A decadência da família margarina retratada no cinema brasileiro contemporâneo

Aviso: contém spoilers.

Da mais nova safra de lançamentos nacionais, ao menos três filmes orbitam em torno do mesmo tema: a desconstrução da imagem da família tradicional brasileira. Se por um lado o audiovisual brasileiro permanece profundamente branco, masculino e elitizado, por outro, o mercado começa a entender que a narrativa farsesca da família patriarcal já deu. É o que podemos sentir a partir das temáticas presentes nos filmes Como Nossos Pais, de Laís Bodansky, O Filme da Minha Vida, de Selton Mello, e As Duas Irenes, de Fábio Meira.

“Como Nossos Pais” (Foto: Divulgação).

Como Nossos Pais vem na cauda da última Primavera Feminista. Apesar das nuvens obscurantistas que pairam sob nossas cabeças neste momento, no último período o feminismo fincou sua estaca num ponto de onde não dá pra retornar como se nada tivesse acontecido. Ainda que sob um viés predominantemente liberal, a poeira foi levantada. Tripla jornada de trabalho, maternidade compulsória versus paternidade optativa, monogamia e, ainda que de uma forma sutil, até mesmo lesbofobia/bifobia são algumas das questões pelas quais Laís Bodansky perpassa de uma maneira bastante natural.

No longa, Rosa (Maria Ribeiro) é uma jornalista mãe de duas pré-adolescentes que ganha a vida escrevendo folders de cerâmica de banheiro enquanto sonha em ser dramaturga. Em uma das primeiras cenas do filme, sua mãe, brilhantemente interpretada por Clarisse Abujamra, revela que teve uma relação extra-conjugal que resultou em sua gravidez. Essa revelação acaba agravando a já tempestuosa relação entre as duas e desencadeando uma verdadeira reviravolta na vida da jornalista. Sobrecarregada com a tripla jornada de trabalho e pressionada a ser uma boa filha e boa companheira, Rosa incorpora a “mulher contemporânea”. Uma mulher branca, hétero, classe média, jovem e urbana, claro. Mas, ainda assim, uma personagem forte que vem pra suprir essa demanda no ainda tão falocêntrico cinema brasileiro. Em contraposição a isso, as figuras masculinas são retratadas como pais ausentes e bunda-moles.

“O filme da minha vida” (Foto: Divulgação).

Já em O filme da minha vida, a mensagem vem pelo sentido oposto. Contado do ponto de vista de Tony (Johnny Massaro), um jovem gaúcho abandonado pelo pai na adolescência, o filme coloca as mulheres como personagens secundárias, sempre em posição de objeto de desejo masculino. Com o subterfúgio de se tratar de um filme de época, Selton Mello reproduz inúmeros estereótipos e clichês acerca da construção da masculinidade, a começar pela iniciação sexual na prostituição. À medida que a narrativa avança, confirmamos a suspeita inicial de que o pai ausente teria outra família. E daí vem a dupla revelação não apenas de que ele está morando em uma cidade vizinha, criando um filho sozinho, mas que a mãe da criança se trata de Petra (Bia Arantes), uma jovem, até então também objeto de desejo do protagonista.

Até aí, nada de novo sob o sol do patriarcado, e não dava pra esperar nada muito promissor daquela figura paterna que nos foi esparsamente introduzida com as pistas jogadas ao longo da narrativa. Entretanto, a mensagem contida no desfecho é estarrecedora. O pai ausente que engravidou uma menina com idade para ser sua filha é agora colocado no posto de herói: um cara que fez suas cagadas, porém, abriu mão da felicidade ao lado da esposa e do filho para criar um bebê em outra cidade e, assim, não sujar o nome nem da família, nem da moça. E o público sai às lágrimas da sessão, acreditando que um mundo melhor não apenas é possível como já existe, na cidadezinha mais próxima.

“As Duas Irenes” (Foto: Divulgação).

Sem os holofotes da Globo Filmes, As Duas Irenes chega mais discretamente aos cinemas, carregando o selo da seleção oficial do Festival de Berlim no currículo. Irene é uma jovenzinha de 13 anos que descobre que seu pai tem outra família e outra filha de mesmo nome e mesma idade. De uma maneira bastante poética, o filme retrata a passagem das duas irmãs para a adolescência, ao mesmo tempo em que descortina as contradições de duas famílias aparentemente bem-estruturadas.

À medida que Irene vai se aproximando da “nova” irmã e tomando conhecimento das mentiras contadas pelo pai, a autoridade familiar passa a ser desafiada, como se ela compreendesse, de repente, que as regras impostas a ela não passam de uma farsa. Fábio Meira caminha por uma corda-bamba ao jogar no ventilador um assunto tão delicado. Porém, o longa consegue se esquivar do risco iminente de cair em maniqueísmos, sobretudo com um final aberto e simpático.

A temática presente nesses três longas recém-lançados nos cinemas parece apontar, portanto, para a mesma direção: não dá mais pra fingir que está tudo bem na sala de jantar. As contradições desse modelo familiar estão postas à mesa e as pessoas querem se ver refletidas nas telas. Mas, se por um lado, a indústria cinematográfica já se tocou de que é preciso abrir um pouco as fronteiras para a representatividade, por outro lado, quando fazemos um raio-X da ficha técnica desses filmes, vemos que a cadeia de produção audiovisual ainda está bem longe de querer mexer em suas estruturas em nome da “diversidade”.