ENTREVISTA — Saúde mental, mídia, gênero, classe e raça

Registro feito durante o 1º curso de extensão “Luta Antimanicomial e Feminismos: discussões de gênero, raça e classe para a Reforma Psiquiátrica Brasileira.

No final de abril, o Coloca na Roda (coluna que assino dentro do Observatório de Comunicação Institucional- OCI) teve a oportunidade de conversar com as autoras da coletânea “Luta Antimanicomial e Feminismos: Discussões de Gênero, Raça e Classe para a Reforma Psiquiátrica Brasileira”, publicada em 2017 pela Editora Autografia, no Rio de Janeiro. As autoras são Rachel Gouveia Passos, Pós-doutora em em Serviço Social e Políticas Sociais pela UNIFESP; Doutora em Serviço Social pela PUC-SP e professora da Escola de Serviço Social da UFRJ e Melissa de Oliveira Pereira, Doutora em Saúde Pública pela FIOCRUZ e professora de Psicologia do Centro Universitário IMBR. Ambas foram entrevistadas para a Coluna com o objetivo de trazer reflexões sobre o contexto político atual que traz propostas polêmicas sobre Política Nacional de Saúde Mental e nas Diretrizes da Política Nacional sobre Drogas, além do corte de recursos para os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e outros pontos da saúde mental. A entrevista foi realizada durante o 1º curso de extensão “Luta Antimanicomial e Feminismos: discussões de gênero, raça e classe para a Reforma Psiquiátrica Brasileira”, organizado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) juntamente com o Núcleo da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas da Paraíba.

CONFIRA ABAIXO A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA:

Bruna Martins Oliveira -Vocês fizeram uma seleção para este curso que teve 850 inscrições do Brasil inteiro, para 40 selecionadas. Como foi esse processo de idealização e qual é o perfil das alunas?

Rachel Gouveia Passos - Antes de responder essa pergunta é importante contextualizar o processo que chegou na formulação / implementação do curso. O curso é inspirado no primeiro volume do livro Luta Antimanicomial e Feminismos: discussões de gênero, raça e classe para a Reforma Psiquiátrica Brasileira. O livro surgiu da nossa parceria com incômodos dentro do Movimento Antimanicomial e da Reforma Psiquiátrica Brasileira em relação ao apagamento destas temáticas, não só enquanto temática mas enquanto estratégia para pensar o quanto que nós mulheres, negras, trans, cis participam da construção e são apagadas nos múltiplos espaços. Seja nos serviços, na formação, no espaço universitário, na pesquisa. Isso vem passando na minha vida e de Melissa, seja enquanto militante, mulher, sujeito/ atriz e protagonista deste processo. Em 2017, eu já tinha terminado o doutorado, mas estava com reflexões do pós-doutorado. Melissa estava no auge do seu doutorado e pensamos nessa coletânea que reúne mulheres (apenas mulheres) e que vão além do campo de saúde mental. Mulheres que pensam no sofrimento psíquico atrelado à raça, à instituições totais para além do hospício… e assim surgiu nossa coletânea lançada na rural, em um evento de Bauru (dezembro de 2017) e depois na Casa das Pretas (nós escolhemos a Casa das Pretas que é uma ONG mobilizada e constituída por mulheres, inclusive foi lá que Marielle Franco fez sua última roda de conversa e depois foi assassinada) . É um espaço simbólico e como nós temos a pegada não só de gênero mas de raça também, fazer na Casa das Pretas foi um marco. A temática vem sendo demandada pelo real e isso não é algo nosso. É um livro bem conhecido e inclusive, quem faz o prefácio desse livro é a professora Silvia Portugal, da Universidade de Coimbra. Esperamos que ele também desponte por lá. E aí pensamos em organizar um curso de extensão para alcançar (junto com o Conselho Regional de Serviço Social do Rio de Janeiro e outros espaços). O próximo curso será na UFPB (agosto) e com a Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (RENFA), de João Pessoa. No meio do processo, fechamos o segundo volume da coleção e em 2019 vai sair o terceiro, fruto dos dois cursos. Ao mesmo tempo nós temos as nossas produções individuais que estão ligadas. Mas as nossas reflexões estão muito interseccionalidades. Pensar esse curso na universidade é também pensar numa universidade preta que vai pensar gênero, que vai socializar, que vai pensar em raça e pensar em sexualidade. É também ocupar os espaços que muitas dessas mulheres que estão no curso não entrariam nesse lugar.

Nós temos cuidadoras. Temos pessoas que não tem uma formação de nível superior. A maioria das mulheres são pretas e isso para a gente é extremamente importante, pois são pessoas que talvez não teriam a chance de alcançar alguma formação na universidade pública. Não escolhemos um shopping na Zona Sul, na UFRJ para sair do núcleo da Zona Sul onde outros sujeitos não chegam. Trabalhamos com parceiros no centro do rio pensando em acessibilidade. Quem são as pessoas que a gente quer que acesse esse curso? As mulheres que não alcançariam esse espaço. Pensar nos critérios que a gente definiu é pensar em cada vez mais dar acesso às pessoas que ficam invisíveis neste processo.

Bruna Martins Oliveira — Em relação à invisibilidade destes temas, o que vocês acham que falta por parte da mídia para proporcionar este acesso à informação?

Rachel Gouveia Passos — Particularmente, se a gente for generalizar a mídia, a gente vai entender que a mídia tem uma função política/social/econômica , ideológica. Ela não é neutra, não é isenta. Entendendo isso, ela vai ser estruturada e logo pode reproduzir a lógica machista, sexista, lgbtfóbica e por aí vai. Se ela é atravessada por todos esses determinantes ela também vai perpetuar um certo apagamento. Ela também vai permitir que grupos são socialmente minoritários (e não quer dizer que eles são minorias, no sentido numérico, mas socialmente e historicamente minoritários porque não conseguem alcançar espaços e lugares de poder). A mídia também perpetua essa lógica. Nós temos apostados muito na mídia alternativa, que é fundamental para romper com essa lógica. Com a mídia hegemônica que está posta, nossas temáticas só atravessam porque interessam ao grande capital, também a inserção das demandas que essa minoria coloca.O que que é hoje ter produtos empoderadores? O que quer ter uma Taís Araújo num sentido positivo protagonizando uma novela? Eu acho fundamental para as crianças e para todos nós nos reconhecermos nesse processo. Contudo, quem é uma outra atriz que seria protagonista? Nós mulheres negras sempre fomos as escravas nas novelas, as faxineiras, as babás e aí ter uma protagonista que vai alcançar é dar visibilidade a uma luta e também a uma representatividade. Não queremos estar apenas sendo representadas, queremos que essa lógica seja rompida.

Hoje essa atriz reproduz sua imagem estética vinculada a uma outra lógica de exclusão. Não tem uma mulher gorda negra. Uma mulher trans negra ou deficiente. Então você também não consegue romper isso na sua totalidade. Você vai viabilizando isso de forma fraturada né, mínima. E isso é muito ruim. Vamos pensar hoje na própria moda. Você tem modelos negras, retintas, mas e modelos trans? Hoje você tem até uma inserção de não binários, mas né? A indústria da moda captura isso, essa coisa da transição do que é o masculino e o feminino, mas é uma limitação. Quando a gente faz o recorte de classe, a grande parte da população nem vai alcançar esse processo. Vai continuar comprando e talvez continuar usando roupas usadas e vai ser atravessada por questões que a mídia reproduz são muito maiores. Isso inclui à guerra às drogas, o extermínio da população negra, o encarceramento em massa , a internação compulsória. Mesmo que a grande mídia viabilize, pelo sentido do empoderamento não há uma ruptura daquilo que estrutura todo o processo. Então apostar na mídia alternativa é apostar em uma ruptura, que ainda que sejam rupturas micros, mas que a gente consegue de certa forma promover pequenas rupturas até que alguma consciência mais ampla consiga surgir e transformar posteriormente.

Melissa de Oliveira Pereira — Para nós, é muito bom estar falando sobre isso. Mas acho que ao longo do processo da Reforma Psiquiátrica Brasileira, da Luta Antimanicomial brasileira, a gente teve algumas apostas da mídia e algumas interlocuções, mas não tanto quanto poderia. Sempre vale a pena explorar esse espaço. Eu acho que seria muito interessante termos uma mídia preocupada com o tema da Luta Antimanicomial, principalmente, de forma interseccionalizada com gênero, classe, raça, orientação sexual e identidade de gênero. Poder vislumbrar possibilidades no campo de saúde mental que vão além dos espaços de isolamento. A possibilidade da visualização da saúde mental, na questão na loucura não como sinônimo e espaço de periculosidade mas como necessidade de demandas políticas públicas transversais e mais amplas é um ponto fundamental. Neste sentido, a visibilização de que a gente está em um país que mesmo com todos os ataques e sucateamentos é ainda referência internacional na atenção psicossocial, no estabelecimento de serviços de saúde mental, tanto no âmbito da assistência à saúde, como no da assistência social, como na cultura, na arte. É referência das reformas psiquiátricas internacionais é fundamental. Ou seja, se a gente está propondo uma saúde mental não nos interessa que a gente proponha a saúde mental como um produto, quase como uma nova etiqueta empoderadora. Algumas forças conservadoras têm usado essa questão da saúde mental no viés da etiqueta do capital e dos produtos, da doença mental, da divulgação dos número de pessoas com depressão, das pessoas que tentam ou conseguem realizar o suicídio não para ampliar as políticas públicas, mas para ampliar o uso da medicação, dos psicotrópicos. Não é à toa que hoje o Brasil é o segundo país no mundo que mais utiliza remédios ansiolíticos e psicotrópicos e , neste contexto, as mulheres usam duas vezes mais os remédios do que os homens (75% das consumidoras).Não nos interessa neste sentido uma visibilização que aponte para uma redução de toda uma problemática que envolve o sofrimento psíquico ou mesmo as demandas recorrentes do uso de álcool e outras drogas a uma redução de doença mental. A um enxugamento de uma série de problemáticas, a questão do remédio. Não nos interessa afirmar o que é doença mental a uma lógica de redução do sujeito. Vejo uma possibilidade de lançar luz nos grupos de cultura, nas iniciativas de geração de trabalho e renda. A maioria das pessoas internadas, hoje seja a partir dos hospitais psiquiátricos ou comunidades terapêuticas, principalmente quando são mulheres, são pessoas que tem muita dificuldade em conseguir um emprego, então as iniciativas de trabalho e renda pode ser um diferencial na vida dessas mulheres. Quando a Rachel fala das mulheres trans, das mulheres negras. A gente sabe que hoje no Brasil, a expectativa de vida de uma mulher trans é de 35 anos de vida e muitas são mortas por transfobia e 95% só vai conseguir trabalho no campo da prostituição. E não que a gente vai entrar no campo da prostituição… mas temos que falar da ampliação dessas possibilidades. Essas mulheres também poderiam estar sendo engenheiras, também poderiam estar sendo médicas, também poderiam estar sendo assistentes sociais ou psicológicas e não estão sendo porque não tem espaço. Isso tudo traz um sofrimento psíquico importante. Isso também é uma atualização do manicômio na vida dessas mulheres. A visibilização de projetos que estão dando certo seria fundamental. A mídia poderia ser um braço estratégico neste sentido. De visibilizar o que está dando certo, de visibilizar a experiência da Reforma Psiquiátrica Brasileira como uma experiência de sucesso. De viabilizar a figura da loucura não como periculosidade mas, inclusive sim à interseccionalidade. Porque a figura do louco (singular e masculino) acaba por invisibilizar uma série de outras situações. Tem que lançar luz sobre o hospício e a comunidade terapêutica ter cor e raça, ter classe social e incidir sobre as mulheres. Em especial,sobre as mulheres lésbicas e trans de forma particular.

Bruna Martins Oliveira — Pensando nas especificidades , às vezes esse debate não está alinhado dentro da própria área da saúde. Neste momento, instituições como a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) adotam um discurso questionável, neste cenário, por exemplo. Diante disso, o que o que seria uma solução para aproveitar o potencial das áreas da comunicação e da saúde para trazer essas informações?

Rachel Gouveia Passos — A gente vive numa sociedade que tem direções teóricas, políticas, sociais impostas. Desde a família, a igreja, a escola, ou a universidade. Todas instituições têm um posicionamento que representa um projeto de sociedade. Temos uma direção de vida e da forma como a gente enxerga a sociedade e se coloca no mundo. E hoje as entidades possuem uma direção e uma perspectiva científica, teórica, etc.

É muito importante a mídia e a mídia alternativa compreender esses projetos que estão colocados nos múltiplos campos e que isso não está isolado de questões maiores. Essas entidades representam a disputa nos projetos que estão colocados e isso não está isolado de questões maiores. Não dá para ouvir uma voz, tem que ouvir todas. Há no processo histórico da sociedade brasileira, uma crítica bem tensa em relação a como como vêm se constituindo o campo da saúde mental que está sempre atrelada ao processo democrático.

Há uma ruptura a partir dos anos 70 que foi retomada pela Ditadura Militar na lógica da mercantilização da vida. Há uma proposta de ruptura nessa lógica da internação, do isolamento enquanto saber e isso coloca um tensionamento junto à lógica da psiquiatria tradicional. Não é à toa que surge a galera da Luta Antimanicomial, da reforma psiquiátrica que via pensar o outro lado da psiquiatria que não é o espaço restrito ao médico. Não é apenas o médico que reproduz o cuidado de saúde mental. Com isso, é possível entender as tensões que estão colocadas. A partir do momento em que a gente descentraliza uma lógica e aciona outros saberes que convocam a sociedade para pensar esse lugar do dito louco, a gente tá tensionando esse projeto e propondo outro projeto de sociedade. Se o cara é isolado, internado e contido e hoje a proposta é entrar na universidade, é ter uma vida dita normal na reprodução da lógica é entender que há um tensionamento entre os campos. A partir do momento em que a mídia vai olhar para os campos acho que é importante se atentar para o que está posto se não o discurso reproduzido será conservador por falta de conhecimento.

Melissa de Oliveira Pereira — A gente tem que ressaltar a importância dos movimentos sociais. Eu sei que no Brasil hoje, talvez a gente tenha uma das áreas mais ricas nos movimentos sociais e na saúde mental. Acompanhar de alguma forma o movimento nacional da Luta Antimanicomial, a renila é muito importante. Além das associações da rede em torno de álcool e outras drogas, a Rede de Feministas Antiproibicionistas, a RENFA, a Associação Brasileira Contra Redução de Danos, pessoas que estão na rede, que são críticas ou tenham uma leitura crítica, é um caminho de se aproximar. Neste sentido vale fazer um convite que estamos entrando no mês de maio que é mês da Luta Antimanicomial no Brasil e há uma série de eventos que estão acontecendo no Brasil. Muita coisa vai estar circulando neste mês e é uma oportunidade para conhecer. Acho que hoje a gente, inclusive, está precisando de ajuda do pessoal da comunicação na organização e sistematização de materiais a fim de apresentá-los para sociedade. Estar próximo dos movimentos sociais é fundamental. Os grandes e as grandes teóricas do campo de saúde mental brasileira, no contexto da reforma psiquiátrica brasileira dialogam muito diretamente com os movimentos sociais. Eu acho que isso é um motivo de orgulho para o país né.

Bruna Martins Oliveira- Lembro de uma frase que diz que a loucura é socialmente produzida. É também comum vermos mulheres que apresentam algum qualquer tipo de comportamento serem associadas à histeria ou então, não serem devidamente representadas quando estão em sofrimento.Vocês acreditam alguma reflexão neste sentido?

Rachel Gouveia Passos — A loucura é socialmente produzida. O gênero é socialmente produzido. A raça é socialmente produzida. A sexualidade, orientação sexual, a identidade de gênero, os desejos. A forma de existir.. tudo é produzido socialmente. Nós somos seres sociais e toda nossa construção e inclusive as respostas das nossas necessidades de existir, sejam elas biológicas ou sociais, são todas moldadas socialmente, historicamente e economicamente. Desde o sujeito primitivo até os dias atuais, foi a relação materialista que nos moldou. O ser mulher hoje, nós só entendemos que existe por causa dos modos de produção existentes, da transformação da natureza que tem a ver com a nossa transformação, que tem a ver com a transformação das relações sociais. A gente vai produzindo novas coisas. É importante nos reconhecermos que tudo é um produto de desenvolvimento da sociedade. Há uma série de determinações que são ignoradas. Nós produzimos isso enquanto sociedade. Nós produzidos a desigualdade. Nós produzimos o racismo, a diferença entre cores, entre etnias. Produzimos diferença entre os desejos e as existências. Então só nos podemos romper com isso e produzir outras formas de se relacionar com isso, com a natureza e com o planeta. o manicômio não é só um modelo de tratar e de buscar uma cura fictícia para chamada doença mental que é produzida socialmente. O manicômio tem todas essas desigualdades e opressões vinculadas a ele. Ele só existe para perpetuar a lógica. Por isso que tem o poder instituído para intitular quem é normal, quem não . O que é ser mulher, o que não é. O que é ser homem. O que é ser hétero. Nós não estamos negando sofrimento, não é negar que as pessoas sofrem e adoecem, precisam de suporte. Estamos trazendo reflexões para apontar outros caminhos e possibilidades porque essa sociedade ´produz sofrimento e adoecimento e desrespeita as singularidades. O existir do sujeito. Cada um existe de uma forma distraída. Tudo isso tem que ser levado em conta.

Melissa de Oliveira Pereira — Muitas vezes a luta antimanicomial é questionada de dois lugares importantes. A resposta que a gente dá ao sofrimento e aos momentos difíceis, na verdade são respostas diversas ao longo da história. Ao passo que a gente acompanha a mercantilização das cidades, o aumento das demandas de trabalho e o fortalecimento das sociedades de crise, a gente consegue acompanhar também o fortalecimento de uma lógica de considerar o sofrimento uma lógica individual. É isso que a gente questiona. A gente não está questionando o sofrimento e se as pessoas se beneficiaram de um cuidado. Ao contrário disso, o que a gente está apontando é que elas se beneficiaram de um cuidado e é importante que a gente entenda que essa questão individual não é minha, não é a Melissa que deprimiu. Mas que mundo é esse que a gente vive com tantas demandas e que vão incidir sobre as pessoas de várias maneiras severas? A partir desse sofrimento ou não, por que consideramos certas pessoas normais ou anormais e aí a gente vai responder a elas a partir de respostas individualizantes. O manicômio é uma resposta individualizante. A gente entende então que o sujeito pode ficar asilado em uma instituição, seja em um hospital psiquiátrico ou seja comunidade terapêutica e aquilo se resolve. Quando a gente olha para estas pessoas, a gente vai ver que foi o manicômio que chegou quando não chegou a escola, o trabalho, o serviço de saúde, a moradia, a assistência social. Não é curioso que a única política que tenha chegado seja o manicômio? essa é uma política, é uma estratégia. Discutir esta problemática entendendo as questões de gênero, classe, raça é não só fazer uma reflexão intelectualizada ou acadêmica. Ela envolve uma revisão dos nossos lugares no mundo e de que lugares a gente fala, a gente tem vantagens sociais e quem está nas desvantagens sociais a partir desses lugares. Para que a gente possa pensar redes de solidariedade, respostas sociais e de políticas públicas que fortaleçam quem está prejudicado neste processo. Neste sentido, é muito importante que cada vez mais a gente se aproxime dessas mulheres que não ganham espaço, nem nos meios acadêmicos, nem nos meios históricos, nem na mídia e em nenhum espaço. São essas mulheres consideradas loucas, que são institucionalizadas… são internadas. Elas também tem muito a ensinar pra gente e podem falar por si próprias.

Gostou da entrevista? Confira também a coluna do Coloca na Roda sobre o tema.