Tropas Estelares: O Filme é Melhor

Demorei anos, mas finalmente encontrei. Uma obra que a adaptação cinematográfica é melhor que a obra original. Tropas Estelares promete ser um livro de ficção científica empolgante, mas o que recebemos são páginas e páginas de exaltação militar, alfinetadas em ideologias de esquerda e machismo. 
Eu costumo considerar o filme um dos meus guilty pleasures, classificado pra mim como “O melhor filme ruim de todos os tempos”. Tudo isso porque é um filme galhofa, com efeitos datados e atuação do protagonista digno de uma Framboesa de Ouro. Mas poxa, é uma guerra espacial contra insetos gigantes, e quando você para pra analisar o filme é uma crítica ao militarismo que Heinlein passou tantas páginas exaltando em sua obra.
No livro, os veteranos militares tomaram o poder e botaram ordem na casa. Ordem que pra eles e para Heinlein, expresso pelas figuras de poder e conhecimento no livro, significam punições físicas, execuções públicas, cerceamento de direitos individuais e a máxima de separar civis de cidadãos, pessoas que servem ao governo militar em troca do poder de voto após terminarem seu tempo de serviço. 
A narrativa inteira do livro poderia ser resumida em: Rico e suas aventuras pelo exército (mas sem batalhas). É basicamente só isso. O livro todo é um diário resumido de como o protagonista saiu de um playboy mimado querendo independência a um oficial comandante de sua própria tropa, perfeitamente adestrado pelo sistema militar. 
Não tem batalhas, não tem guerras. Eu esperava pelo menos uma cena a la Bernard Cornwell, um embate das tropas contra insetos, mas nada ocorre feijoada, porque quando os insetos atacam a tropa do Rico, ele desmaia e perde toda a ação.
Mas e o machismo? Não existem soldados mulheres em Tropas Estelares. Mulheres não lutam, não servem pra isso. Mas elas são ótimas pilotos, as melhores. Nas naves que transportam as tropas, elas ficam separadas, e o livro todo Rico sonha com mulheres, luta por mulheres e se inspira por elas pra pegar em armas. Pro Rico, elas são um ser alienígena, longe, inalcançável.

Você quer saber mais sobre isto?

O filme extrapola todos estes conceitos. A genialidade da adaptação cinematográfica está em criticar de forma sarcástica e não explícita todo esse sonho militar de Heinlein, e é isso que deixou os fãs do livro putos quando o filme foi lançado.
No filme, temos mulheres soldados. Numa sociedade militarista, todo voluntário pra linha de frente vai ser aproveitado.
As razões para cada um lutar não são apenas o direito de voto, mas também direitos básicos que são mais facilmente conquistados se você serviu algum tempo no exército. Licença para ter um filho, seguir carreira política, etc.
Execuções públicas são transformadas em espetáculo da TV, e qualquer revolta ao sistema vigente é aplacada com o conceito já conhecido de inimigo único. Os insetos não são apenas uma ameaça à humanidade, eles são uma desculpa para que o sistema exista e se mantenha. Nada melhor pra manter um povo na linha do que um medo em comum que ameaça a todos nós.

Por fim, se mesmo assim você estiver afim de ler o livro, fique ciente de que não vai encontrar grandes batalhas e cenários alienígenas. São 300 páginas narradas em primeira pessoa que contam a trajetória de Juan Rico na infantaria móvel, e como os militares são a salvação da humanidade.

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