Café, vó

Não há ninguém no mundo,

Pastor, padre ou pai de santo,

Capaz de reascender minha identidade

Perdida, outrora

Como esse cara,

Que escolhe dividir comigo,

Inexperiente, arrogante e privilegiada,

Suas vivências espirituais.

A voz embargada quando fala da avó.

Já conheço essa cena

Foi igual, há três anos,

Quando, dentro da caminhonete,

Ouvindo The Beatles,

Ele me disse porque gostava tanto da Vigem.

Eu não entendia o que estava acontecendo ali.

Alguém tinha ido buscá-la no momento da morte.

A luz azul entrou no seu quarto.

Naquela noite, senti algo diferente e familiar.

“Café, vó?” é o louro que não canta mais

Ecoando minhas memórias ensolaradas.

Espero, um dia, encontrá-los.

Mais velha.

Como esse cara teve a oportunidade.

Eu gostaria tanto de conversar com o tio hippie agora.

Será que ele pede que os anjos cantem Raul Seixas?

Entre os sete bilhões, de novo,

Fui sorteada para ver meu pai chorar.

Perdi.

Foi quando amadureci o suficiente para ver minha podridão.

Cai da árvore como Paulo caiu do cavalo.

Machuquei.

Sinto escorrer as oportunidades que perdi por ser tão jovem

E idiota.

As conversas na rede poderiam ter sido mais interessantes.

Engraçado é que eu sabia,

Eu sabia que duraria pouco,

Por isso não desci e fui brincar.

Mesmo não sabendo o que fazer com aquele momento,

Fiquei.

Toda noite, quando vejo Fátima sorrir,

Posso imaginar quantas contas ela não chorou.

Olhando, olhando, olhando

A mãe que tricotava para o português xucro,

Os irmãos que desdenhavam da fé,

Os filhos, cada vez mais independentes,

Já fazendo os filhos deles..

Nessa leva em que meu pai foi o primeiro

E hoje chora a crucificação de mulheres fortes como Maria,

Mesmo machista que é,

Ele chora.

Por elas.

Não há ninguém no mundo que me faz

Desejar ardentemente a primavera,

Mesmo sabendo que o inverno volta,

Sempre volta, sempre volta

E voltará para sempre

Até dançarmos juntos no céu ao som de Raul.

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