Bagagem Emocional

O que te trouxe até aqui? Esta é uma pergunta feita comumente no primeiro encontro de um processo psicoterapêutico e por incrível que pareça, a cada vez que faço essa pergunta na minha cabeça, descubro mais coisas sobre este ponto inicial da psicoterapia e também sobre a vida.

Na minha primeira aula de pós graduação em Formação em Psicoterapia Fenomenológico-Existencial, o professor começou falando sobre “ponto de vista”. Cada um tem o seu e esse ponto de vista não é apenas uma opinião sobre algo, é todo um caminho percorrido por você até chegar no presente momento, seja numa discussão, seja aqui-e-agora, seja sobre determinado assunto. “O que te trouxe aqui?”, acredito eu, é uma pergunta feita para iniciar uma reflexão sobre este ponto de vista.

“Tudo. Tudo que me ocorreu me trouxe até aqui. Tudo que me ocorreu e tomou tais significados. Tudo que eu vivi e experienciei. Todo meu caminho percorrido”. Eu diria que esta seria uma resposta pouco comum, pois quando perguntamos isso à alguém que decidiu iniciar psicoterapia, a pessoa vai nos responder aquilo de sua vida que a incomoda e causa certa angustia, mesmo sem saber ao certo como descrever este ponto e discorrer sobre ele. À isto nós chamamos de “queixa”.

Com o decorrer das sessões esta queixa vai tomando forma com o discurso do paciente e com a nossa interpretação sobre este discurso, e conforme se vai caminhando, é possível perceber que esta queixa tem suas ligações com todo caminho percorrido do paciente. Isto eu falo também baseado em meu processo psicoterapêutico.

Num dos últimos semestres da faculdade, um professor passou um vídeo do Steve Jobs fazendo um discurso na colação de grau da Universidade de Stanford. Nesse discurso ele dizia que uma hora as coisas que fizemos ao longo da vida (cursos, viagens e etc.) se ligam e tomam um sentido maior. Os pontos se ligam e as coisas fazem sentido. Lembro que neste dia foi plantada uma sementinha em mim que dizia “será que um dia as coisas vão fazer sentido para mim? Será que estes pontos realmente se ligam?”.

Hoje, neste momento da minha vida, eu consigo dizer que sim. Porém esta não é uma coisa fácil de se conscientizar (fácil no sentido de complexidade e de obstáculos a serem ultrapassados). Digo isto, porque dizer que os pontos se ligam, pelo menos alguns deles, é aceitar os acontecimentos da vida, é aceitar o passado como parte integrante e de muita importância do presente. É aceitar e, a partir da aceitação, compreender o seu ponto de vista. Tudo que me aconteceu até hoje, faz parte de quem eu sou. Tudo me integra, tudo me agregou, tudo isto me trouxe até aqui.

Dentro disso tudo, existe uma questão importante, que me inspirou a escrever este texto, que são “as coisas ruins da vida”. É claro que coisas ruins vão acontecer. Nós vamos nos machucar, as situações vão nos impactar de forma que não vamos mais querer reviver certas situações, momentos, relações… Isto acontece com todos, pois nós damos significados aos momentos que vivemos e estes significados estão fortemente relacionados com a forma como nos sentimos em tais momentos. Se algo que me aconteceu no passado foi interpretado como muito ruim, triste e etc., a chance de eu querer viver algo parecido não é muito grande. Isto é algo que nós, seres humanos fazemos, nós evitamos viver coisas de conotação aversiva. Estamos sempre em busca de prazer, realizações e coisas boas, porém é fato que não evitamos estas coisas ruins de acontecerem, e acreditar que isto pode ser evitado é uma grande farsa. É uma ilusão acreditar que a vida é feita apenas de prazer e alegria. Outro ponto também é acreditar que estas coisas ruins podem ser “eliminadas” de nossas vidas, sendo que não existe nenhum outro lugar para elas ocuparem se não dentro de nós mesmos. Coisas ruins acontecem, ponto.

Porém, e aqui trago uma notícia boa, estas coisas ruins podem ser transformadas em algo positivo. Pois bem, tudo isto que lhe aconteceu, te transformou em que você é hoje, certo? Se não fosse o seu passado, você não teria realizado todos os sentidos que da à vida hoje. E aqui, nós temos duas opções, ao meu ver: ou pegamos isto como aprendizado, os pontos se ligam, a vida continuou e tudo isto faz parte de quem sou hoje, ou podemos ver isto como “que droga de vida”, ficar ruminando e andando em círculos nestes momentos ruins. Esquecer as coisas ruins não está como uma opção para mim, pois isto é algo que eu não acredito que seja possível. “Esquecer” sim, deixar de lembrar, mas eliminar, retirar isto de quem é, não é possível. Faz parte da sua história, aconteceu com você.

E como transformar isso em algo positivo? Certo dia, meu psicoterapeuta me disse o seguinte, que eu posso olhar pra trás e pensar “muitas coisas me aconteceram e isto me fez mais forte, mais completa com meus significados” ou “nossa, que droga de vida, só aconteceram coisas ruins, não teve nada de bom”. É algo que eu já trouxe em outro texto (não me lembro qual), que é: nós podemos ser vítimas de nossas próprias vidas ou podemos nos dar o poder de protagonismo. Tudo depende da forma como olhamos para trás, dos significados, do nosso ponto de vista.

Nós podemos imaginar que tudo isso é nossa bagagem, ou como diz o título, nossa bagagem emocional. Tudo isso me aconteceu e tudo isso sou eu. Em todos os momentos que vivemos, nós nunca deixamos de ser. Nossa essência, nosso ser, sempre esteve, está e estará lá (onde, eu não sei, mas lá… sabe?). Nós nunca “abandonamos” nosso ser, podemos tomar atitudes inautênticas que não condizem com nossa essência, mas nunca não somos. Sempre somos. E bom ou ruim, sempre carregaremos esta bagagem conosco, ela não é passível de ser deixada para trás e anulada de nossas vidas.

Esta bagagem emocional a qual me refiro precisa ser tratada com carinho, acolhimento e paciência. Tudo isso nos aconteceu, muitas vezes sem motivo aparente ou sem motivo nenhum, apenas aconteceu. Mas tudo isso nos aconteceu, e de novo, tudo isso faz parte de nós, de nossa história. Então por que não olhar para trás e aprender? Por que não olhar para trás e permitir que tudo isso se integre em quem você é hoje?

Não é fácil, pois isso significa ter que transformar e dar novos significados à coisas que são difíceis de se lembrar, de falar sobre, de reviver mentalmente, mas se nós apenas guardamos estas coisas à sete chaves no cofre mais secreto que temos, de nada nos serviu estes momentos. Deixar que isto fique acumulando poeira é a mesma coisa que comprar uma roupa para guardar numa gaveta e nunca usar, ou comprar um alimento e deixá-lo estragar por não querer lidar com ele. O bom sobre isto é que existem diversas formas de olharmos para estas questões, não é necessário apenas falar sobre, mas o importante é não perder o contato, a linha que liga estes pontos. Pode ser através de desenhos, de poesias, de textos, mas é preciso não deixar cair no abismo do esquecimento, para lidar “depois’’ ou nunca mais. É preciso deixar arder na fogueira que acende nossa alma, pois só assim se transcenderá. Só passando pela dor, que alcançaremos consciência que estas coisas podem nos servir de aprendizado. E não digo infelizmente, pois nós aprendemos que sentir tristeza, raiva, ódio, angústia são coisas ruins e que devem ser evitadas a todo custo, quando na verdade, sentir tudo isso, sentir mesmo, na pele, é a única forma de passar pela situação sem esquecer e poder dar significados sustentáveis.

Tudo isto que nós sentimos, que vivemos, que passamos faz parte integral de quem somos. É tudo nosso. Nunca deixará de ser. Nunca deixaremos de ser, nunca vamos nos abandonar, por mais longe que nos encontremos de nossa essência, ela nunca sumirá do mapa. Uma vez uma colega citou um autor, não me lembro qual, que dizia que nós temos que adotar nossos filhos abandonados, ou seja, temos que acolher o que é nosso e foi abandonado em nosso passado, para que tal bagagem não seja um peso nos ombros e sim uma companhia que te faz olhar para trás com orgulho e não desprezo.

Então… o que te trouxe até aqui?