Eu amo atrações turísticas

Quando subi na Torre Eiffel, no longínquo 2012, tinha um grupo de brasileiros — gaúchos — meio deslumbrados na minha frente. Faziam muito barulho, davam gritinhos. Eu, que na época me sentia mais especial do que era, dei uma torcida no nariz e pensei “aff, turistas”. Sim, porque euzinha, que mal tinha viajado direito na vida, me achava uma “viajante” que foi “viver as cidades” enquanto o populacho era um bando de “turistas” que só quer ter uma “relação de consumo ordinária” (cof, cof) com os lugares que visita.

Felizmente, desde então, eu viajei mais e me tornei bem menos arrogante. Descobri que cada um curte suas próprias viagens da maneira que acha mais legal e que o millenial “viajante” não é mais especial que ninguém — ele, na verdade, é apenas um clichê geracional pentelho que adora bancar o blasé quando o assunto é “atrações turísticas tradicionais”. Para esse tipo de indivíduo, viajar é passar longe dos grandes monumentos, dos museus. É fazer pique-nique no parque e ir para um festival ou ir para alguma praia/bairro obscuro que SÓ OS LOCAIS CONHECEM — é muita pretensão, não é mesmo? Ele, o millenial metido a cool está na tal praia/bairro, mas ele ainda acha que é um lugar só para locais. Ele por acaso é um local? Não.

Ok, se o millenial quer ser um viajantequefogedasatraçõesturísticastradicionais, tudo bem. Como eu disse acima, percebi que cada um curte as viagens da forma que achar melhor.

Contudo, me preocupa um tanto a proliferação dessa ideia como sendo algo legal, descolado e incrível. Por isso, resolvi escrever o meu próprio textão dizendo: ATRAÇÃO TURÍSTICA É O MÁXIMO SIM.

A Torre Eiffel, que comentei ali em cima, foi uma das coisa mais legais de Paris na minha viagem. A engenharia da torre e a vista da cidade são impressionantes. No Museu D’Orsay eu vi quadros do Van Gogh que, pessoalmente, causam uma sensação que na internet não causam (aliás, praticamente todos os quadros são assim, viu? Ao vivo a vibe é outra). Conheci essa pintura abaixo (Dante e Vigilio no Inferno, William-Adolphe Bouguereau), que logo passou a ser uma das minhas favoritas. Lá eu também vi uma belíssima exposição de nus do Degas. E tudo isso em menos de quatro horas.

O quadro mais gay e legal do Orsay

Não se enganem, eu odiei Paris: fui assediada por homens o tempo inteiro na rua, me senti ameaçada, comprei um vinho estragado; os franceses me trataram muito bem, obrigada, mas isso não mudou o fato que eu andava na rua com medo de ser abordada por algum mala. Mas aquelas atrações turísticas, ah! FANTÁSTICAS.

Em Milão, cidade que eu não achei nada de mais no aspecto baladeiro ou gastronômico, coisas que valorizo bastante, também vi obras de arte muito bacanas nos museus da cidade, me deleitei com a arquitetura gótica do Duomo e dei a sorte de ver uma exposição de obras do Picasso que não havia conseguido ver em Paris porque o museu estava em reformas.

Em Barcelona, eu quase delirei (quase delirei mesmo) ao conhecer os prédios desenhados por Gaudí. Picasso, que já era um dos meus artistas preferidos, subiu ainda mais no meu conceito quando fui ao Museu Picasso de Barcelona: lá descobri que ele prestou tributo ao Las Meninas, de Diogo Velazquez, o que resultou em várias obras bacanas das quais eu nunca tinha ouvido falar. Ah, também tem a Fundación Miró, viu?

Releitura do Las Meninas por Picasso

Madrid é minha cidade favorita de todos os tempos. Eu passaria dias da minha vida (passei) dentro do Mudeu do Prado, admirando o Las Meninas, o Jardim das Delícias Terrenas e os absurdos Rubens e Goyas que tem por lá. Depois, passaria alguns outros dias trancada no Reina Sofía analisando cada detalhe do Guernica, do Picasso.

Las Meninas, simplesmente o melhor quadro já pintado

Berlim também habita meu coração: fui três vezes e nas três fiz o walking tour pelos principais pontos da cidade. Não digo que chorei nos três, mas fiquei bem próxima disso.

Esse é o muro que dividiu Berlim durante a Guerra Fria. Você desprezaria essa atração?

De Roma eu nem gostei tanto (porque estava calor demais, eu briguei com o dono do hostel, estava tudo muito caro). MAS O COLISEU, gente? É impressionante que antes da invenção do cálculo moderno a humanidade já tinha condições de construir algo grandioso como ele!

Se eu torcesse o nariz para atrações turísticas ou para “turistas” aliás, não teria feito duas das viagens mais impressionantes que já fiz: Marrocos e Deserto do Atacama.

Na primeira, me enfiei numa van cheia de gringos, fui pro meio do deserto, andei de camelo, vi um lindo céu cheio de estrelas e um nascer do sol que me deixou até meio sem ar (de tanto correr nas dunas), visitei uma comunidade bem antiga, que mora em casas de barro e recebi uma proposta de casamento do guia turístico.

Novo amigo de piercing ❤

Na segunda, fiz várias excursões: em uma delas vi a Via Láctea, vi Saturno, vi Júpiter, no passeio astronômico Space; em outra vi a cordilheira dos Andes passar por vários tons de rosa e roxo no pôr do sol (eu estava sóbria); e, na mais legal de todas, andei pelo meio do deserto boliviano onde vi paisagens tão inacreditáveis quanto variadas (algumas pareciam uma ficção distópica pós-apocalíptica, outras pareciam outro planeta, e o Salar de Uyuni parecia um sonho), essas paisagens me deixaram mais sem ar ainda, por causa da altitude. Nessas duas viagens aí, aliás, conheci pessoas muito legais e algumas, inclusive, adicionei no Facebook. Essas pessoas viraram grandes amigos? Não, nunca mais falei com elas, para ser sincera. Mas volta e meio vejo coisas que elas compartilham e lembro dos momentos divertidíssimos que passamos juntos.

Flanando em Uyuni

O Rio de Janeiro, aqui do lado, é uma cidade que visito toda hora. Já me sinto quase uma local quando ando pelas ruas do Flamengo. Ainda assim, vocês acham que eu seria louca de dizer que o Pão de Açúcar não é imperdível? Tem várias atrações turísticas do Rio que até hoje não conheci por preguiça, como a Pedra da Gávea, por exemplo. Não vejo a hora de corrigir esse erro.

Eu podia citar nesse textão mais um tanto de outras cidades e lugares, como os Bálcãs, Lisboa (outra das minhas favoritas), Londres, Nova York ou Budapeste. Mas acho que já fiz meu ponto.

Quando as pessoas desprezam as atrações turísticas, estão desprezando obras de arte que podem mudar sua percepção estética, paisagens e sensações desconhecidas, deleites arquitetônicos (e gastronômicos também), conhecimento sobre a história de um lugar, etc. Estão perdendo muito.

Como deu pra perceber, eu sou rata de museu. Mas quem não gosta tanto de arte quanto eu, pode se divertir de muitas outras formas em lugares turísticos — comendo, consumindo, bebendo, tirando foto com estátua de cera, andando em ônibus de city tour, visitando estádio de futebol!

Claro que não passo o tempo todo visitando monumentos ou museus. Uma das minhas atividades preferidas é flanar pelas cidades, de preferência com uma garrafa de vinho na mão, me perdendo pelas ruas e observando as pessoas (Lisboa, aliás, é um dos melhores lugares para isso). Só que uma coisa não exclui a outra e não há nada errado em ser um turista, até porque, é exatamente isso que você é.

Perdida e bêbada n’Alfama
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