O que Porto Alegre não vê

Bruna Rohleder

A praça Princesa Isabel, do bairro Azenha, tem um elemento bastante curioso. Localizada ao lado de uma passarela, a estação de monitoramento da qualidade do ar é vista por milhares de pessoas que passam ao seu lado cotidianamente. Parecida com uma caixa de metal, a estação da zona sul é apenas uma entre outras espalhadas por Porto Alegre.

Atualmente, na cidade, existem seis estações que monitoram a qualidade do ar. Três delas são de propriedade da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMAM), e outras são de responsabilidade da Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luis Roessler (FEPAM). Esta é responsável, além de Porto Alegre, de monitorar outras 7 cidades do Rio Grande do Sul.

Todas as estações têm o objetivo de informar à população como está o índice de poluentes existentes no ar. Eles são, de acordo com o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), material particulado inalável (MP10), ozônio troposférico (O3), monóxido de carbono (CO), dióxido de enxofre (SO2) e dióxido de nitrogênio (NO2). Se o número desses poluentes for elevado, além do padrão estabelecido, isso pode causar diversas doenças naqueles que as respiram diariamente. O problema é que das seis estações de monitoramento instaladas em Porto Alegre, somente uma funciona, a que está localizada no bairro Humaitá. A previsão de volta das outras cinco, porém, é desconhecida.

Porto Alegre é a segunda capital do Brasil que tem a maior concentração de material particulado ou partícula inalável (MP10), o poluente mais agressivo à saúde humana, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Cláudia Ramos Rhoden, coordenadora do Laboratório de Poluição Atmosférica da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) estuda particularmente esse poluente.

Desde 2004, ela e a sua equipe de pesquisadores mapearam a cidade porto-alegrense para diagnosticar a qualidade atmosférica. Com um equipamento capaz de filtrar o ar, eles concluíram que a zona norte é o lugar que tem a situação mais comprometida, e tiveram uma descoberta: “nós estamos avançando os nossos estudos, e temos visto que existe uma correlação bem forte entre a qualidade do ar não comprometido com a presença de automóveis. Para Porto Alegre, a poluição vem da fonte automotora”.

Os automóveis são os responsáveis por liberar o material particulado no ar através da queima de combustível e do atrito do pneu no asfalto. Com o aumento considerável de carros, ônibus e lotações que circulam nas ruas do município gaúcho, a qualidade do ar ficou comprometida. Segundo os dados coletados pela pesquisadora Cláudia Rhoden, Porto Alegre tem 55 a 60 microgramas por metro cúbico diário, o dobro recomendado pelo OMS. A organização determina 25 microgramas como um padrão nocivo a saúde humana.

A consequência desses dados está diretamente relacionada à saúde humana. Uma pessoa que inala o ar em um período de pico de poluição pode ter imediatamente doenças agudas, como rinite, irritação respiratória, rouquidão, dor de garganta e bronquite, além de ter a possibilidade de alterações cardíacas, como arritmia e infarto agudo. Além disso, de acordo com Rhoden, as doenças crônicas também podem ser desenvolvidas. Elas estão ligadas com o câncer de pulmão e de bexiga tanto quanto o cigarro. Ela explica: “O material inalável absorve toxinas de bactérias, fungos e metais. Estes são iniciadores de doenças no ser humano, que podem causar doenças neurodegenerativas, infarto e reação inflamatória crônica. Para quem é asmático é pior, sobretudo para crianças e idosos, que pertencem a faixas etárias mais suscetíveis”.

Apesar de o Laboratório de Poluição Atmosférica da UFCSPA estar acompanhando a qualidade do ar em Porto Alegre, o equipamento de coleta não funciona 24 horas por dia e durante o ano inteiro. Essa é a tarefa, portanto, de uma estação de monitoramento da qualidade do ar. “Nós infelizmente não temos uma agência de controle da qualidade do ar funcionando. Nós não temos estações em pleno funcionamento. Isso é um fato. Isso é triste”, conclui Cláudia Rhoden.

O outro lado da história

“O Estado está com grande dificuldade de conseguir verba para esse tipo de manutenção”, afirma Márcio D’Avila Vargas em seu escritório no centro de Porto Alegre. Ele é analista ambiental da FEPAM, chefe do Programa Ar do Sul (PROAR), e coordenador estadual de monitoramento da qualidade do ar do Rio Grande do Sul.

Em Porto Alegre há três estações de monitoramento sob responsabilidade da FEPAM, mas nenhuma delas funciona. Uma se localiza no bairro Jardim Botânico, outra no bairro Santa Cecília, na Escola de Bombeiros, e a última em frente a rodoviária da cidade. Esta foi arrombada e está desprovida de todos os equipamentos.

“Nós teríamos que monitorar Porto Alegre se tivéssemos verba, só que eu não vejo nenhuma perspectiva agora e nos próximos anos de voltarem a funcionar. Não consigo imaginar o Estado colocando um volume de dinheiro que precisa para operar as estações”, opina Márcio. Segundo o analista ambiental, para recuperar somente uma estação de monitoramento iria custar em torno de um milhão e meio a dois milhões de reais. Ainda, quando funcionassem, as estações teriam de passar por manutenções contínuas para funcionar adequadamente.

Diante da previsão imprecisa sobre a volta do funcionamento das estações, uma alternativa seria pensar em formas para combater a poluição do ar em Porto Alegre. Márcio D’Avila aponta o uso de filtros em chaminés nas indústrias e investimento em tecnologia mais avançada para reduzir a poluição. Além disso, os automóveis que estão entrando no mercado precisam se adequar à norma do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) e, por isso, há melhora na qualidade do ar. As substituições de caminhões e ônibus que utilizam óleo diesel, que libera poluentes na atmosfera, para veículos que usam óleo com baixo teor de enxofre também é uma opção. O analista, por fim, sugere o uso de transporte alternativo, como a bicicleta, e o aumento na qualidade da estrutura e do atendimento de ônibus e lotações.

Ciclismo como combate à poluição

No horário de maior tráfego de veículos em Porto Alegre, às 18h, a ciclovia da Avenida Ipiranga recebe muitos ciclistas que são impedidos de continuar a pedalada por causa das repetidas sinaleiras ao longo da avenida. Enquanto muitos não esperam o sinal vermelho se tornar verde, Tatiane Gabineski, Suelen Bavaresco, Davi Santos de Aguda e Harley Beastilho concedem uma entrevista. Os desafios do ciclismo na cidade, as suas motivações em usar a bicicleta, e a opinião sobre a poluição do ar se apresenta a seguir.

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