a propósito de deus-dará

A propósito de deus-dará, o novo romance de Alexandra Lucas Coelho, a crítica será transatlântica ou não será. Ganhei o livro de «prenda», que também é presente, de natal, do roommate e amigo lusitano, com dedicatória e tudo:

Aos acasos transatlânticos,
que nos deram origem.
Ao deus-dará,
como vieste ao meu encontro.
Luís, Natal de 2016

Seria o meu quarto Natal longe de casa, o quarto não-natal, porque natal lá em casa (na minha) é menos o nascimento do menino jesus e mais o dia de estrear a roupa nova na casa da avó, separar a uva passa do arroz colorido na hora da ceia, lavar a roupa suja da família que ficou acumulada durante o ano (no meio da oração, de mãos dadas, pra não virar briga), comer gelatina de morango batida com natas, que também é creme de leite, assistir a missa do galo transmitida ao vivo, que também é em direto, pela TV e ir pra cama dormir.

Depois de quatro não-natais em Portugal, ainda por cima inverno, o presente-prenda veio atiçar o banzo, página a página, dessas 556. No mês de janeiro mais frio do último século no Porto, me sai das páginas do romance o bafo carioca que a gente pega assim que deixa o Santos Dumont. Pra mim, brasiliense acostumada à cota mil, é sempre um baque cada vez que retorno ao Rio, essa (h)umidade salgada no ar: maresia.

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À página 36, leio Noé: cabelo black power, formanda, que também é finalista, na PUC, bolsista, que também é bolseira, neguinha abusada em universidade de bacana, de betos e betas, de gente branca — Noé, Noêmia, Noémia — eu, cotista no curso de Letras na UnB em 2007. Noé babá, de uniforme branco na Lagoa — eu, de avental, garçonete, que também é empregada de mesa, em Portugal em 2015, pra pagar o tal do doutorado. Eu num romance em língua portuguesa — e não «eu-subjetividade», «eu-estado de-espírito», «eu-visão-de-mundo», «eu-angústia-existencial», e sim: eu do lado de fora, eu, preta, universitária, ralando, pegando ônibus, que também é autocarro, lendo Machado pra prova de amanhã no quarto e ouvindo a algazarra da boca de fumo na esquina de casa, ao mesmo tempo.

** *

Eu no romance: o black power de Noé, as coxas poderosas de Império, o romance não escrito de Zaca, a tese de doutoramento que para de fazer sentido a meio de Tristão.

Eu, travessia inversa. Que viesse a ser leitora de Machado era improvável, que viesse a viver na cidade de Faustino e Carolina era um delírio. O mesmo sentido de absurdo, de impotência diante da tragédia — não de incompreensão. No autoexílio cai a venda, a lucidez enlouquece, os estereótipos e a ignorância alheia ferem. No autoexílio, a solidão e o silêncio.

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Rewind: a autora escreve sobre um dia de julho de 2013:

«Amanhã os jornais, e já hoje as tvs, as rádios e as redes, vão dizer que essa será a noite dos três milhões em Copacabana, um terço de Portugal (…). Isoladas do contexto, nas suas zonas escuras, onde a câmara só capta um amontoado de corpos na orla de uma cidade, estas imagens são o prenúncio da vaga de refugiados que em breve tentará alcançar a Europa»

Neste exato momento, entre os acampados, entre os «lotes» delimitados com vincos na areia, mochilas e gravetos em jeito de cerca, eu era um dos vultos estendidos do chão, que mirava as estrelas e perguntava, a deus já não seria, se viria a ser admitida no programa doutoral da universidade do minho naquele ano. E, admitida, se teria coragem de largar o emprego público e ir embora. A confirmação veio dali a uma semana, quatro meses depois eu desembarcava em Lisboa, passava pela imigração, novo voo para o Porto, autocarro para Braga, começava o autoexílio. Fast-foward: eu morando no Porto em 2017, chega-me às mãos um relato daquele preciso momento em que uma estrela decidiu o sim e o não da minha vida, feito por quem o observou desde a avenida. Mais uma coincidência sem significância do ponto de vista das estrelas.

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À distância das estrelas, o narrador enxerga Noé, Tristão, Lucas, Zaca, Inês, Judite e Gabriel, como câmera de cinema, faz travelling na guanabara, vai atrás do skate do Lucas ou da moto do Gabriel, faz panorâmica de helicópetero digna da direção de um Fernando Meireles, um José Padilha ou um soft Jayme Monjardim. Flashbak, rewind, fast foward, close up, plano-sequência, corta, emenda, enxerta: deus-dará é a estética da bricolage. É 2017, a literatura devorou o cinema, a reportagem e a história para poder continuar literatura. A dicção carioca engole a prosódia portuguesa para que o Rio seja apreensível na língua de Camões. Vórtice, rodopio, vertigem: quem nunca foi ao Rio pensará que é realismo mágico ou ficção científica o que acontece todos os dias sob os braços e a indiferença do Cristo de pedra. O mais inveros(s)ímel deste deus-dará está em tudo o que tem de factual.

Aqui, o logocentrismo falha. Pela lógica pura e simples, esse asfalto não deveria existir, e existe, o morro deveria descer, e não desce. A linguagem ocidental não explica os trópicos e chama exótica a sua própria ignorância.

Essa alegria, essa teimosia em viver? De onde vem? Que força tem?

Fevereiro de 2017, 137 mortos em dez dias, quase todos homens, quase todos pretos, quase todos periféricos no estado do Espírito Santo, e duas semanas depois as escolas de samba estão na rua, xô, tristeza, é carnaval.

Quem é que explica?

Fazemos da tragédia, música, mas isso não quer dizer que ela doa menos. Há os que nunca voltam a rir. E Portugal com isso? Vira a cara, e quando olha, olha com a curiosidade e o distanciamento do estrangeiro, nada tem a ver com isso, é coincidência que a PM suba o morro no Rio e sente o dedo em quem correr na mesma língua em que a GNR derruba casas e some com gente «suspeita» na Cova da Moura.

E há ainda a fé. A fé que faz, que vive pelas obras. A Igreja decadente na Europa, corrupta, hipócrita, anacrônica, é a mesma que ainda cheira em meio à imundície o que resta de humanidade à margem da margem. Os xamanismos vários reduzidos a pajelanças indistintas são circo para os gringos de dread que compram salvação.

***

Tudo isso a autora viu e quis escrever: o dinheiro que corrompe, a ganância que mata, o exotismo que vende o paraíso perdido na moeda mais forte da bolsa, viu e quis escrever, sem precisar — é privilégio, o que pra mim é a linha entre sanidade e loucura, questão de sobrevivência saber, pra ela foi interesse humano, empatia: exumar cadáveres que foram enterrados sem autópsia, sem ninguém que atestasse a causa da morte: genocídio.

Por ser fruto de privilégio, não vale menos a generosidade de quem podendo escrever qualquer narrativa, escolhe escrever a mais difícil — abrir mão do berço-ideia seguro e tão bem sedimentado da portugalidade para depois voltar a abraçá-lo, agora com o peso da tragédia, da pilhagem, dos corpos jogados em vala comum.

Se não é fácil descender daqueles aos quais tudo foi roubado, também não será leve herdar o espólio da injustiça. Entre nós, o mesmo mar, o mesmo sal, — das lágrimas de portugal, diz Pessoa, de lágrima de preto, canta Emicida, e os dois estão certos.

«Todos os impérios são uma história da violência. Caberá a cada um atravessar a sua para ser mudado. Quando isso não acontece, o filho do que foi morto falará e o filho do que matou não conseguirá entendê-lo, porque o lugar do outro está por experimentar, nunca houve transformação»

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Vejo-me através dos seus olhos e o que me era familiar parece agora absurdo. Encontramo-nos, crítica e autora, nesse lugar-momento do espanto e da perplexidade. Encontramo-nos, partindo de pontas opostas da espiral-serpente, encontramo-nos nessa língua, nessa perplexidade que não vai embora mesmo depois do entendimento, nessa impotência diante do não-saber — e na dor de saber que, apesar de tudo o que esse livro é, apesar do testemunho que dá, de novo um corpo negro cai na periferia do Rio de Janeiro para não mais se levantar. De novo Portugal dormirá tranquilo porque não tem nada a ver com isso.

Nos encontramos aqui, rodeando a fogueira brasil à espera do apocalipse, sabendo que é esse encontro que afasta o desespero.

Contemplamos desde as estrelas a tragédia irreversível, e acorda em nós um sentido quase religioso de missão: há que se criar algo que viva e pulse a partir disto. Deglutir a dor, devolvê-la em forma de arte. Fazer da culpa cristã que prosta, folia de carnaval que anima.

«Alegria: a grande criação da tristeza, génesis passando a perna no apocalipse, beijando o desconhecido»

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A minha escrita a propósito de deus-dará poderia se prolongar indefinidamente. Fico por aqui, com um agradecimento à autora pelo livro-presente. Por transformar a perplexidade em trabalho. Por dizer o nome deles, de alguns deles, os assassinados. Por recuperar memória, por me ensinar tanto sobre mim e sobre os meus. Por desafiar as próprias crenças, por se abster de narrar, por deixar que outras vozes dissessem de si, e respeitar quando não quiseram dizer nada. Por não ceder à tentação de romantizar a precariedade, pela entrega pessoal, pela intuição que duvidou das respostas de sempre. Por construir com a linguagem e a dicção do romance uma casa onde eu pudesse morar, um caminho para escapar ao rancor: lugar de encontro.

Um dia, oxalá, nos veremos outra vez na Bahia prometida.

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