Loucura e liberdade

Recentemente me deparei com mais conceitos derivados do conhecimento existencialista sobre loucura e liberdade. E a partir de então tenho visto esta temática em diversas relações entre nós e o mundo.

Jean-Paul Sartre, filósofo existencialista acrescenta o conceito de serial. Segundo Bettoni (2002):

[…] O modo de ser destes indivíduos congregados apenas por relações formais (a espera de um ônibus ou as compras do mercado, por exemplo) é definido por Sartre como serial. […]

Ao meu ver, serial se aproxima da conceituação de definição por característica comum de um grupo de pessoas, ou seja, qualquer definição a despeito do meu ser me faz “pertencer” à algum serial (cor de cabelo, cor de pele, o que come ou não, profissão, idade, local de nascimento e etc). A partir da definição destes grupos, o que nós podemos ver é que existem certas formas de agir para com os mesmos e no que ao que interpretamos como loucura, podem ser negativas e muito prejudiciais.

Quando definimos uma pessoa como “louca” ou quando rotulamos uma série de comportamentos e formas de ser dentro de patologias, nós estamos utilizando do conceito de serial. E então me deparo com as seguintes perguntas: O que é loucura? Como a loucura existe em nossa sociedade? Quem é e quem não é louco?.

Voltando a falar sobre a forma de agir, no geral, exclusão e segregação são os principais norteadores de atitudes para com pessoas que “pertencem” ao serial de loucura, doença mental, transtorno mental, psicopatologia ou como queira chamar.

Acontece que, ao excluir e segregar estas pessoas, nós não estamos, de forma alguma, nos livrando desta condição. Estamos na verdade, impedindo a expansão das possibilidades de todos os seres humanos. É como se o louco não tivesse mais o direito de viver de forma digna, produzindo, alcançando satisfações pessoais e utilizando sua criatividade e subjetividade de forma positiva. As relações que estabelecemos com o mundo (tudo, objetos, pessoas, ideias, pensamentos, situações, tudo) têm enorme importância em nosso desenvolvimento pessoal e quanto mais nós experienciamos nossa vida, por nós mesmos e com os outros, mais a gente age de forma autêntica à quem somos em nossa essência. E quando proibimos e limitamos pessoas que estão neste serial de loucura, nós os estamos podando de forma que se perde o respeito. Se instala uma relação de poder que deprimi, reprimi e furta as possibilidades de ser. E quem é que tem o direito de fazer uma coisa dessas?

No Brasil, nos equipamentos do SUS que trabalham com esta parcela da população, pode-se notar que existe um descompromisso dos profissionais com o fazer, a atuação que tem como foco, a autonomia deste que se encontra em sofrimento psíquico. Ao olharmos para a loucura com o enfoque de sofrimento psíquico, me deparo novamente com a questão: Então quem é que é louco? Por que algumas formas de sofrimento psíquico são dignas de respeito (no quesito direitos humanos) e outras não? O que é loucura?

Tá, agora entra outra ideia advinda dos estudos de Sartre: “aceitação da condição de liberdade de escolha” . Este conceito me remete à compreender que, ao aceitarmos nossa condição de liberdade de escolha dentro do contexto que nos encontramos, é possível ampliar o olhar consciente para as possibilidades existenciais que estão “presentes” nisso que estamos vivendo no aqui e o agora. Como assim? Quando chegamos ao pensamento “Eu posso/quero/vou fazer isto ou não”, nós aceitamos que somos livres para fazer nossas escolhas. Aqui vale lembrar que nós nos encontramos sempre dentro de contextos sociais, que norteiam nossa intencionalidade nestas escolhas, portanto não é como se eu escolhesse que algo fantasioso pudesse acontecer sem mais nem menos. E olha só que interessante, quando nos desprendemos da expectativa de que as coisas devam acontecer da forma exatamente como imaginávamos, a frustração de quando isto não acontecer (porque quase sempre não acontece), é bem menor. É como se não fosse mais tão complicado olhar pra aquilo e deixar aquilo atrapalhar a nossa “paz”. Acontece que quanto mais “acumulamos” frustrações da nossa vida, mais pesado fica o caminhar.

E o que isso tem a ver com a loucura? Ao me fazer esta pergunta, eu alcancei a compreensão de que muitas vezes, quando fazemos algo que queremos, sem titubear ou pensar no que o outro vai dizer, corremos o risco de sermos taxados de loucos. E aqui cabem diversos julgamentos, o que vier a sua cabeça, para os momentos em que você faz algo que faz com que as pessoas fiquem perplexas. Neste movimento, nós nos apropriamos de uma ação do outro e a colocamos dentro de uma caixa, fechada, sem ar e sem espaço. Ao meu ver, é assim que lidamos com a loucura.

Mas e aí, como fica a questão das psicopatologias e todos os estudos que se tem sobre esta temática? Como psicóloga, minha opinião é que existe um espectro para comportamentos que vemos como prejudiciais à saúde (o louco precisa se tratar, não é mesmo?). Pois bem, para mim, a classificação de transtornos psicológicos serve como norteador de tratamento psicoterapêutico e psiquiátrico, porém não passa de uma ilusão ao pensarmos que esta rotulação é algo positivo. Na verdade, acredito que seja mais fácil acreditar nesta rotulação do que realmente lidar com os sofrimentos que os ditos transtornos, trazem às nossas vidas, não é mesmo?… Quando me refiro à este espectro, eu quero dizer que existe sim o desequilíbrio que pode sim ser prejudicial à saúde num geral. Mas isto não deveria ser limitante para o desenvolvimento integral de um ser humano.

Outra questão importante é a respeito da delimitação disso que vemos como transtornos psicológicos e loucura. Uma vez um amigo me disse que “cada um tem seus excessos” e para mim isto faz muito sentido nesta temática, pois todos nós temos questões desequilibradas em nossas vidas e muitas vezes precisamos de ajuda profissional para conseguirmos encontrar meios sustentáveis de lidar com as fragilidades e frustrações. Vejo também, que por parte de quem rotula estes transtornos, existe a necessidade de controle. Um exemplo disto é a ritalina para crianças rotuladas com déficit de atenção e hiperatividade. Aqui não nego a importância do tratamento medicamentoso quando necessário, mas trago a ideia de que, para se conseguir resultados satisfatórios de controle, existem os meios “mais fáceis” e estes são os mais desejados. O que se ganha com uma sala de aula com alunos “infernais” (como diz Drauzio Varella em seu vídeo sobre ritalina)? É mais fácil repetir os processos com todos sem levar em consideração às subjetividades, sempre presentes e quase sempre reprimidas e abafadas.

Dito isto, acredito minha principal crítica seja à forma como, ao encaixarmos as pessoas em seriais/classificações, nós perdemos algo muito importante na relação humana, a empatia. Deixamos de lado o fato de que nós mesmos temos nossos próprios excessos e desequilíbrios e apontamos o dedo para o outro. É uma forma de desresponsabilização pelas próprias escolhas, uma negação da condição de liberdade de escolha, projetada no outro. O outro deve ser detido para que eu possa viver em paz, sendo que somos todos parte do mesmo meio. Todos fazemos parte.

Hoje, revendo meus materiais da faculdade, me deparei com a seguinte anotação “Os três impossíveis de Freud”:
- esgotar o inconsciente: alcançar um estado final;
- governar: manter a paz e administrar a desordem e
- educar: nunca se completa e cumpre seu papel final.

Disto, me chamou atenção a questão sobre manter a paz e administrar a desordem. O que é desordem? O que é manter a paz? Por que não é possível manter a paz e administrar a desordem? De que forma a loucura é administrada? Será que a forma como lidamos com a loucura é benéfica para todos nós, como sociedade? Ou será que ela é útil apenas para alguns?

Referência Bibliográfica

BETTONI, Rogério Andrade. A FORMAÇÃO DOS GRUPOS SOCIAIS EM SARTRE. Metavoia, São João del Rei, v. -, n. 4, p.67–75, jul. 2002. Disponível em <https://ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/lable/revistametanoia_material_revisto/revista04/texto09_sociabilidade_sartre.pdf>.

Bruna Silva de Araújo

Written by

Psicóloga. Formação em Psicoterapia Fenomenológico-Existencial em curso.

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