PARTE 1 — LONGÍNQUA

Era pacata a vida junto a uma cascata, onde tudo se assemelhava a renovação, a crença, a espírito livre. Toda a combinação entre um livro, um perfume de pétalas no jardim e o som da água lhe davam esperanças. Esperanças de que o futuro se lhe assemelhasse a isso e a mais qualquer coisa. Não sabendo ao certo o que pretendia, queria mais. Ansiava por algo que a cativasse mais do que aqueles meros 24 anos alguma vez a cativaram. Não seria o suficiente digno para ela. Esperava certamente “alguém” mais do que “algo”. Passaram 4 anos desde o seu último romance, hoje já conseguirá dizer que foi mais conquista do que vitória, tinha sido bom mas tinha dado o último suspiro quando entendeu que a vida vai para além fronteiras, e a sua estava a encaminhar-se para algo semelhante. Precisava de manter uma distância com “conhecidos”, o que incluía a família. E foi assim que, juntando dinheiro de alguns part-times, e trabalhos múltiplos mas sem importância e nada duradouros, arranjou um estúdio. Era um estúdio numa moradia com mais outros 3. Passaram 3 anos desde a sua pequena aventura além olhares, além notícias. E até então estava a ser o seu mais que suficiente, a paz que ansiava desde que sentira que a liberdade não era liberdade verdadeira se fosse vista apenas por terceiros. Mas agora sim, hei-la, e como era bom senti-la na pele e não na voz de outros. Mas havia uma falta, agora mais do que a sensação remota de ter vivido aprisionada, sentia falta de uma voz para além da que construía todos os dias sozinha, na sua cabeça, no seu canto.

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