, Raymond. Instagram, @raymondjlee. Junho de 2020)

Estudante de Animação (FAAP)

Estudante de Animação (FAAP)