Elle: o estupro como gatilho

Elle. Foto: Divulgação.

Aviso: contém spoilers.

Misto de drama, suspense e comédia ácida, Elle conta a história de Michèle Leblanc, genialmente interpretada pela francesa Isabelle Huppert, executiva-chefe de uma bem-sucedida empresa de videogames que sofre um estupro dentro de sua casa e tenta seguir a vida, enquanto o agressor continua a atormentá-la.

Atraindo olhares dos críticos no Festival de Cannes 2016, Elle é o filme indicado pela França para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano. O longa é dirigido pelo veterano Paul Verhoven, holandês importado por Hollywood nos anos 1980 para rodar as super-produções RoboCop: O Policial do Futuro (1987) e O Vingador do Futuro (1990), além do clássico Instinto Selvagem (1992). Após dirigir trabalhos menos bombásticos, como Tropas Estelares (1997) e A Espiã (2006), Verhoven volta a receber destaque pelo polêmico Elle, cujo roteiro é uma adaptação do romance Oh…, do escritor francês Philippe Djian.

Seguindo a receita de Instinto Selvagem, Verhoven inicia o longa com uma cena impactante — no caso, Isabelle sendo violentada –, abrindo caminho para a investigação que se seguirá. Entretanto, o diretor adota uma narrativa um tanto diferente de seus tempos de Hollywood, embora a influência clara de Hitchcock ainda se faça presente.

Em Elle, nenhum personagem é plano, todos são dotados de personalidades tão complexas que suas ações tornam-se imprevisíveis, e aí está o grande mérito do filme. Com destaque para Isabelle Huppert, que parece carregar o filme nas costas no papel da apaixonante anti-heroína Michèle Leblanc.

À primeira vista, Michèle é fria, mesquinha, egocêntrica e cruel. Porém, com a dose suficiente de honestidade para conquistar a empatia do público. Afinal, quem de nós não é um pouco disso tudo de vez em quando?

Aos 50 anos, ela chefia com absoluto domínio uma empresa de games sanguinolentos composta quase que totalmente por homens jovens. Se na primeira cena do longa vemos Michèle ser estuprada na sala de sua própria casa por um agressor mascarado, essa aparente vulnerabilidade logo será contrastada com a imagem da poderosa diretora-chefe. Na cena seguinte temos uma reunião de equipe na empresa, em que a executiva pede obsessivamente que seus desenvolvedores deem mais sangue ao jogo, literalmente, pois: “Não é assim que uma pessoa abusada se comporta. É preciso colocar mais gritos”.

Elle. Foto: Divulgação.

Michèle tenta esquecer o trauma e cicatrizar sozinha suas próprias dores. Entretanto, o agressor começa a lhe enviar uma série de mensagens aterrorizantes pelo celular, e é então que ela, tal como uma heroína de seus videogames, parte em busca de suas próprias armas: de spray de pimenta a aulas de tiro. Nesse momento o roteiro vai induzindo o espectador a pensar que o estuprador poderia estar entre os jovens e atrevidos funcionários de sua empresa.

Porém, em Elle nada é dado, nenhuma informação preciosa é esfregada na cara do espectador em forma de mega-clichês, como faz tanto o cinema hollywoodiano. Ao contrário, somos levados a recolher pistas em frases aparentemente banais, como detetives em busca não apenas da identidade secreta do violador, mas dos pensamentos ocultos e do passado de Michèle. Como no momento em que, durante a ceia de Natal, a anfitriã toca no assunto do assassinato do pai, o qual esperávamos ansiosamente para ouvir. Não é em um local reservado que ela vai finalmente abrir seu coração para o público sobre o ocorrido, é na sala de jantar, no momento mais constrangedor do ano, em uma sala repleta de íntimos semi-desconhecidos, incluindo o vizinho casado com quem está flertando, às vistas de todos.

Elle. Foto: Divulgação.

E agora?

Dias depois de tudo isso, Michèle é atacada em sua casa pela segunda vez. E é aí que acontece o grande ponto de virada do filme: ela consegue reagir e arrancar a máscara que encobria a identidade de seu estuprador. Um “bom moço” que não consegue ter prazer no sexo sem exercer a violência (leia-se: bater e estuprar mulheres). Um cara comum, “de família”, o gente boa do bairro. Sobretudo, um conhecido da vítima, como na maioria dos casos de estupro denunciados, cujos violadores são pais, parentes, vizinhos ou conhecidos. Em resumo, o cara que lhe ataca no meio da noite é o mesmo que lhe dá bom dia de manhã. Infelizmente, um clichê ultra-realista na vida das mulheres. A vida como ela é…

“E agora?”, indagamos do outro lado da tela. O caminho mais lógico seria acionar a polícia. Mas não em se tratando de Michèle Leblanc, nossa anti-heroína, filha de um psicopata que teve sua vida devastada na infância e que, enfim, conseguiu reconstruir sua reputação, a duras penas. A senhora Leblanc não quer ver seu nome arrastado em um escândalo midiático novamente. Mesmo porque, ela não parece ser o tipo de mulher que acredita em instituições, sejam elas a igreja, a família, o estado ou a polícia.

Nossa protagonista decide então entrar no jogo. Que tipo de mulher investiria em uma relação com seu estuprador? Somente alguém com a frieza e a ousadia de Michèle. Somente uma mulher com um passado aterrorizante como o dela. Sobretudo, uma mulher acostumada à dor. Com uma infância traumática, ela foi obrigada a desenvolver suas próprias defesas, e talvez anestesiar-se das mazelas da vida tenha sido uma delas. Soma-se a isso o fato de que romper o ciclo de violência nunca é tão simples quanto parece, e qualquer verossimilhança não é mera coincidência. Por trás da fachada de anti-heroína badass, existe uma mulher como outra qualquer, violentada cotidianamente pelo patriarcado, buscando encontrar suas formas de resistência.

E então, em um lento processo de auto-descobrimento, o estupro servirá de gatilho para que a protagonista decida resolver sua questão com o pai, verdadeiro grande trauma de sua vida e que faz a violência sexual soar pequena diante de tamanha dimensão.

Michèle então vai assumir, de vez, as rédeas da sua vida, tomando três decisões significativas: confessar à melhor amiga uma traição, acionar a polícia para seu estuprador e, a mais importante delas, visitar o pai na prisão, após todos esses anos. Entretanto, é seu filho, até então um moloque imaturo e inconsequente, quem irá salvar a mãe de uma nova agressão, possivelmente fatal. Em suma, ela irá se vingar do pai e se reconciliar com o filho e com a amiga. Um clássico final feliz, ainda que com vários corpos embaixo do tapete.

Elle é uma bela obra cinematográfica, mas bem que os diretores homens poderiam escolher outro lugar pra resolver essa fixação masculina com estupro (assim como com a prostituição, mas isso fica pra outro post…). Verhoven parece ter usado um tema do feminismo como gatilho também para gerar polêmica em torno do filme, surfando na efervescência do movimento nos últimos anos. Isso, entretanto, não tira seus méritos.