(In) contadas

Aquelas que não podem falar dizendo o que não deve ser dito’’.

Ouça: Pés Cansados — Sandy.

Mal terminei de ler a autobiografia ‘‘Rita Lee’’ e já comecei (in) contadas, um livro cheio de contos lésbicos, cada qual com suas autoras e seus diferentes estilos de escrita.

(In) contadas é um livro de dar gosto, a começar pelo subtítulo ‘‘Aquelas que não podem falar dizendo o que não deve ser dito’’, PÁ! um tiro no peito da sociedade!

Eu sou uma das mulheres que não podem falar e muito menos dizer. Fui por muito tempo uma personagem muito presente nos contos, fui aquela pessoa que faz feliz aos outros por esconder o que há dentro de si mesma.

A cada palavra que eu lia minha boca secava, a sensação foi muito diferente do que eu esperava, e não, eu não odiei a leitura, muito pelo contrário, estou felicíssima com o que pude testemunhar naqueles páginas; meu sofrimento é outro, é o de perceber que embora eu tenha me desvencilhado e não mais me açoitado sendo a Bruna que ‘‘todos’’ pensavam que queriam, ainda hoje existem muitos outras iguais a mim no passado.

Ouçam, eu não sou burra, todos os dias consigo sentir de longe aquele maldito cheiro de pessoas aglomeradas e deprimidas no armário, mas seja por falta de força ou por pura vontade de curtir a vida sendo alienada por alguns meses, me afastei da militância e consequentemente tive um contato menor com esse odor que machuca.

Como a vida é irônica, hoje, lendo os contos lésbicos me deparei com o fantasma do passado e com todas as pessoas que clamam por mais amor e menos culpa.

É certo que nem todo mundo que não revela sua orientação sexual é infeliz. Mas de uma coisa eu sei: Haja força, haja coragem!

Ainda hoje posso sentir o nó na minha garganta a cada vez que tinha que agir com naturalidade perto de alguma mulher que eu achava interessante.

Me lembro de todas as vezes que quase sai correndo de rodinhas lésbicas por não conseguir olhar nos olhos de pessoas parecidas comigo.

Quando eu ainda era religiosa rezava para que não me encantasse mais com nenhuma ‘‘menina’’ da escola e interpretava qualquer coisa ruim que acontecesse comigo como um ‘‘sinal’’ para que eu definitivamente não me aventurasse por bandas desconhecidas.

Em cada almoço de família, cada festa de amigos, eu me transformava numa contadora de histórias, ou melhor: em uma impostora. Me esforçava além da conta para gostar de quem gostava de mim, me esforçava além da conta para sentir um tesão que vinha estranho, murcho e perdido.

Tudo ia mais ou menos, alguns dias mais, outros menos, e eu até acreditava na minha própria mentira, até que a coisa foi ficando mais insustentável.

‘‘A insustentável leveza do não ser’’! Se naqueles tempos minha vida fosse um filme, este seria o título.

E é bem como no livro dos contos: em um deles a personagem vai ao banheiro, molha o rosto, respira, conversa consigo mesma, não consegue dormir, dá esperanças a uma mulher sabendo que não terá coragem de correspondê-la e chora.

Nos tempos mais sombrios, eu chorava, eu me culpava, me revirava de um lado para o outro da cama, me emocionava com qualquer cena besta de novela boba, só para poder chorar.

Quantas vezes não fui ao banheiro para não cometer ‘‘uma loucura’’ e quantas vezes cometi ‘‘loucuras’’ e depois quando me dei conta do ‘‘erro’’ me isolei.

Em um outro conto, a então autora fala sobre como as coisas batiam forte na sua infância e ela não entendia, só foi entender anos mais tarde, já adulta.

Comigo também. Na infância vivi um romance com uma amiguinha a quem eu daria qualquer brinquedo, qualquer desenho, qualquer coisa.

Meu primeiro beijo foi com essa amiga, claro que anos mais tarde quando estava aprendendo sobre julgamentos, menti para minhas amigas dizendo que meu primeiro beijo foi com um garoto, mas não foi, foi com ela e por mais mimada que eu tenha sido, por ela, eu faria tudo.

Me decepcionei quando essa mesma amiga se bandeou pro lado de outra amiguinha e além de ter me deixado em pedaços, me bateu.

Se ela tivesse se mudado para a China para nunca mais voltar , teria doído menos.

Primeira decepção lésbico amorosa.

Só fui sentir a mesma sensação alguns anos depois e não só foi a mesma sensação ,dessa vez, eu entendia o que era e dessa vez eu sabia que não era possível dar tudo e muito menos receber tudo e me recolhi.

Segunda decepção. Ela era assumida e eu não, achava nesta época que jamais teria coragem.

Foram anos de muitas decepções e as que mais doeram foram as decepções comigo mesma, eu me sentia covarde e não há coisa pior que se sentir assim.

O pior é que eu me via sozinha, na época tinham poucos livros LGBT e pouca informação. O que me consola é saber que hoje, a probabilidade de uma pessoa se sentir sozinha com seus ‘‘problemas’’ é bem menor, por isso acho importante divulgar livros como este.

Eu me senti sozinha mas hoje percebo que não estava sozinha e não estou. Até porque como eu já disse em um outro texto: Você sai do armário mas ele nunca sai de você. Há muito o que fazer e conquistar. Por ora, estou grata pelas mulheres que disseram o que não podiam e fizeram o que queriam. Sou grata por mim mesma, por não ter sido a covarde que pensei, na verdade, não se culpe, nunca se culpe, não é culpa sua o mundo não entender as várias formas de amor, assim como não é culpa do amor não entender o mundo.

Ao folhear o livro, vi o rosto dessas tantas mulheres que escreveram e expuseram (de certa forma) parte de suas almas, isso me emocionou mais do que qualquer coisa.

A cada conto parecia que eu estava na sala de uma amiga que demorou muito a se assumir, ou no quarto de outra amiga que sofreu dormindo com um marido que ela já não amava, e me senti sendo espectadora de mim mesma.

Senti uma dor no coração sim, porque deus-que-me-livre voltar a viver em segredo de novo! mas senti uma alegria sem tamanho, aquela alegria chamada: EU VENCI!

Sempre digo que as decisões mais acertadas que tomei na vida, são essas duas:

  • Sair do escuro, vulgo armário, e ver a minha vida como ela é.
  • Ter me inserido no vegetarianismo.

Como diz aquela música da Sandy: — Depois de tanto caminhar, depois de quase desistir, os mesmos pés cansados voltam pra você, sem medo de te pertencer.

Tudo a ver , não é mesmo?

Portanto, aqui vai um conselho antes que este texto vire um livro: Leia (in)contadas, mesmo que você seja hétero. Ouça essa música da Sandy e avante! depois que você abrir a porta do armário vai descobrir um mundo de possibilidades, FREEDOM! e lembre-se: Você não está sozinha, ainda que pareça.

Desenho: Eva Uviedo.