O que você vai ser quando você crescer.

Hoje é meu aniversário, completo 29 anos.

Os últimos 5 anos foram bastante intensos em muitos sentidos, pois foi em 2011 que pedi demissão do meu último emprego e resolvi trabalhar por conta. Àquela altura, eu só havia tido 2 empregos como designer, sendo que um deles foi em uma empresa de TI, onde eu era o único designer em meio a mais de 20 programadores; e o segundo foi em uma empresa de tecnologia para arquitetos, onde eu era o único designer em meio a mais de 20 arquitetos. Cansei, chutei o balde e fui colocar em prática por conta própria o que essas empresas não me permitiam.

Trabalhei 1 ano e 6 meses como freelancer em casa, full time literalmente; não tinha horário pra nada, qualquer hora era hora de trabalhar.

Em 2013, a Bruna me fez uma proposta de sermos sócios em um escritório de design, já que ela havia saído da empresa em que trabalhava. A princípio eu achei que trabalharmos juntos iria acabar com nossa relação, então eu recusei e ela arrumou emprego em uma startup. Pouco tempo depois ela pediu demissão na startup, eu mudei de idéia sobre trabalharmos juntos e disse que se ela ainda quisesse eu topava. Abrimos a Dupplamente.

Mais de 3 anos de escritório, muita coisa boa aconteceu. Conhecemos pessoas interessantes, aprendemos como o mercado funciona, aprendemos sobre empreender de verdade, na raça, sem mesada, "paitrocínio" ou empréstimo no banco. Capital de giro é algo que deve estar girando por aí até hoje, pois nunca vimos ele por aqui. Mas o saldo de aprendizado é imensamente positivo! Valeu muito a pena encarar esse desafio.

Vença uma batalha por vez e você vencerá a guerra. E foi com esse pensamento que eu fui seguindo nossa caminhada, com muito otimismo, um entusiasmo enorme por aprender o que é Branding, como se faz, qual é o papel do designer nesse contexto, o que é design thinking, design de serviços, design de experiência…. enfim, aprendi um montão de coisas mesmo, e fiquei feliz de poder convencer alguns clientes a aplicar estes conceitos em alguns projetos, e mais feliz ainda de ver os clientes colhendo os resultados. Missão cumprida.

No meio do caminho a necessidade e a curiosidade se encontraram, e comecei a me enveredar mais por desenvolvimento de sites. Na verdade, sendo mais sincero nessa parte, eu sempre tive uma quedinha por webdesign, desde os idos de 2006, quando eu comecei a brincar com o Flash. Eu ficava muito impressionado e curioso sobre como linhas de texto se transformavam em coisas visuais na tela. Em 2007 e 2008 eu já fazia alguns sites, mas nada muito elaborado; me resumia a editar alguns templates html e fazer algumas firulas com Flash.

De 2010 pra frente eu conheci o WordPress, estudei um pouco como implementar sites e já fazia alguma coisa mais elaborada. Até o dia que eu e a Bruna montamos a Dupplamente e minha atenção foi tomada pelo Branding.

Entretanto, a cada novo projeto de branding, um site precisava ser feito. Chegamos a terceirizar no início, mas aquela curiosidade me pegou novamente, e eu comecei a fazer os sites por conta própria, implementando em WordPress. Projeto a projeto, a cada dia eu aprendia alguma coisa nova e devorava o Codex do WordPress. Nesse interim, também comecei a estudar mais sobre design de interação, usabilidade, interface, front end design. E eis que montei um curso chamado "Criando Sites do Zero com WordPress", que já teve 5 edições. Essa experiência de passar o conhecimento adiante também foi muito positiva!

Ok, essa é a minha história com o design, basicamente um resumo de tudo que rolou desde que eu terminei a faculdade (teve uma parte que eu pulei, entre final de 2008 e início de 2010, mas essa parte é muito triste e hoje é meu aniversário, então não né).

Além do meu lado designer, que exige que eu seja mais técnico e muitas vezes pragmático, onde a função quase sempre vem antes da forma; eu tenho um lado artístico. Sim, afinal de contas sou um leonino!

Em um passado recente eu já quis abandonar a faculdade e fugir com o circo, ou quase isso. No meu terceiro ano de faculdade eu entrei de gaiato em uma peça beneficente de teatro-dança, e de um simples participante tapa buraco eu me tornei o personagem principal da peça. Foi tudo meio que orgânico, e não exatamente porque eu era um prodígio, mas porquê o bailarino que seria o personagem principal desistiu, outros caras do corpo de baile também foram desistindo, e eu fui sobrando, aparecia em todos os ensaios, tinha uma boa noção de como movimentar meu corpo seguindo o compasso da música, e pimba! … virei o tal do Pássaro Ferido.

Aquela experiência com o palco me fascinou! Senti que aquele era meu lugar, que tinha nascido pra fazer aquilo, e numa empolgação jamais vista, comecei a pesquisar tudo quanto é escola de artes cênicas, dança, música, etc. Fiz aulas de teatro em um grupo na própria Universidade, e houve um teste para um curta metragem do pessoal do curso de Rádio e TV. Acabei pegando um papel super difícil (venci a concorrência contra estudantes do curso de artes cênicas de uma escola conceituada lá em Bauru… chupa!), quase que o papel principal (era um personagem lúdico e imaginário, que representava a consciência do personagem principal… ah! e o único personagem da trama que tinha fala.). No final das contas eu achei meu desempenho horrível, a direção pior ainda, e a edição acabou de cagar no resto… mas tudo bem, foi muito massa a experiência.

Em um outro momento, em uma oficina de teatro que aconteceu em um congresso de estudantes (no N Design Floripa, em 2007), eu estava imerso nessa vontade de participar do mundo artístico, e resolvi me inscrever nessa oficina. Em uma das dinâmicas de grupo, o objetivo era representar algum animal. Todos juntos, ao mesmo tempo, representando seu animal e andando em círculos pela sala. Eu fechei os olhos e fiz a melhor garça que eu podia. De repente, abro os olhos, vejo todo mundo batendo palmas e uma roda se abrindo, comecei a fazer a mesma coisa sem saber o que estava acontecendo… eis que um dos participantes me dá um tapinha nas costas e diz "Cara, é pra você essas palmas, você é muito bom"… eu voltei para o meio da roda e todos continuaram batendo palmas… foi uma coisa relativamente rápida, mas eu surtei né! Bateu ainda mais forte aquela certeza do "É isso! Esse é meu destino".

Final de 2007, férias de final de ano, volto para a casa dos meus pais para visitá-los já resolvido que ia trancar a faculdade e fugir com o circo. Sento com os dois à mesa e comunico a notícia. Eu meio que fui com o discurso preparado, lembrando à eles que na segunda série a professora mandou publicar uma poesia minha no jornal, que na quinta série eu fiz outra poesia do dia das mães que foi escolhida para ser recitada em um evento para todas as mães das comunidades atendidas pelo projeto Recriança, que na quinta série dois desenhos meus tinham saído na revista Nintendo World (mas nunca ganhei o game boy…argh!)… enfim, fui lembrando-os de que eu meio que sempre tive essa coisa artística presente de alguma forma em minha vida.

Falei que ia pleitear uma vaga no Teatro Guaíra em Curitiba. Minha mãe ficou empolgadíssima, achando que eu ia ser o novo galã da novela das 9. Já meu pai, bastante sério e conciso, só disse que achava que eu deveria terminar a faculdade primeiro, e depois tomar esse rumo se eu achasse que era isso mesmo. Resolvi ouvir meu pai, afinal de contas faltava apenas 1 ano e meio.

Nesse 1 ano e meio aconteceram tantas, mas tantas coisas, que eu acabei saindo de Bauru e me mudando para Goiânia e abrindo meu primeiro escritório de design com amigos. Muitos altos e baixos depois, e a verdade é que eu nunca fugi com o circo, nem sequer recebi mais palmas ou pisei em um palco outra vez.

Depois que eu comecei a trabalhar por conta, o mundo ficou mais chato. Eu não tinha tempo para sociabilizar, não tinha tempo para me divertir, não tinha tempo para viajar… enfim… tempo pra nada.

De repente eu me vi um reclamão. Só sabia reclamar da vida, do trabalho, do mercado, dos projetos, dos clientes, da profissão… enfim, reclamação pra tudo. Se não tinha do que reclamar, eu inventava. Mas eu percebi relativamente rápido que isso estava acontecendo, e comecei a me policiar. Eu geralmente não saía xingando no twitter e nem ficava distribuindo reclamações atoa, mas bastava um amigo mais íntimo me perguntar "e aí, tudo bem? ", que eu já começava a Ladainha da Correria, tipo "ah, mais ou menos né… ta correria aqui, sem tempo pra nada… bla, bla, bla". Mas como eu disse, eu felizmente dei um jeito nisso rápido, e comecei uma onda de pensamento positivo, respostas positivas, comentários positivos, e tudo mais que pudesse me eliminar esse ranço de reclamão. Deu certo, mas tenho severas recaídas de vez em quando.

De vez em quando somos convidados a dar palestras nos cursos de design das universidades aqui de Goiânia. Eu e a Bruna vamos com o maior prazer, e a gente vê aquela empolgação de alguns estudantes, a mesma que a gente tinha antes de ir para o mercado. A gente sai muito motivado a continuar fazendo bons projetos, mas fica aquela pontinha de tristeza por ver estudantes tão empolgados que vão bater de frente com os mesmos problemas que a gente lida todos os dias, e em algum momento também vão se frustrar.

Mas mesmo parando de ser reclamão as exigências de ser empreendedor são muitas, e passar 3 anos e meio trabalhando sob pressão, correndo contra o tempo, tendo que ser criativo 16 /18 horas por dia de segunda a segunda, fazer cafézinho, financeiro, administrativo e ainda cuidar da própria casa, em algum momento a cobrança fisiológica viria.

Acho até que eu aguentei bastante, mas no início desse ano tive dores na região do coração (tenho até hoje, mas bem menos), fiz checkup cardiológico e nada. Meio que ao mesmo tempo surgiu uma dor que se parece mais como uma ardência interna, na parte de trás da minha cabeça, do lado direito. Mais uma vez fiz exames, e mais uma vez não deu nada. Cardiologista e Neurologista, ambos disseram que o que eu tinha era ansiedade. Parece até que combinaram voto, só que não.

Com esse diagnóstico, conheci a história da Ingrid, uma pessoa maravilhosa que perdeu um jovem marido que morreu de tanto trabalhar. Sim, não é figura de linguagem, o marido dela, o Cláudio, esteve na mesma situação que eu, sendo dono da própria empresa e trabalhando muitas horas por dia sob pressão, cobrança de clientes, etc. Infelizmente não resistiu e nos deixou. A Ingrid se tornou professora de ballet da Bruna, e a história da família dela serviu para que eu ligasse o alerta vermelho e ficasse mais low profile na nossa empresa.

Mas o que fazer quando 50% da empresa é você (e os outros 50% são sua esposa?). A Dupplamente, assim como muitas outras empresas, também sofreu com a crise política e financeira do país. Acredito até que estamos acima da média nacional na expectativa de vida das empresas com o nosso porte e na nossa área de trabalho. Conseguimos manter um número suficiente de projetos, mas ao mesmo tempo, a crescente que vínhamos do início de 2013 até meados de 2014 foi só declinando, ao ponto da nossa equipe voltar a ser apenas nós dois. Nesse ponto, aconteceu de novo, aquela coisa do lado artístico bateu novamente.

Já contei que também sou ilustrador? Bom, dizer que sou ilustrador é um tanto pretensioso, e seria melhor dizer que sou um desenhista. Você pode ver alguns trabalhos meus aqui e aqui.

Em uma visita à casa dos meus pais, minha mãe pediu para eu revisar algumas coisas velhas minhas que ainda estavam lá e ver o que podia jogar fora. Encontrei a minha antiga pasta de desenhos, e um filminho aconteceu na cabeça naquela hora. É como se eu tivesse me encontrado com o meu "verdadeiro Eu", o cara das artes. Naquele momento eu tive uma visão clara do meu propósito de vida. É como se todo esse tempo empreendendo como designer fosse apenas uma preparação para o que viria depois, um ciclo de vida necessário e que eu já tinha a sensação de ter cumprido.

Naquele momento eu já estava um pouco saturado da minha rotina em um escritório de design, e a minha "vulnerabilidade" me fez querer alçar vôo para esse novo momento profissional, onde eu estaria novamente mais próximo do mundo das artes, trabalhando com ilustração, que é uma paixão que sempre tive e que sempre acompanhei o cenário…. e, modéstia a parte, eu tenho as manha!

Desenhar pra mim sempre foi algo bom de se fazer, e ao que me lembro, faço desde os 5 anos de idade. Em todo o meu tempo de vida, sempre levei ilustração como hobby e sempre me dediquei a aprender técnicas diversas, desde pintura digital à gouache, desde aquarela à pintura de murais com tinta de parede. Para mim, desenhar é algo terapêutico e prazeroso, que me traz uma sensação nostálgica e ao mesmo tempo íntima, e que no final me traz também as palmas, as mesmas que eu tive na infância e naqueles momentos de palco na faculdade.

Em meio à todos esses acontecimentos, mais ou menos nessa mesma época do meu aniversário no ano passado, tomei a decisão de que iria ser tatuador. Mas confesso, minha paixão não era pela arte da tatuagem em si, mas pelo fato de poder desenhar novamente para as pessoas. Só o fato de imaginar alguém carregando uma arte minha no corpo por aí, já me enchia de vontade de trabalhar com tatuagem. Me lembro de todas as vezes que alguém me pediu para fazer um desenho, do sorriso no rosto da pessoa quando recebia o desenho pronto e dos elogios que afagam o nosso ego logo em seguida. Se tem uma profissão que me devolveria tudo isso e ainda poderia se tornar meu ganha pão, é a tatuagem.

Mas, por uma incrível coincidência, naquele mesmo momento houve um "Boom da Tatuagem". Artistas, jogadores de futebol, inúmeras celebridades se tatuando. O mercado aquecido neste setor se juntou com o fato de que muitos outros designers estavam sofrendo a crise financeira, ilustradores órfãos do mercado editorial que fechou várias revistas… e ta dáaaa! Uma enxorrada de novos tatuadores surgiu.

Eu fiquei um pouco intimidado e ao mesmo tempo com vergonha de me colocar neste meio justamente naquele momento. Iria parecer que eu não estava compromissado com a minha arte, mas simplesmente com o fato do assunto "tatuagem" estar ganhando tanta repercussão… seria como se eu estivesse aproveitando a modinha, e isso me incomodava muito.

Mesmo assim, comprei todo o material, estudei sobre o assunto, desde o contexto histórico até questões técnicas, participei de um workshop, montei um pequeno estúdio em um quarto que servia de escritório em casa, e finalmente iria começar os trabalhos… tudo sozinho.

Cheguei a tatuar apenas uma amiga, primeira cobaia… tadinha. A tatuagem dela me rendeu umas 3 semanas deprimido (pois não havia ficado boa) e a certeza de que eu não conseguiria fazer isso sozinho. Em meio a tudo isso nossa empresa passava por um momento difícil no final de 2015, pois levamos alguns calotes de clientes, que culminaram em eu ter que voltar correndo para os projetos do estúdio de design. Mais uma vez, a carreira "artística" foi abortada pelas necessidades reais da vida.

Enfim, cá estou eu, iniciando meu trigésimo ano de vida e ainda flertando com a possibilidade de viver de arte. Eu tenho a impressão de que se eu não fizer a minha investida agora, depois será tarde demais. É tipo o último ônibus que passa no ponto, se você perder já era.

Relendo meu próprio texto até este ponto, parece que fica muito claro que eu devo voltar e insistir na tatuagem né, na carreira artística. Mas adivinhe o que eu fiz nos últimos dias? Comecei um novo curso de front-end design e a escrever uma proposta de projeto para mestrado, sobre design de interfaces em realidade virtual. Acha que eu estou perdido? Não sei, mas o fato é que esses dois assuntos têm me chamado a atenção sempre, arte e design. Aparentemente o que me deixa mal no design não é o design em si, mas a parte administrativa de uma empresa. Talvez eu devesse arrumar um bom emprego, sei lá.

No mais, eu tenho protelado a decisão o máximo que eu posso, e isso é bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porquê eu não tomarei uma decisão precipitada que eu vá me arrepender depois, e ruim porquê o tempo está passando, e quanto mais eu demoro, parece que pior fica para decidir. Já pensei até em tirar no cara ou coroa, mas arriscar o futuro desse jeito seria uma grande besteira.

Ainda tenho algum tempo para refletir, de fato não sei que caminho tomar, mas qualquer um que eu escolher, com certeza será o meu próximo desafio para a minha próxima década de vida, os 30!

Quando eu resolver, você poderá carregar uma arte minha em seu corpo, ou usar algum aplicativo meu em realidade virtual. E aí, o que você vai ser quando você crescer? Eu ainda não sei.

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