Levaram Ana Becker

Em uma sexta-feira nublada às 07h21 em Curitiba, pego o Santa Cândida às pressas, passo apertada por entre as pessoas, agarro-me em algum lugar e, ainda com sono, olho para o fundo do ônibus. Vejo um ruivo desfocado e quando presto atenção não me dou conta na hora de que o reconheço.

Alguns minutos depois de tanto chacoalhar, volto a olhar para o fundo, e ela me encara. Desvio o olhar e penso “será?”, tentando resgatar seu rosto em minha memória.

Penso em passar pelas pessoas no curto espaço do corredor só para sanar minha dúvida, mas, e se não for Ana Becker? Vou pisar em todos esses pés e esbarrar em todos esses ombros para ouvir um “não” e um sorriso amarelo?

Tento disfarçar e olhar sem que ela perceba, para tentar ter certeza de que é a pessoa certa. De lado não parece muito. Mas nunca vi nenhuma foto de perfil, então desconsidero. Olho de novo, dessa vez ela viu. O nariz é diferente. Acho que Ana Becker tem sardas.

A cada parada e olhar de soslaio fico dividida entre ir perguntar ou mandar uma mensagem no grupo de escritores: se ela olhar o celular e digitar… na mosca!

Mas então olho de novo e… não é Ana Becker! Ela não seria tão baixinha, seria? Ou será que eu sou muito alta?

O cabelo é mais escuro, mas é enrolado igual. É a Ana Becker!

Quando chego em um terminal penso que seria aquele o momento perfeito. O ônibus esvazia e consigo transitar no corredor até ela. Mas e se não for?

Nesse meio minuto de dúvida o ônibus lota de novo. Encosto na janela, naquela parte reservada para pessoas com deficiência. Sinto seu olhar em minhas costas. Sera que ela também está pensando que me conhece de algum lugar?

Às vezes acontece de duas pessoas se olharem e no primeiro momento não se darem conta de que se conhecem, e depois os olhos se esbarram de novo e ambas soltam um “ooooi!” amigável.

Mas já faz vinte minutos. Vinte minutos de dúvida e encaradas que já estão ficando embaraçosas. Se não for Ana Becker, a garota certamente pensa que estou dando em cima dela. Ou será que ela está dando em cima de mim? Ela me olhou primeiro, senão nem a teria visto. Se eu for perguntar seu nome e não for Ana, aí que ela vai ter certeza que eu estou querendo alguma coisa.

É Ana Becker ou não é?

Tarde demais! Chego na minha parada. E percebo: ela está descendo do ônibus também!

Mas vai para outra direção. Saindo do tubo da Praça Eufrásio Correia, ela vai à direita, e eu, à esquerda. Vou até a banca da esquina comprar um camel amarelo. Meus olhos tentam rastreá-la ainda dentro do tubo. Ela não saiu? Cadê? Será que subiu em outro ônibus?

“Oi, tem camel amarelo?”

“O que?”

“Cigarro. Camel amarelo” — repito, prestando atenção lá fora.

“Não tem. Só tem azul e o de sabores”

“Tá bom, obrigada”

Ao sair da banca, o tubo está vazio. Levaram Ana Becker.